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MASP apresenta primeira exposição de Rosa Elena Curruchich no Brasil

Mostra reúne 78 pinturas da artista maia kaqchikel, que transformou o pequeno formato em estratégia para pintar e transportar suas obras em uma comunidade onde a atividade era tradicionalmente reservada aos homens.

O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta, a partir de 30 de outubro, Rosa Elena Curruchich: Crônicas de Comalapa, primeira exposição individual da artista guatemalteca no Brasil e sua primeira mostra em um museu. A exposição reúne 78 pinturas realizadas entre as décadas de 1980 e 1990, nas quais Curruchich registra cenas do cotidiano, cerimônias religiosas, festas, atividades de trabalho e os tecidos tradicionais de San Juan Comalapa, comunidade maia kaqchikel onde nasceu.

Autodidata, Rosa Elena Curruchich (1958–2005) pertence a uma tradição de pintura de cavalete iniciada entre os kaqchikel de Comalapa por seu avô, Andrés Curruchich, nos anos 1930. Foi também a primeira mulher a se destacar nessa tradição, em um contexto no qual a pintura era considerada uma atividade masculina.

Essa condição ajuda a entender uma das características mais marcantes de sua obra: o pequeno formato. As dimensões reduzidas permitiam que Curruchich mantivesse sua atividade de maneira mais discreta e também facilitavam o transporte das pinturas quando saía de sua cidade para vender alimentos e obras em outras localidades. As telas eram levadas embrulhadas nos mesmos tecidos utilizados para transportar tortilhas.

O que poderia parecer apenas uma escolha estética ou técnica estava, portanto, relacionado às condições concretas de produção da artista. Curruchich pintou durante a Guerra Civil da Guatemala (1960–1996), período especialmente violento para as populações indígenas. No início dos anos 1980, Comalapa foi atingida pela violência do Estado contra comunidades indígenas. A reação à presença de uma mulher em um mercado local dominado por homens também contribuiu para que a artista deixasse sua cidade natal. A maior parte de sua produção foi realizada durante o exílio.

Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP
Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP

Cotidiano, memória e tradição

As 78 pinturas estão organizadas em oito núcleos: Vidas rurais, Autorretratos, Cotidiano, Religiosidades, Têxteis, Festas, Procissões e Finais de ciclo. Juntos, os trabalhos formam um registro da vida individual e coletiva em Comalapa, incluindo cenas de comércio, trabalho no campo, relações familiares, celebrações e práticas religiosas.

As festas retratadas por Curruchich são organizadas pelas confrarias indígenas da comunidade e expressam uma forma de catolicismo marcada pelo encontro com práticas e referências maias anteriores à colonização. Os têxteis também ocupam lugar importante na produção. Os huipiles, vestimentas femininas tradicionais mesoamericanas, aparecem em diversas pinturas e influenciam diretamente a paleta utilizada pela artista.

Outro aspecto particular está na relação entre texto e imagem. Curruchich costumava escrever na parte inferior de cada pintura uma pequena descrição, que funcionava também como título e acompanhava sua assinatura.

“Cada obra de Rosa Elena Curruchich traz, na parte debaixo da tela, um pequeno texto de sua própria autoria, geralmente descritivo, que dá título à pintura e onde ela também assina. Há uma relação entre essa prática e os antigos livros maias, que registravam o calendário da lavoura, práticas tradicionais e histórias ancestrais: o texto é tão importante quanto a imagem”, explica o curador Guilherme Giufrida.

As próprias pinturas também passam por um processo particular de construção. Curruchich produzia inicialmente telas maiores, nas quais reunia diferentes cenas e acontecimentos da comunidade. Depois, recortava essas pinturas e transformava cada fragmento em uma obra independente, com a ajuda da irmã, Pilar Curruchich. As molduras irregulares, feitas com madeiras encontradas na região, passam a integrar a composição.

Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP
Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP

Uma pintura feita para preservar a vida comunitária

A obra de Curruchich ganha outra dimensão quando observada no contexto em que foi produzida. Suas pinturas não documentam apenas acontecimentos ou costumes. Elas registram formas de organização da vida comunitária e uma tradição cultural atravessada por mudanças políticas, violência e deslocamentos.

“Entre cenas cotidianas e cerimoniais, as pinturas de Rosa Elena narram as práticas que estruturavam os ciclos da vida individual e coletiva da sua comunidade. Seu trabalho atravessou um período de crise política aguda na Guatemala, marcado pela violência sistemática contra os povos indígenas durante a Guerra Civil, reafirmando a vitalidade da tradição pictórica kaqchikel de Comalapa enquanto uma forma de transmissão e reelaboração da memória”, afirma o curador Yudi Rafael.

Neta de Andrés Curruchich, considerado o fundador da tradição de pintura de cavalete entre os kaqchikel de Comalapa, Rosa Elena realizou sua primeira exposição individual em 1979. Sua produção permaneceu durante muito tempo ligada a um circuito regional, mas passou a ser redescoberta e incorporada a exposições internacionais nos últimos anos.

Em 2024, sua obra integrou a 60ª Bienal de Veneza. A exposição do MASP amplia esse movimento de reconhecimento e coloca sua produção em contato com o público brasileiro.

Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP
Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP

Uma artista em pequena escala, uma história maior

O pequeno tamanho das pinturas estabelece uma relação particular com o visitante. Em vez de obras monumentais, Curruchich apresenta cenas que exigem aproximação. É preciso chegar perto para observar os personagens, as roupas, os gestos, os espaços e os detalhes das festas e do cotidiano.

Essa escala também revela uma dimensão política de sua trajetória. Pintar em uma sociedade onde a atividade era associada aos homens, encontrar formas de transportar e vender suas obras e continuar produzindo mesmo depois de deixar sua cidade fizeram parte da própria história da artista.

A exposição do MASP integra a programação anual do museu dedicada às Histórias latino-americanas, que em 2026 reúne trabalhos de artistas de diferentes países e regiões do continente. No conjunto da programação, a presença de Curruchich amplia a compreensão sobre a arte latino-americana a partir de uma produção ligada à cultura indígena, à memória comunitária e às experiências de uma mulher artista em um contexto de conflito e desigualdade.

A mostra também recupera uma tradição artística específica, transmitida entre gerações dos kaqchikel de Comalapa, ao mesmo tempo em que apresenta a maneira particular como Rosa Elena Curruchich transformou essa tradição para registrar seu próprio tempo.

Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP
Rosa Elena Curruchich, Van a escoger capitana del nuevo año, c. 1980. Acervo MASP

Serviço

Rosa Elena Curruchich: Crônicas de Comalapa
Curadoria: Guilherme Giufrida e Yudi Rafael
Período: 30 de outubro de 2026 a 4 de abril de 2027
Local: Edifício Lina Bo Bardi, 1º e 2º subsolo

MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo
Telefone: (11) 3149-5959

Horários:
Terças, das 10h às 20h — entrada até 19h; gratuita com patrocínio Nubank.
Quarta e quinta, das 10h às 18h — entrada até 17h.
Sexta, das 10h às 21h — entrada gratuita das 18h às 20h30, com patrocínio B3.
Sábado e domingo, das 10h às 18h — entrada até 17h.
Fechado às segundas-feiras.

Ingressos: R$ 85 (inteira) e R$ 42 (meia-entrada).
Agendamento on-line obrigatório.

O MASP oferece recursos de acessibilidade nas exposições temporárias, incluindo visitas em Libras ou descritivas, textos em fonte ampliada, audiodescrição e legendagem. A entrada é gratuita para pessoas com deficiência e seus acompanhantes.