José Adário: Raiz de Ferro revela a força da tradição do ferro sagrado
Exposição no Museu Inimá de Paula apresenta a trajetória de Zé Diabo, mestre ferreiro do Candomblé, e aproxima o público de uma tradição ancestral do Recôncavo Baiano.
O ferro pode ser ferramenta, matéria de trabalho, objeto de devoção e elemento de ligação com o sagrado. É a partir dessas diferentes dimensões que a exposição José Adário: Raiz de Ferro, em cartaz no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte, apresenta a trajetória de José Adário dos Santos, conhecido como Zé Diabo, mestre ferreiro do Candomblé e babalorixá cuja produção está ligada à tradição metalúrgica e religiosa do Recôncavo Baiano.
Radicado no Centro Histórico de Salvador, Zé Diabo aprendeu a arte da forja ainda jovem. Ao longo de sua trajetória, transformou o domínio sobre o fogo, o martelo e o metal em um conhecimento que articula técnica, tradição e religiosidade. Suas peças estão relacionadas ao universo dos terreiros e aos rituais das religiões de matriz africana, mas também passaram a ocupar espaços de exposição e instituições culturais.
A mostra permite observar justamente essa passagem entre diferentes contextos sem separar o conhecimento técnico de sua dimensão espiritual. O trabalho do mestre ferreiro nasce de uma tradição em que fabricar um objeto pode significar também produzir um instrumento para o culto, preservar um saber e manter uma relação com o sagrado.
O ferro de Ogum
No Candomblé, o ferro está associado a Ogum, orixá relacionado aos caminhos, às ferramentas, à tecnologia e à metalurgia. A forja, portanto, ocupa um lugar particular dentro dessa cosmologia. O metal é retirado de uma condição bruta e transformado pelo fogo e pelo trabalho humano, processo que aproxima o domínio da matéria de um conhecimento transmitido por gerações.
É nesse universo que se insere a produção de Zé Diabo. Seus chamados ferros de orixás não são apenas esculturas destinadas à contemplação. São objetos vinculados à prática religiosa, ferramentas e elementos ritualísticos que carregam significados específicos dentro dos terreiros.
Entre as peças apresentadas estão representações relacionadas a Ogum, Oxóssi, Exu e Obaluaê. Cada uma delas evidencia a capacidade do artista de transformar barras e chapas de ferro em formas que carregam referências simbólicas e religiosas.
O resultado é uma produção em que a dimensão estética não está separada da função e do significado. O ferro retorcido, dobrado, cortado e martelado conserva as marcas do trabalho manual e, ao mesmo tempo, manifesta uma linguagem própria.

O mestre e sua oficina
A exposição também aproxima o visitante do processo de produção. Martelos, tenazes, bigornas e outros instrumentos utilizados por Zé Diabo integram o conjunto apresentado pelo museu, permitindo compreender que, antes de chegar à forma final, cada peça passa por um trabalho físico intenso.
O calor da forja, a manipulação do metal incandescente e a sucessão de golpes necessários para dar forma ao material fazem parte do conhecimento do ferreiro. Não se trata apenas de uma habilidade manual, mas de um saber construído pela experiência.
Essa dimensão é importante para compreender a obra de Zé Diabo. O reconhecimento de sua produção passa também pela valorização do ofício de ferreiro, uma prática que envolve domínio da matéria, conhecimento das ferramentas, precisão e transmissão de técnicas.
Do terreiro ao museu
Parte significativa da produção de Zé Diabo está relacionada às necessidades e aos rituais do Candomblé. Ao chegar a um museu, essas peças passam a ser observadas também como manifestações de uma tradição artística e cultural brasileira.
Essa mudança de contexto não elimina sua dimensão religiosa. Ao contrário, permite que o público tenha contato com objetos e conhecimentos que normalmente permanecem vinculados aos espaços de culto.
A exposição também contribui para ampliar a compreensão sobre os mestres de ofícios tradicionais e sobre a produção afro-brasileira, muitas vezes situada à margem das narrativas convencionais da história da arte. No caso de Zé Diabo, técnica, espiritualidade e criação não aparecem como campos separados.

Bahia e Minas pelo caminho do ferro
A presença de José Adário: Raiz de Ferro em Belo Horizonte cria ainda uma aproximação simbólica entre duas regiões cuja história está profundamente relacionada ao metal.
De um lado está a tradição do ferro sagrado desenvolvida por Zé Diabo no Recôncavo Baiano e vinculada às religiões de matriz africana. De outro, Minas Gerais, território cuja formação econômica, social e cultural também está associada à exploração dos metais e à presença histórica da mineração.
O encontro entre essas duas experiências permite olhar para o ferro para além de sua dimensão econômica. O metal também participa da construção de memórias, tecnologias, ofícios e identidades culturais.
Nesse sentido, a exposição coloca em evidência um aspecto importante da cultura brasileira: muitos conhecimentos preservados fora dos circuitos tradicionais das artes visuais também produzem formas, linguagens e sistemas próprios de criação.
José Adário: Raiz de Ferro apresenta, assim, o trabalho de um mestre cuja produção não pode ser compreendida apenas pela aparência de suas esculturas. Cada peça carrega a memória de um ofício, uma relação com o sagrado e a continuidade de uma tradição afro-brasileira em que o ferro é, ao mesmo tempo, matéria, ferramenta e símbolo.

Serviço
José Adário: Raiz de Ferro
Museu Inimá de Paula
Rua da Bahia, 1.201 – Centro
Belo Horizonte – MG
A exposição reúne ferros de orixás, esculturas em metal forjado, ferramentas utilizadas na forja e elementos relacionados à tradição do Recôncavo Baiano.

