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Festa do Rosário dos Pretos preserva memória e religiosidade negra no Pelourinho

Celebração no Centro Histórico de Salvador reúne fé católica, ancestralidade e tradições construídas pelas irmandades negras ao longo de mais de três séculos.

No coração do Pelourinho, em Salvador, a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos reúne uma tradição religiosa que também é parte da história da população negra da Bahia. Realizada pela Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora às Portas do Carmo – Irmandade dos Homens Pretos, a celebração articula religiosidade católica, memória, formas de organização comunitária e referências culturais preservadas por gerações.

A história da festa está ligada à própria trajetória da irmandade, criada ainda no período colonial por pessoas negras escravizadas e libertas. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho, tornou-se ao longo do tempo um dos principais símbolos dessa presença negra no Centro Histórico de Salvador.

Mais do que uma celebração do calendário religioso, a festa expressa uma forma de preservar vínculos comunitários e referências culturais. Cantos, celebrações, procissões, encontros e homenagens aos antepassados fazem parte de uma tradição em que a religiosidade católica se relaciona com diferentes matrizes culturais africanas presentes na formação da sociedade baiana.

Uma tradição reconhecida como patrimônio

A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado da Bahia. O reconhecimento considera a celebração como uma manifestação cultural viva, sustentada por práticas, conhecimentos, formas de expressão e modos de organização transmitidos entre diferentes gerações.

Essa dimensão ajuda a compreender por que a festa ultrapassa o caráter estritamente litúrgico. A preparação das celebrações, a participação da irmandade, os cortejos, os cantos e os momentos de convivência fazem parte de um patrimônio que se mantém associado ao território e à memória da população negra de Salvador.

Entre os momentos tradicionais estão a novena, as celebrações religiosas, a procissão pelas ruas do Centro Histórico e a homenagem aos antepassados. O encerramento é marcado pela tradicional partilha do bacalhau, que também funciona como momento de convivência entre os participantes.

Fé, memória e continuidade

A permanência da festa ao longo de séculos revela também a importância das irmandades negras na construção da vida social e religiosa de Salvador. Em uma sociedade marcada pela escravidão e por profundas desigualdades, essas organizações constituíram espaços de solidariedade, pertencimento e preservação de referências culturais.

É nesse contexto que a Festa do Rosário dos Pretos ganha uma dimensão que ultrapassa a celebração religiosa. Sua continuidade ajuda a manter visível uma parte da história afro-baiana e uma tradição comunitária que permanece vinculada ao Pelourinho.

Em 2026, a realização da festa conta ainda com ações apoiadas pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia. O recurso contribui para a estruturação da programação e para a continuidade das ações de valorização do patrimônio cultural associado à celebração.

Estrutura tradicional da festa

Abertura – Solenidade e celebração de Nossa Senhora do Rosário, marcando o início da programação.
Novena – Encontros realizados ao longo de vários dias, reunindo fiéis e participantes ligados à tradição da irmandade.
Dia festivo – Celebrações religiosas, manifestações culturais e procissão pelas ruas do Centro Histórico.
Encerramento – Celebração em memória dos antepassados, seguida pela tradicional partilha do bacalhau.


A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos permanece, assim, como uma manifestação em que religião, memória e identidade negra se encontram no espaço histórico do Pelourinho.