Luis Kinugawa e a ponte Brasil X África Ocidental — Revista RAIZ - cultura brasileira

Luis Kinugawa e a ponte Brasil X África Ocidental

Colaborando com a RAIZ

África-Brasil: percussão musical e projetos sociais é a vida de Luis Kinugawa que planeja dias melhores para Guiné

O percussionista conta como tem sido tocar seus projetos na quarentena e sua história ligada ao continente africano

Por Gustavo S. Cavalcante

Em janeiro de 2020, um projeto que vinha sendo desenvolvido há anos foi enfim concluído, enchendo Luis Kinugawa, percussionista, de esperanças para o ano.

Um plano desenvolvido em Guiné, na África, voltado para a permacultura veio trazendo uma campanha para produzir alimentos. Com a agenda cheia, Luis se entusiasmava, mas logo viu o mundo parar por conta da quarentena, trazendo a perda de compromissos e shows marcados.

Para ocupar-se de modo a contornar a crise, o músico decidiu não parar ressabido de que isso o levaria a depressão. Prostrou-se então em pegar projetos do passado, revendo estudos ligados ao continente africano – o foco do seu trabalho.

Luis Kinugawa e Fanta Konatê - Cultura Popular na pandemia - Revista Raiz
Fanta Konatê e Luis Kinugawa em foto do perfil @luiskinugawa

África

Algumas decisões tomadas podem moldar a vida de uma pessoa? Talvez no exemplo prático de Luis a resposta seja afirmativa.

Kinugawa havia ido a Guiné pela primeira vez para fazer um trabalho voltado a etnomusicologia. Logo terminado seus afazeres em seis meses estava de malas prontas para voltar ao Brasil, mas acabou perdendo o voo.

Pensava em comprar uma passagem para o dia seguinte, claro, mas numa ideia que lhe surgiu repentinamente, tomou a decisão de ficar por mais tempo e assim morou em Guiné por dois anos.

Nesse período conheceu, vinda de Guiné, aquela que viria ser sua mulher, Fanta Konatê – cantora e dançarina dedicada a um som que interliga o Brasil e a África.

Juntos, trabalharam com refugiados no país de Fanta, passaram três meses ensinando educadores para lidar com crianças refugiadas num campo de 10 mil pessoas.

Nos trabalhos ali dedicados Luis admira-se, sobretudo, pelos ensinamentos musicais passados, a grande formação de sua vida.

“Passei a vida me dedicando a pesquisas sobre sons ancestrais e contemporâneos da África. Hoje no projeto que tocamos, o Canal África Viva, trazemos o conhecimento de músicos que vão surgindo e muitas vezes ficam margeados do público”, conta Luis.

Um grande enfoque de sua carreira, a música como terapia foi o que levou a ter interesse pelo continente africano. Hoje, o percussionista vê como essencial o estilo para auxiliar as pessoas na quarentena.

“É um estilo que trabalha diversos sentimentos”, comenta Luis, “e a pandemia fez a gente pensar que a vida humana está sempre por um fio e, nessa angústia, percebemos que a cura muitas vezes vem de um motivo psíquico, um motivo espiritual que pode vir da música”.

Quanto a crise financeira que abarca o setor da música popular, Kinugawa entende que é um processo vindo desde a troca de governo – um indicativo de que os músicos populares seriam menos valorizados.

O artista popular que dedicou a vida para fazer arte, nesse momento de crise não encontra outros modos para sobreviver e Luis teme pelo setor.

“Existe um esforço enorme pra que tudo seja inviabilizado, se torne invisível na cultura popular e a minha mulher, a Fanta é um exemplo disso. Poucos têm acesso ao conhecimento da canção popular porque é uma invisibilidade estruturada para isso.”

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@troupedjembedon em foto do perfil @luiskinugawa

Saídas para o futuro

Com um sentimento otimista, Luis afirma que é o momento de revolução da cultura popular e recomenda que os artistas devem buscar a inovação criativa, ampliar conhecimentos e conexões para a continuidade de suas atividades e os encontros digitais podem promover essa troca de conhecimentos e idéias.

Um dos modos dessa revolução enxergada pelo percussionista é que artistas e produtores com carreira e projeção maiores nas redes possam dar visibilidade a artistas que são menos acessados, e que as carências da cultura popular possam vir a ser atendidas pela mobilização coletiva. Mantendo uma postura de não virar as costas, Luis atualmente radicado em Ribeirão Preto, São Paulo, utilizou do tempo da pandemia para iniciar uma campanha de produção de alimentos em Guiné.

“A minha vida nessa quarentena é continuar tocando os projetos. Acabamos de concluir na Guiné uma obra voltada para o desenvolvimento humano através da arte e permacultura que buscará capacitar pessoas para uma sustentabilidade básica de alimentos e, mobilizando através da música e outros projetos atuais, apresentaremos as ações Brasil-Guiné da África Viva a quem se interessar. Não poderia parar por conta da pandemia visto que o nosso projeto vem muito antes disso e precisei continuar desenvolvendo tudo que fosse possível, para que os sonhos e progressos nesses 20 anos não morram nem durante e nem depois da quarentena.”


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