Portinari e o Brasil Moderno: exposição no Capanema revela a criação dos murais que retratam os ciclos econômicos do país
Mostra reúne nove estudos e trabalhos preparatórios de Candido Portinari para os murais do antigo Ministério da Educação e Saúde, realizados entre 1938 e 1945. Visitação gratuita vai até 12 de novembro.
O processo de criação dos murais de Candido Portinari para o Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, pode ser acompanhado de perto na exposição Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema. Aberta de 2 de outubro a 12 de novembro, a mostra reúne nove estudos e trabalhos preparatórios relacionados à série Ciclos Econômicos Brasileiros, instalada no próprio edifício.
As obras ocupam o Salão Portinari, no segundo andar do Capanema, voltado para o jardim suspenso projetado por Roberto Burle Marx. Ao lado dos murais definitivos, os trabalhos permitem observar diferentes etapas da elaboração de Portinari, desde a construção das imagens até os procedimentos de transferência utilizados pelo artista e seus assistentes para realizar as pinturas em grandes dimensões.
Mais do que apresentar estudos preparatórios, a exposição recupera um momento em que arte e arquitetura participaram de um mesmo projeto de representação do país. Nos murais, Portinari não retrata apenas produtos ou atividades econômicas. São os trabalhadores que aparecem como personagens centrais da história da produção brasileira.
Os trabalhadores como protagonistas
Realizada entre 1938 e 1945, a série Ciclos Econômicos Brasileiros reúne 12 pinturas concebidas a partir da trajetória da economia brasileira, desde a extração do pau-brasil até a exploração da carnaúba. A narrativa é construída por meio das atividades produtivas e, sobretudo, pelas pessoas envolvidas nelas.
Essa escolha confere aos trabalhadores um lugar de destaque em uma obra realizada para um edifício público durante o Estado Novo. O desenvolvimento nacional aparece associado ao trabalho humano, às paisagens e às formas de produção que marcaram diferentes períodos da história brasileira.
Os estudos reunidos na exposição ajudam a perceber como Portinari organizava essas imagens. Diferentes dimensões e suportes revelam alterações de composição e soluções encontradas antes que os desenhos fossem transformados em pinturas monumentais.
Para os curadores Rafael Peixoto e Marcus Lontra, o conjunto também evidencia a importância de Portinari na assimilação do modernismo como projeto de representação do país. A exposição, nesse sentido, não trata apenas de um conjunto de pinturas, mas de um método de criação e das ideias de Brasil presentes naquele projeto.

Arte e arquitetura durante o Estado Novo
A história dos murais também está ligada às circunstâncias políticas e culturais de sua realização. O Capanema foi projetado por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, com consultoria de Le Corbusier, e tornou-se um dos marcos da arquitetura moderna brasileira.
A presença de Portinari, Burle Marx, Bruno Giorgi e Celso Antônio integrou arte e arquitetura em um mesmo projeto. A construção do edifício ocorreu durante o Estado Novo, período marcado pela centralização política e pela utilização da cultura como instrumento de construção de uma imagem nacional.
É nesse contexto que os murais ganham uma dimensão particular. Ao mesmo tempo em que integravam a representação oficial de um Brasil moderno, colocavam no centro dessa narrativa trabalhadores, atividades produtivas e diferentes formas de ocupação do território.
A participação de artistas e intelectuais ligados ao modernismo em uma iniciativa do poder público também revela as tensões daquele período. O projeto permitiu que a arquitetura e a arte modernas encontrassem espaço dentro do Estado, ao mesmo tempo em que seus autores lidavam com os limites políticos e ideológicos impostos pelo regime.
A exposição recupera essa relação sem separar as pinturas do edifício para o qual foram concebidas. No Capanema, arquitetura e arte fazem parte de uma mesma experiência histórica: a tentativa de formular, por meio de novas linguagens, uma imagem de Brasil que rompesse com modelos acadêmicos e projetasse a ideia de modernidade.
Um patrimônio ainda em uso
Reaberto à visitação em 2025, depois de um processo de restauração, o Palácio Gustavo Capanema volta a receber o público tendo seus espaços e obras como parte de uma experiência integrada.
A exposição foi concebida no contexto da V Conferência Estadual de Arquitetura e Urbanismo, realizada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) no edifício. A aproximação entre a conferência e a mostra coloca em contato debates atuais sobre arquitetura, cidade e patrimônio com um projeto que, há mais de oito décadas, procurava expressar uma determinada ideia de país.
Na expografia, parte das obras é apresentada em cavaletes desenhados pela designer Claudia Moreira Salles e produzidos pela ETEL. A solução contemporânea estabelece uma relação visual com o edifício sem competir com os trabalhos de Portinari.
Ao colocar novamente os estudos diante dos murais para os quais foram concebidos, Portinari e o Brasil Moderno permite acompanhar a passagem da ideia para a pintura monumental. É também uma oportunidade de observar como Portinari construiu uma narrativa visual sobre o Brasil a partir do trabalho e das transformações econômicas que marcaram sua formação.
A mostra permanece no próprio Capanema, onde os murais continuam integrados à arquitetura. A visita permite, assim, perceber não apenas as etapas de criação de Portinari, mas a relação entre arte, arquitetura e memória na construção de uma das imagens mais importantes do Brasil moderno.

Serviço
Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema
Período: 2 de outubro a 12 de novembro de 2026
Visitação: terça a domingo, das 9h às 17h
Local: Salão Portinari — Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro
Entrada: gratuita
Curadoria: Rafael Peixoto e Marcus Lontra
Concepção e curadoria institucional: João Paulo Balsini
Realização: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro — CAU/RJ
Parceria institucional: Ministério da Cultura — MinC, Danielian e ETEL
Patrocínio institucional: FIRJAN • SESI • SENAI

