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“Nzo – Memórias Afro-brasileiras” reúne acervos de diferentes regiões do país no Museu Afro Brasil

Primeira exposição da Rede de Acervos Afro-brasileiros apresenta mais de 150 obras e registros de iniciativas comunitárias, museus, terreiros e arquivos dedicados à preservação das memórias e dos patrimônios negros.

Em kikongo, língua banta falada em regiões da África Central, nzo significa “casa”. Nos candomblés de tradição Angola, a palavra também designa a casa de culto: um espaço de convivência, acolhimento e transmissão de conhecimentos entre gerações. É a partir dessa ideia que se organiza “Nzo – Memórias Afro-brasileiras”, primeira exposição da Rede de Acervos Afro-brasileiros, em cartaz no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, até 28 de fevereiro de 2027.

A mostra reúne mais de 150 obras e registros preservados por diferentes iniciativas do país. Fotografias, documentos, objetos, produções artísticas, registros audiovisuais e sonoros compõem um panorama da diversidade de experiências negras no Brasil. Mais do que apresentar coleções, a exposição evidencia o trabalho de comunidades, instituições e pessoas que constroem formas próprias de preservar, organizar e compartilhar suas memórias.

A Rede de Acervos Afro-brasileiros articula iniciativas de diferentes regiões e escalas. Estão representados museus, memoriais vinculados a comunidades de terreiro, arquivos fotográficos, centros de documentação, associações negras, quilombos e projetos de pesquisa. Muitos desses espaços nasceram de esforços coletivos e da necessidade de enfrentar o apagamento histórico das contribuições da população negra na formação cultural brasileira.

Terreiros, territórios e arquivos vivos

Uma das dimensões presentes na exposição é a compreensão dos terreiros como espaços de produção e transmissão de conhecimento. Neles, a memória não está restrita aos objetos preservados: manifesta-se também nos cantos, nos rituais, nas práticas religiosas, nos modos de fazer, na oralidade e nas relações comunitárias.

Essa perspectiva aparece em iniciativas como o Memorial Mãe Menininha do Gantois, em Salvador, que reúne mais de 500 peças relacionadas à trajetória da sacerdotisa e à história do terreiro; o Memorial Ekedi Onitoju, do Ilê Axé Inginoquê Omorossí, também na capital baiana; e o Museu Memorial Oxum, vinculado ao terreiro Egbè Ilè Ìyá Omidayè Asé Obálayó, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, o Asè Alaketù Ilè Ogun, fundado em 1972, compreende seu acervo como um patrimônio que inclui objetos, práticas de culto, cantos e saberes transmitidos entre gerações. Já a Frente Ilê Odé apresenta uma experiência de preservação marcada pela reconstrução da memória após a destruição de grande parte do terreiro Ilê Asé Odé Ibualamo, em Carapicuíba, em 2022. Fotografias comunitárias, depoimentos, registros audiovisuais e objetos remanescentes documentam a história e a mobilização pela reparação.

A exposição também reúne experiências que preservam a memória de territórios quilombolas e comunidades tradicionais. É o caso do Quilombo São Pedro, no Vale do Ribeira, cuja Casa de Memória reúne objetos do cotidiano, fotografias, ferramentas e registros da ancestralidade local. No Amapá, o Museu Afro Amazônico Josefa Pereira Lau valoriza as relações entre culturas africanas e amazônicas e as vivências da população negra do estado.

Fotografia, música e pensamento negro

Outros acervos ampliam o campo da memória afro-brasileira por meio da fotografia, da música e da documentação de trajetórias intelectuais e artísticas. O Zumví Arquivo Afro Fotográfico, criado em Salvador em 1990, reúne cerca de 30 mil negativos sobre a cultura afro-baiana, com registros do movimento negro, de manifestações culturais e do cotidiano da população negra.

A memória sonora também ocupa lugar importante. O Instituto Djalma Corrêa preserva mais de 10 mil itens digitalizados, entre fotografias, filmes, gravações de campo e registros de shows e ensaios do percussionista e pesquisador. O Acervo dos Santos, em Fortaleza, reúne fonogramas produzidos entre as décadas de 1930 e 1990, com músicas ligadas às tradições de Umbanda, Candomblé e outras expressões religiosas afro-brasileiras.

A Rede contempla ainda arquivos dedicados a figuras fundamentais do pensamento e da cultura negra. O Ipeafro, fundado por Abdias Nascimento e Elisa Larkin Nascimento em 1981, preserva documentos, imagens, obras de arte e materiais audiovisuais relacionados à trajetória do artista, escritor e ativista. A Casa Sueli Carneiro, em São Paulo, organiza um acervo com mais de 4 mil documentos, livros e registros acumulados desde a década de 1970. Já o Instituto Memorial Lélia Gonzalez trabalha na salvaguarda e difusão do legado intelectual e político da autora.

Esses conjuntos mostram que a memória afro-brasileira não se limita à história das instituições ou às manifestações religiosas. Ela abrange também a produção artística, a organização política, as experiências cotidianas, as formas de sociabilidade e as contribuições intelectuais da população negra.

Preservar é também produzir conhecimento

A diversidade das iniciativas reunidas em “Nzo” revela diferentes modos de atuação. Há instituições com décadas de história, como o Museu Afro Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, inaugurado em 1982, e projetos comunitários mais recentes, como o Museu Pai Dadá, criado em 2024, na Bahia. Alguns acervos estão organizados em espaços físicos; outros utilizam plataformas digitais, arquivos colaborativos e recursos audiovisuais para ampliar o acesso.

A preservação também está associada à educação, à formação de pesquisadores, ao enfrentamento do racismo e da intolerância religiosa e à defesa dos territórios. Em diferentes regiões, essas iniciativas promovem oficinas, exposições, pesquisas, atividades educativas e ações de documentação realizadas em parceria com as próprias comunidades.

Ao reunir esse conjunto no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, a exposição coloca em evidência uma dimensão fundamental da história cultural brasileira: a população negra não é apenas tema de acervos e narrativas construídos por terceiros, mas protagonista da preservação de sua memória, da produção de conhecimento e da transmissão de seus patrimônios.

Nesse sentido, Nzo é também uma chave para compreender a proposta da mostra. A casa, entendida como lugar de memória e compartilhamento, ultrapassa seus limites físicos e se estende aos territórios, às comunidades e às redes que mantêm vivas as histórias afro-brasileiras.

Serviço

Nzo – Memórias Afro-brasileiras
Local: Museu Afro Brasil Emanoel Araujo – Parque Ibirapuera
Em cartaz até: 28 de fevereiro de 2027
Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, Parque Ibirapuera, Portão 10, São Paulo (SP)
Horário: das 10h às 17h
Telefone: (11) 3320-8900

O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, gerida pela Associação Museu Afro Brasil, Organização Social de Cultura.