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Livro Modernistas brasileiros em Paris

Colaborando com a RAIZ

A publicação conduz o leitor à efervescente Paris dos anos 1920, descrevendo os encontros culturais e os bastidores dos círculos de sociabilidade entre grandes artistas brasileiros e as vanguardas europeias.

A Semana de Arte Moderna de 1922 é uma das datas mais marcantes para a cultura brasileira. Muito do que aconteceu foi gestado pelos seus protagonistas nas suas experiências internacionais, notadamente em Paris, França.

Esse é o tema que aborda o livro “Modernistas brasileiros em Paris nos anos loucos”, de Marcia Camargos.

Na década de 1920, a capital francesa era o epicentro das inovações artísticas e intelectuais das vanguardas, atraindo criadores de todo o mundo. Além de nomes como Pablo Picasso, Salvador Dalí e Ernest Hemingway, artistas icônicos do modernismo brasileiro como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos foram influenciados pela efervescência cultural parisiense nos chamados “anos loucos”. Em Modernistas brasileiros em Paris nos anos loucos, novo lançamento das Edições Sesc São Paulo, a escritora, jornalista e doutora em História Social Marcia Camargos apresenta o mergulho dos modernistas brasileiros nas vanguardas europeias, desde seus primeiros passos nas galerias parisienses até a consagração internacional.

Especialista na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922, Camargos explora as nuances que a arte brasileira experimentou na Paris da época e como esse grande encontro reverberou na formação de uma identidade artística nacional mais cosmopolita e revolucionária. Para a professora livre-docente da USP Nádia Battella Gotlib, que assina o texto da orelha, “trata-se de um mergulho denso e acertado, com grande quantidade de informações precisas, a que se acrescentam detalhes inéditos que permitem uma ampla configuração da matéria”. Gotlib afirma que, “ao combinar rigor na investigação, familiaridade com o tema e tom informal e prazeroso na explanação, a autora nos leva a outro patamar de aproximação destes anos agitados”.

O primeiro capítulo, “Entre dois mundos”, contextualiza esse intercâmbio entre os modernistas brasileiros e a vanguarda artística centrada em Paris na década de 1920. A autora começa abordando como a Semana de 1922 imprimiu sua marca na então provinciana São Paulo, consagrando-se como o primeiro ato público do que viria a ser conhecido como modernismo. Traça, então, um panorama dos “anos loucos” da década de 1920, que sucederam a Belle Époque (enterrada com a Primeira Guerra Mundial), uma época de crescimento econômico, avanços tecnológicos e contestação social e cultural. No epicentro da modernidade estava Paris. “A cidade em ebulição exercia um fascínio compreensível nos espíritos ávidos de novidades, tornando-se a meca dos artistas de todo o planeta”, afirma a autora. Entre pintores, escultores, escritores e músicos, essas mentes inquietas reuniam-se nos salões e cafés do Quartier Latin e de Montparnasse.

Separada por um oceano geográfico e, também, simbólico, São Paulo estava muito distante daquele universo. Mas um grupo restrito de jovens brasileiros bem relacionados nos meios culturais embarcaram rumo ao Velho Continente, em demorada viagem marítima, participando, cada um à sua maneira, dos “anos loucos” em Paris. A autora explica como chegou aos nomes dos modernistas brasileiros abordados em sua pesquisa, a saber: Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Villa-Lobos, Victor Brecheret e Vicente do Rego Monteiro, todos participantes da Semana de 1922, e Tarsila do Amaral, que, apesar de não ter participado oficialmente do evento, foi considerada a musa da Semana. Camargos também lembra do poeta e crítico Sérgio Milliet, considerado o “homem-ponte” entre os artistas brasileiros e a cena parisiense. Outra figura lembrada é Luiz Souza Dantas, então embaixador brasileiro na França e anfitrião de famosos bailes e festas que reuniam políticos, intelectuais e artistas.

Modernistas brasileiros em Paris nos anos loucos

No segundo capítulo, “No embalo das vanguardas”, Camargos descreve o ambiente e o cotidiano dos artistas brasileiros. Malfatti, Di Cavalcanti e Brecheret, que dependiam de bolsa, se fixaram no bairro de Montparnasse, se dedicavam aos estudos, visitavam os museus e assistiam a peças de teatro, balés e concertos “quando o curto orçamento permitia”. Mais abonados, Tarsila e Oswald, casal conhecido como “Tarsiwald”, tinham recursos para frequentar bons restaurantes, cabarés e saraus da moda. Nos capítulos seguintes, a autora segue explorando as ruas estreitas e as grandes avenidas, os bairros boêmios e a efervescência artística e cultural parisienses, em narrativas leves e divertidas repletas de informações e referências. Ela conta, por exemplo, como Montparnasse se tornou o bairro preferido dos artistas e como o circuito artístico parisiense se estabeleceu.

