Ibys Maceioh 50 anos de estrada agora nas vias digitais — RAIZ - Cultura do Brasil

Ibys Maceioh 50 anos de estrada agora nas vias digitais

Colaborando com a RAIZ


Por Gustavo S. Cavalcante


Sem ter como voltar para o nordeste após carnaval em São Paulo, músico teve de se reinventar para sobreviver e ajudar outros artistas durante quarentena

Ibys Maceioh é o nome artístico de Valmiro Pedro da Costa violonista, cantor e compositor brasileiro, que inciou seus estudos no violão com o também alagoano Zé Romero, discípulo de Dilermando Reis. Sempre ativo, o artista perpassa meio século da MPB iniciado no Choro Alagoano do qual foi um dos protagonistas. Alagoas é um estado que já nos deu Nelson da Rabeca, Hermeto Pascoal, Djavan e a responsabilidade vem de herança.

E em entrevista exclusiva para a Revista Raiz, Ibys Maceioh conta como pandemia o fez descobrir a internet e como, esse encontro os aproximou de outros artistas online, e assim tem garantido parcerias para seus colegas da canção popular através de lives

Ibys é um violonista e artista de personalidade com inúmeras canções e composições próprias e parcerias com grandes nomes da MPB e artistas locais da sua Maceió em Alagoas. Tocou, entre tantos, com Nico Assunção em parceria com João Bosco, Zé Keti, Oswaldinho do Acordeon, Noé Lourenço, Eduardo Gudin, Chico César, e Turíbio Santos, do qual foi aluno também.

Gravou seu primeiro compacto com Fernando Mota, pianista, em São Paulo. Cidade em que por três vezes esteve no programa Sr. Brasil, do amigo Rolando Boldrin da TV Cultura SP. Com Josias Damaceno gravou seu hit mais lembrado: “O amor Passarinheiro”. Quando morou no Rio de Janeiro, compôs “Papel de bala” junto ao membro da escola de samba Portela, Vanderlei Monteiro.

Alagoas, estado muitas vezes retido como local do baião e do forró, revelou a voz e o violão de Ibys, artista de 63 anos que toca bossa nova, samba e choro – regado de influências do sudeste à miscelânea com referências de Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

Ibys veio a cidade de São Paulo para o carnaval de 2020, esperava retornar a Maceió, mas defrontou-se de repente com o mundo em quarentena.

Ibys Maceioh - cultura popular na pandemia - Revista Raiz
Foto do perfil Facebook @IbysMaceioh

Em entrevista por vídeo-chamada à Raiz, o artista eclético nordestino, atualmente morador da Pompeia, bairro da capital paulista, descobriu em seu sossego num quarto cedido por amigos – ainda que a descoberta já seja de demasiado conhecimento da juventude – motivos de levar a vida a diante como artista.

“Aprendi a ter acesso à internet e me aproximar dela, cara, e hoje percebo como isso pode acrescentar no meu trabalho”, contou Ibys com certa euforia de seu inédito alcance imediato de informações que o tem brindado com canções de vários artistas de seus estilos cadentes, além de ter acesso a estudo que diz ter aprimorado seu trabalho.

A canção popular sempre teve grande importância em sua vida. A iniciação como internautas o trouxe possibilidades de expandir seus horizontes – ainda que não para atingir as massas – num novo jeito amplo e de acesso a todos.

“Agora aqui, isolado, descobrindo nessa pandemia todo esse espaço, acredito que na volta [pós quarentena] seja possível expandir meu mercado”, conta de sorriso contido.

Nas margens do mundo descoberto, visto o tempo de se reinventar, acabou por assistir muitas lives – mesmo que muitas, como disse, não o passava sustância de conteúdo direto. Todavia percebeu que, se podem falar sobre qualquer coisa online, este também era um direito seu.

“Fiz uma live um dia desses. Dali a pouco veio outros convites e, dessa forma, acabei mostrando 10, 12… 15 músicas novas ou não e de minha autoria” contou.

Em uma de suas gravações ao vivo, foi assistido por Guta Guerreiro, produtora cultura que, satisfeita pelo show, o convidou para participar de um programa que se tornou algo caro para Ibys.

Trata-se da Bodoque Produções, da Prefeitura de São Paulo, voltada para alavancar carreiras de talentos desconhecidos. Mas nessa quarentena ajudou a criar, junto ao site Rache Aqui, o projeto “Ajude um Músico” que contribuído com profissionais do ramo musical que têm enfrentado dificuldades.

Através de lives, Ibys ajuda a levantar insumos ao programa. Quando perguntado sobre o trabalho da Bodoque, o artista maceioense bradou: “Nunca temos nada preparado para uma emergência. Não nos precavemos. Não fosse as amizades que fiz, talvez nem conseguiria viver”.

De olhos marejados ao pensar em tantos amigos do cenário da música popular que o ligam pedindo ajuda, desconcertados pela vida financeira instável, Ibys se vê sobrevivente – mesmo que triste pelas dificuldades agravadas da classe artística a qual faz parte.

A pandemia o colocou diante da perspectiva de que, para sobreviver através da cultura popular nordestina, ao ver seus amigos de lá sem insumos, terá que dar um tempo a mais em São Paulo, tanto para si como para ajudar os seus.

“Foi pensando nessa circunstância [de falta de espaço para mostrar trabalho] que hoje vejo que tenho que morar numa cidade como essa de São Paulo. Eu nem tive mais como voltar para Maceió por conta da pandemia, mas hoje quero continuar e produzir aqui mesmo para sobreviver. Mesmo que os daqui lutem diariamente também. Mas lá [em Maceió] é muito mais difícil”, desabafa o cancionista e violeiro.

Ibys Maceioh - cultura popular na pandemia - Revista Raiz
Foto do perfil Facebook @IbysMaceioh

Futuro pós quarentena

Após alguns shows online – solo e com parcerias -, inserido na Bodoque Produções, Ibys acredita que para a classe da música popular sobreviver, é preciso uma unificação. “Pretendo continuar [na Bodoque] que é um modo de eu ajudar. Todo mundo tem que estar inteiro pra tocar. E espero que possamos ter mais acesso a estudos para evitar situações de perrengue como essas acontecerem de novo”.

No seu aconchego, carinhosamente apelidado pelo próprio como ‘preguiçoso’, tem composto buscando material para ter respaldo posteriormente.

Em seu ideal, a quarentena veio para que as pessoas aprendam a se respeitar e ajudar mais uns aos outros – sendo dentro dessa em que descobriu os alcances online, a Bodoque e novos motivos para ter esperança.

“Tenho 63 anos e espero ver um Brasil melhor. Essa pandemia não veio para ficar e eu ajudarei a todos os artistas que eu puder e nós ajudaremos uns aos outros”.


SERVIÇO

Para saber mais do Ibys
http://ibysmaceioh.blogspot.com/
http://www.youtube.com/user/Ibysmaceioh1
https://ibysmaceioh.ajudeummusico.com/

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Bodoque Produções@bodoqueproducoes

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