Águas de axé
texto de Raul Lody
A festa do Bonfim na cidade do São Salvador.
Na tão popular festa de Nosso Senhor do Bonfim, na cidade do São Salvador, a grande marco das celebrações se dá com o ritual da “lavagem”.
Muitas celebrações em diferentes povos e culturas são iniciadas com os “banhos”, sejam estes objetos ou ambientes, para assim estarem prontos para integrarem a realização de diferentes cerimonias nas diversas tradições religiosas.
Na Bahia, as bases culturais africanas e, em destaque, a Yorubá, onde o mito da criação do mundo e dos homens vem com Oxalá, é representado pela água germinal, água enquanto um símbolo da fertilidade.
Celebra-se a água do nascimento, da vida. Água indispensável para a agricultura; como elemento fundamental para o homem. Estes são valores de civilizações africanas que buscam sempre preservar os rios e as fontes de água, numa consciência ecológica integrada às tradições culturais.
Essas bases ancestrais africanas estão presentes nas festas assumem um sentido de purificação, e aqui o nosso exemplo é uma das celebrações coletivas mais populares no Brasil e, em especial, para a Bahia que é o ciclo de festas do Bonfim, uma festa das águas. Esta festa é popularmente conhecida como “Lavagem do Bonfim”.
É uma manifestação de religiosidade e de memória africana que se une ao imaginário católico, tendo como lugar de devoção a igreja de Nosso Senhor do Bonfim.
Assim, vive-se uma forma sincrética de interpretar o santo da Igreja com o olhar e a emoção africana dos Yorubá.
Essa manifestação pública culmina com o ato de lavar a tão popular Igreja do Bonfim, para preparar o lugar também no simbólico, e atribuir a fertilidade que é representada por meio da água limpa, água especialmente coletada, água ritualizada.
Hoje, o adro da igreja é o lugar do ritual da lavagem, mas originalmente era toda a igreja. Este ritual, até hoje, acontece com as baianas vestidas de branco, quando usam as suas indumentárias de festa, repletas de joias; e portam jarros, quartinhas ou quartas de barro, que contém água limpa e fresca, e flores, para assim realizarem a “obrigação” da Lavagem do Bonfim. Desta maneira as memórias ancestrais são retomadas, e as cerimônias se ampliam além da igreja.
Há também um ciclo especial de festas e de cerimônias privadas nos muitos terreiros de tradição religiosa de matriz africana, conhecidos como “Águas de Oxalá”.
Nas festas que acontecem diante da igreja do Bonfim, e as das comunidades dos terreiros, as indumentárias de baiana totalmente brancas, engomadas, de rendas e de bordados, marcam a estética deste ciclo de celebração da vida a partir das águas.

Baianas do Bonfim
As indumentárias trazem referências e comunicam uma síntese de símbolos sobre etnia, território, identidade e estética; e neste acervo visual das montagens de tecidos e joias está a tão conhecida indumentária de baiana.
E entre as interpretações visuais que dão diversidade a este “tipo”, está consagrado no imaginário brasileiro a indumentária baiana do Bonfim.
As baianas do Bonfim caracterizam-se pelas suas indumentárias brancas, muito alvas, exageradamente engomadas, perfumadas de alfazema ou outras flores, quando estas mulheres de fé se tornam verdadeiras instalações móveis de luxo. Elas exibem muitos adornos e, em especial, muitos fios de contas brancas, de prata, de alpaca; alguns correntões de elos largos com relevos em prata, entre tantos.
A indumentária segue a organização tradicional da baiana: camisa ou camizu; bata; saia muito rodada; pano de costa; turbante e chinelas de couro.
Estas indumentárias têm também muitas anáguas também, repletas de muita goma, e barras de renda. Há uma espécie de competição para exibir a mais rica e bordada indumentária. É uma ostentação de luxo com bordados e rendas.
As rendas e os bordados são os mais elaborados, complexos, e muitas destas indumentárias têm valor patrimonial, e são preservadas como bens familiares, e assim transmitidas para outras gerações de baianas.
A baiana do Bonfim é ainda identificada pelo uso de um jarro que é pintado de branco, e/ou com pinturas que têm a igreja do Bonfim com tema; também este utensilio poderá ser “vestido” com uma pequena saia de tecido branco; este jarro é portado tradicionalmente sobre a cabeça, tendo como apoio uma rodilha feita de tecido branco.
Sem dúvida, a baiana do Bonfim é um dos mais notáveis exemplos da construção afrodescendente de uma indumentária e seus muitos significados estéticos e sociais.
Festa de largo
“A baiana deu sinal
Lê, lê, lê baiana (…)”.
(Samba de roda tradicional da Bahia)
Estas festas são organizadas nos espaços próximos às igrejas, às praças, aos adros ou largos, e daí o seu nome “largo”. Quase sempre são grandes áreas para se receber multidões que vão realizar suas devoções, passear, comer um acarajé, marcar encontros, experimentar uma festa popular.
O sentimento da devoção na festa de Largo é amplo e diverso, e está relacionado com as procissões, os pagamentos de promessas, e demais rituais pessoais e coletivos. A festa de Largo é uma festa para se comer, dançar; e é uma maneira mais livre de se viver o que é sagrado.
Haviam barracas especialmente montadas para abrigar as cozinhas, e os espaços para alimentação, em geral mesas coletivas e bancos, são ambientes adornados com jarros de barro e folhas de proteção: espada de São Jorge, peregum, São Gonçalinho, entre outras. As barracas eram famosas pelos seus cardápios de gosto popular e tradicional, e pelas cozinheiras que migravam dos seus restaurantes e das suas bancas dos mercados para montarem seus espaços do bem comer à baiana.
E em destaque, as comidas do Recôncavo à base de azeite de dendê, e também as chamadas comidas de festa. Sarapatel; feijão; “feijoada bordada”, que é rica em carnes fresca, seca, embutidos e os “salgados”, partes selecionadas do porco; bebidas; cervejas, batidas de frutas.
Próximas as barracas, estão dezenas de “baianas de tabuleiro” que oferecem acarajé, abará, passarinha, cocadas e outros doces como o de tamarindo, bolos, lelê de milho, e ainda frutas da época.
As festas de Largo também são identificadas por suas rodas de capoeira, pelo samba de roda tradicional do Recôncavo, onde o ritmo é marcado pela batida de palmas, o pandeiro e a viola. Ainda nestas festas, há alguns parques de diversão populares.