O capítulo 5 se aprofunda na estada de Victor Brecheret em Paris, e os capítulos seguintes focam na trajetória de Oswald e Tarsila e na relação da dupla com o escritor franco-suíço Blaise Cendrars, outro “guia” dos brasileiros pelos meandros cultos da cidade. Ela descreve em detalhes a boa vida de Tarsiwald entre os bistrôs, cafés e almoços festivos que promoviam, com feijoada e cachaça. Camargos explora ainda como o contato com o ambiente multicultural e arrojado da cena parisiense influenciou os brasileiros a radicalizarem suas propostas estéticas, valorizando o repertório nacional. Os demais capítulos focam, respectivamente, em Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Rego Monteiro e Villa-Lobos.

Para Villa-Lobos, Paris foi um ponto de inflexão

Ainda em início de carreira, Villa-Lobos foi friamente recebido na Semana de 1922 e, no ano seguinte, embarcou para Paris, com verba do governo federal, para representar a música brasileira na Europa. Ilustre desconhecido em terras franceses, foi apresentado à cena local por Oswald e Tarsila. No apartamento dela, conheceu Blaise Cendrars, Erik Satie e Jean Cocteau e, na ocasião, o grupo iniciou um debate sobre improvisação. Villa se sentou ao piano “para dar o seu recado”, segundo Camargos. Imediatamente, Cocteau, “conhecido por suas brincadeiras e comportamento lúdico, colocou-se embaixo do piano para ‘ouvir melhor’. No final, porém, ele lançou um feroz ataque, dizendo que aquilo não passava de uma emulação de Debussy e Ravel”. Os dois artistas discutiram calorosamente e quase foram às vias de fato.

O brasileiro ficou furioso, mas, para a autora, esse evento foi “o ponto de inflexão na trajetória artística de Villa-Lobos”, levando-o a um processo de transformação de suas concepções acerca da música brasileira e da própria obra. Camargos também narra a convivência do maestro brasileiro com o pianista Arthur Rubinstein e o compositor Darius Milhaud, apaixonado pela música brasileira.

Como um todo, o livro mostra como os sete modernistas brasileiros “redescobriram o Brasil” ao saírem dele e entrarem em contato com o cosmopolitismo e as vanguardas parisienses. Nesses loucos anos de 1920, a capital francesa atraía as mais diversas manifestações artísticas, da música negra norte-americana à música erudita russa e até mesmo a gravura japonesa. Nesse ambiente, os brasileiros perceberam que, para serem verdadeiramente modernos, precisariam mergulhar nas raízes de seu país de origem e nas expressões populares. E, desta forma, acabaram por revolucionar a arte brasileira.

SOBRE A AUTORA

Marcia Camargos é escritora, jornalista, doutora em História Social para Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutora pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e pela Universidade Paris-Sorbonne (França). Tem 35 livros publicados, entre ensaios, biografias, romances e infantojuvenis, alguns dos quais receberam prêmios literários como o Jabuti e o Livro do Ano, pela Câmara Brasileira do Livro. Centrou sua pesquisa acadêmica na formação do campo cultural paulistano, na Semana de 22 e no modernismo. Mudou-se para a França em 2016, de onde colabora com a imprensa brasileira e escreveu, entre outros, La guerre en douceur, Est-ce chic de vivre à Paris? (livros bilíngues) e Hermanas bolivianas – os dois últimos em coautoria. Atua no coletivo Alerta França Brasil e na Associação Memória da Resistência Brasileira na França, além de ser uma das fundadoras da União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (Ueelp).

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Pautadas pelos conceitos de educação permanente e acesso à cultura, as Edições Sesc São Paulo publicam livros em diversas áreas do conhecimento e em diálogo com a programação do Sesc. A editora apresenta um catálogo variado, voltado à preservação e à difusão de conteúdos sobre os múltiplos aspectos da contemporaneidade. Seus títulos estão disponíveis nas Lojas Sesc, na livraria virtual do Portal Sesc São Paulo, nas principais livrarias e em aplicativos como Google Play e Apple Store.

Modernistas brasileiros em Paris nos anos loucos

Ficha técnica

Modernistas brasileiros em Paris nos anos loucos
Autora: Marcia Camargos
Edições Sesc São Paulo, 2024
Número de páginas: 200
ISBN: 978-85-9493-301-0
Preço de capa: R$ 65,00

Os títulos das Edições Sesc São Paulo podem ser adquiridos nas unidades do Sesc São Paulo, nas principais livrarias e no portal www.sescsp.org.br/livraria

Colaborando com a RAIZ