Adão foi feito de barro: Mestre Vitalino

No dia 10 de julho 2019 celebram-se 110 anos de nascimento de  Mestre Vitalino.

Um mestre ícone da arte espontânea que com sua arte reproduziu como ninguém a alma brasileira, especialmente a nordestina.

A seguir um texto histórico de Raul Lody em homenagem ao mestre.

 

Mestre Vitalino confissionário – Divulgação

 

Amanhecer

Rio Ipojuca. Pernambuco, agreste, campos entre a mata e o sertão. Solo de terra mesclada com pedra. Região onde a mata é baixa, mata rasteira, arbustos, cenários de verdes pontuais e céu muito azul, raramente com nuvens, território do sol.

Assim, um palco, um espaço para experimentar, brincar, descobrir, imitar a vida com barro, água e fogo.

Barro, água e fogo unidos, técnica que, nas mãos do hábil, do criador, resultaria em marcas/modelos, hoje sacralizados, emblematicamente sacralizados nas figuras de barro de Mestre Vitalino.

Nos barreiros de beira-rio, do Ipojuca, os primeiros ensaios, motivações da mãe, louceira, experiências próprias de quem vive do barro.

As qualidades da pasta, da liga do barro do Ipojuca não atendiam às necessidades do trabalho oleiro, da garantia da boa queima, da venda de pratos, jarros, moringas, canecos – louça da casa, do utilitário cotidiano.

A família oleira segue para o Alto do Moura, localidade de barro farto e bom, boa matéria, barro-vida.

A vida do barro, a vida vinda do viver do barro é tão terra, que iguala homem a terra, e a terra ao homem. O homem parece ter brotado da terra e dela viver ou, melhor, sobreviver.

A arte do barro de Vitalino surpreende o próprio criador. Faço arte? Arte é uma nova categoria para a produção de Mestre Vitalino. Ela vem com meia dúzia ou dúzia inteira de teorias, de crítica, de salões.

Vitalino se inicia no ideal lúdico de oferecer, nas feiras, bonecos para criança brincar.

Bichos, homens, cenas têm chancela de arte, de arte popular, circunscrevendo princípios de autenticidade, tipicidade, regionalismo – vocações próprias do artista categorizado popular.

A arte feita à mão e a fogo ganha notoriedade no imaginar, no sonhar e no traduzir os entornos da casa, do Alto do Moura.

As figuras de barro seguem seus caminhos de venda, de consumo, de destinos de obras de arte para museus, galerias, coleções.

Vitalino é exemplo para outros criadores do Alto do Moura. Vitalino imprime estilo, encontra soluções de construção, de volume, de forma, de assinatura, estética.

Barro cozido, mais tarde, pintado, policromado, atendimento à fama, gozo dos intérpretes, dos investidores/apreciadores de arte.

Aquele valor artístico auferido à produção de Vitalino é assumido em cópia, em técnica, por tantos outros ceramistas, incluindo seus filhos.

É árvore que cresceu em descendências de família de sangue e de família esteta, fundindo-se essas famílias.

A arte de Vitalino é um quase sinônimo de arte popular brasileira. É um encontro com certos ideais de brasilidade, nacionalidade, de matriz nordestina, de brasileiro genuíno. Esses conceitos, sem dúvida, transitam e abastecem os bonecos de Vitalino.

Os ceramistas descendentes repetem uma memória iconográfica, revivem temas e, principalmente, formas, e cores – um estilo Vitalino.

Nessa nacionalização dos bonecos de Vitalino, sente-se uma relação autoral mais simbólica e representada do que a daquele que constrói o objeto. É Vitalino; contudo sem ser Vitalino.

 

Mestre Vitalino violeiros – Divulgação

 

Entardecer

O sonho de menino, o trabalho do homem, a conquista da idade madura transpõem em técnica a criação de mais de cem tipos diferentes de bonecos e cenas. Tipos que começaram com um gato maracajá trepado numa árvore, um cachorro e um caçador – cena que nasce com Vitalino aos seis anos de idade.

Leilão realizado no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Letras, comandado por Ary Barroso, inaugura um caminho de exposições no Brasil e no exterior, a fama.

Encomendas, vendas, produção ampliada, procura pelos consumidores de certos tipos – bois, retirantes, outros que trazem como um fetiche o regional eternizado.

A liberdade criadora de bois coloridos, floridos, figuras, algumas quase cubistas, outros retratando com fidelidade gestual, posturas, detalhes de momentos da intimidade da casa ou de acontecimentos públicos; Vitalino transita entre o sonho e a realidade agreste, por ele vivida e expressa na sua obra.

A feira de Caruaru, feira regional de comidas, de roupas – sulanca –, de bichos, de utilitários vários, de artesanatos em fibras, madeira, barro, reciclagens de papel, plástico, borracha, metais, em virtude de Vitalino, ganha atenções voltadas ao universo da arte popular, dos bonecos de Vitalino, peças souvenir de Caruaru, de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil. Reifica-se o significado do souvenir do que é brasileiro pela representação em estilo Vitalino. Há uma qualidade manifestada do Brasil num símbolo, quase heráldico, do que se vê no estilo Vitalino, um certo sentido rural, contudo quase urbano em tipos relacionados na temática Vitalino.

Destacam-se a propriedade do barro e suas muitas possibilidades, destaca-se a humanidade de trato e de relação com o barro. Há uma natural intimidade entre o barro e os sentidos, como se retomasse um modelo ancestre de criação, Adão foi feito de barro.

