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Memórias Vivas: exposição revela a força dos saberes indígenas do Sul do Brasil

Mais do que uma mostra sobre objetos, Memórias Vivas convida o público a percorrer histórias, territórios e formas de existência que atravessam séculos.

A exposição, organizada pelo Museu de Arte Indígena (MAI), apresenta um panorama das culturas indígenas do Sul do Brasil, reunindo narrativas, artefatos e referências que evidenciam a diversidade de povos, línguas, cosmologias e práticas culturais que seguem vivas e em constante transformação.

O percurso destaca especialmente as trajetórias dos povos Guarani Mbya, Xokleng (Laklanõ) e Xetá, revelando como memória, identidade e patrimônio cultural permanecem presentes tanto nas tradições quanto nas adaptações contemporâneas. A mostra propõe um olhar que ultrapassa visões estereotipadas dos povos originários, evidenciando a vitalidade de seus conhecimentos e a permanência de suas formas de organização social, espiritualidade e produção artística.

Entre os destaques estão os grafismos Guarani Mbya, presentes principalmente na cestaria, uma das expressões artísticas mais emblemáticas desse povo. Mais do que elementos decorativos, os desenhos funcionam como linguagem visual que conecta os artistas aos ancestrais e aos mitos de origem. Os padrões geométricos carregam significados simbólicos, espirituais e cosmológicos, reafirmando a cultura Guarani por meio da arte.

Cestos Guarani - Mbya - acervo MAI
Cestos Guarani – Mbya – acervo MAI

A exposição também apresenta a importância da cestaria na tradição Guarani. Segundo a narrativa mítica, os cestos teriam sido ensinados por Nhanderu, divindade central da cosmologia Guarani, para o transporte do milho sagrado e das crianças. Ainda hoje, essas peças mantêm seu valor cultural, mesmo quando passam a dialogar com novos contextos econômicos e de comercialização.

Outro núcleo reúne esculturas zoomórficas em madeira conhecidas como Vixo Ra’angas. Produzidas a partir de espécies coletadas de forma seletiva na floresta, essas obras representam animais associados a ensinamentos, qualidades e relações espirituais. Onças simbolizam coragem, corujas tornam-se guardiãs da noite e tartarugas evocam resistência, revelando uma visão de mundo em que natureza e cultura são indissociáveis.

A mostra aborda ainda as chamadas Árvores da Vida, expressão artística contemporânea surgida entre comunidades Guarani após a formação do lago da Hidrelétrica de Itaipu. A imagem da árvore tornou-se símbolo de resistência e memória diante das transformações ambientais e dos deslocamentos forçados vividos pelas populações indígenas da região.

Ao apresentar a história dos Xokleng, povo que se autodenomina Laklanõ, a exposição evidencia processos de resistência cultural e recuperação linguística. Atualmente concentrados principalmente na Terra Indígena Ibirama, em Santa Catarina, os Laklanõ vêm fortalecendo ações de valorização de sua língua e de sua memória coletiva, em resposta aos impactos históricos da colonização e da perda territorial.

Operação Mymba Kuera no Lago de Itaipu - Disponível em:
https://santahelena.portaldacidade.com/noticias/regiao/ha-40-anos-itaipu-resgatava-36-milanimais-na-formacao-do-reservatorio-0207
Operação Mymba Kuera no Lago de Itaipu – Disponível em:
https://santahelena.portaldacidade.com/noticias/regiao/ha-40-anos-itaipu-resgatava-36-milanimais-na-formacao-do-reservatorio-0207

Já a trajetória dos Xetá surge como um dos capítulos mais contundentes da exposição. O contato tardio com a sociedade não indígena, ocorrido apenas na década de 1940, desencadeou um processo de dispersão e violência que quase levou ao desaparecimento do povo. Hoje, iniciativas de preservação da memória e do patrimônio material ajudam a reconstruir histórias interrompidas e reafirmar identidades que resistiram ao tempo.

A exposição também recupera a importância do Caminho do Peabiru, uma das mais extraordinárias rotas indígenas da América do Sul. Muito antes da chegada dos europeus, essa rede de caminhos conectava diferentes territórios e povos do continente, ligando regiões do Atlântico ao Pacífico. Para os Guarani, o percurso estava associado à busca pela Terra Sem Mal, tornando-se símbolo de deslocamento, espiritualidade e intercâmbio cultural.

Ao reunir arte, memória e história, Memórias Vivas reafirma a centralidade dos povos indígenas na formação cultural brasileira. Mais do que preservar objetos, a exposição preserva narrativas, saberes e modos de vida que continuam a inspirar reflexões sobre diversidade, pertencimento e patrimônio cultural no Brasil contemporâneo.

Serviço

MAI – Museu de Arte Indígena
41 3121-2395
Avenida Água Verde 1413, Curitiba, Paraná, 80620-200
De segunda a sexta das 10h às 17h30