O barro é terra. Terra que traz os alimentos que mantém a vida. Terra, minério. Terra das caminhadas, de todas as estradas.

 

Mestre Vitalino estatua e fachada da sua casa – Divulgação

 

Anoitecer

Casa de Vitalino, casa de barro, casa-museu. Atestação do barro, da vida do artista que ganhou fama e morte cruel pela varíola.

Tão notória sua fama como sua morte entre paredes de barro, chão de barro. O homem confundido com sua matéria.

Varíola, doença perversa, como qualquer outra.

Quando se louvam o homem e sua obra, especialmente sua obra, fica o homem representado na memória da sua obra e não dele, homem.

Vitalino anoitece. A criação é mais durável do que o criador.

RAUL LODY – Original de 1993.

 

 


MESTRE VITALINO BIO

Mestre Vitalino por Pierre Verger

Nascido nos arredores de Caruaru, Vitalino morreu por haver contraído varíola, pobre e famoso, aos 54 anos de idade.

Com nove anos ele colhia mamona e algodão na roça com o pai. Com a mãe, aprendeu a fazer “loiça de brincadeira”, miniaturas que vendia para crianças na feira. Passou desses bichinhos para a composição de figuras isoladas com a peça “O caçador de onça”. E daí para os grupos de figuras, que retratam desde o trabalho agropastoril do camponês até o desterro, nas representações que faz dos retirantes, tão adequadas à sua linguagem dramática, solidária e expressionista.

Fixa igualmente ritos de passagem – nascimento, casamento e morte – e ergue do barro figuras míticas de cangaceiros, bois, lobisomens sangrando homens. A crescente popularidade, tanto local como nacional, trazida pelo seu trabalho inovador, exposto e vendido na feira, faz com que se mude para o Alto do Mora, em Caruaru, segunda cidade do sertão pernambucano. Cenas urbanas, como a dos consultórios de médico e dentista, parque de diversão, estação de rádio, incorporam-se ao seu temário.

Homem religioso, expansivo e com gosto pelo convívio, Vitalino tinha prazer em conversar com seu público na feira, em beber com os amigos, em tocar na banda de pífanos. Esse comportamento comunicativo e alegre, contraposto à dura condição da sua vida material, reflete-se em composições como “O homem foliando foliando samba”, “Violeiros”, “Queda de braço”, “Banda”, que mostram o artista gostando de estar no mundo, estar entre os homens.

De início, ele pinta suas composições com pigmentos naturais, feitos de barros de diferentes tons. A seguir usa tintas industriais, mas, como isso sai caro, passa a dissolver breu em querosene e a adicionar-lhes os preparados comerciais. Mais adiante, reserva os esmaltes comerciais para encomendas do público de maior poder aquisitivo e continua a vender trabalhos para os seus compadres habituais da feira, aqueles em que aplica o preparado com breu, para que também tenham a oportunidade de adquiri-los. Por fim, deixa as pequenas esculturas na cor natural do barro, devido à pressão de um mercado de fora, interessado em conferir um aspecto mais “rústico” e “puro” à produção do mestre.

A fase pintada de Vitalino mostra como a cor, para ele, não foi decoração, e sim elemento integrado ao volume , pela dosagem e seleção de tons baixos, em que irrompem manchas de branco e vermelho. A marca autoral que vai aparecendo no seu trabalho acompanha tanto a transformação do alargamento da sua consciência e fazer artístico, como seu percurso pelo mercado do universo urbano. As primeiras figuras isoladas não levam assinatura. Depois, no reverso de grandes grupos, ele escreve suas iniciais a lápis: V.P.S.

É só em 1947 que utiliza carimbo com essas iniciais, para finalmente, em 1949, imprimir seu nome nas composições. Criou-se em torno dele uma verdadeira escola de ceramistas. “Vitalino sendo o inventor, viu?”, declara Zé Caboclo a Hermilo Borba Filho e Abelardo Rodrigues (1967). O mestre desenvolve o que chamaríamos já de um estilo, no qual seu “expressionismo” se traduz por um elenco formal próprio, como bem observou o seu grande biógrafo René Ribeiro (1972): orelhas sempre aplicadas em forma de interrogação; curvatura dos joelhos em ângulo reto nas figuras sentadas; corte de boca definido mas contido; narizes com tendência a arrebitados.

 

Mestre Vitalino cangaceiro – Divulgação

 

Homem familiar e fraterno, Vitalino passou para os companheiros de profissão suas novas conquistas técnicas, deixava-se observar trabalhando. E também aprendeu algumas com eles, por exemplo, o arame empregado na sustentação interna das figuras inventado por Zé Caboclo.

Foi a exposição organizada por Augusto Rodrigues, em 1947, no Rio de Janeiro, que revelou Vitalino aos olhos do público maior. Seguiu-se esta, a outra, também individual, no Museu de Arte de São Paulo. A partir daí, “as inventações de motivo de boneco”, como dizia Zé Caboclo, passaram a frequentar regularmente as páginas de jornais e revistas, e ele se tornou conhecido nacionalmente. Poetas como Manuel Bandeira e Joaquim Cardoso escreveram sobre Vitalino.

Dos seis filhos de Vitalino – Amaro, Manuel, Maria, Antônio (que morreu moço, mas que chegou a realizar cópias fiéis do trabalho do pai), Severino Maria José -, apenas os três primeiros exerceram continuadamente a arte. Hoje, os seus netos Silvio, Vitalino e José exercem o ofício.

Extraído do Pequeno Dicionário do Povo Brasileiro, século XX | Lélia Coelho Frota – Aeroplano, 2005

 


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