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Galeria Estação incorpora oito pinturas de Cardosinho ao acervo em exposição especial

Mostra reúne obras produzidas entre 1931 e 1947 e apresenta a trajetória de um artista autodidata que começou a pintar aos 70 anos e conquistou reconhecimento no Brasil e no exterior. Exposição acontece em paralelo à individual de Andre Barion.

A Galeria Estação apresenta, de 6 de outubro a 28 de novembro de 2026, Cardosinho: Acervo Especial, mostra dedicada a oito pinturas recém-adquiridas de José Bernardo Cardoso Júnior (1861–1947). Produzidas entre 1931 e 1947, as obras não têm título e foram realizadas em diferentes suportes e técnicas, entre eles óleo sobre tela, papel, papelão, eucatex e compensado, além de aquarela sobre papel.

A incorporação das pinturas amplia para 11 o número de trabalhos de Cardosinho no acervo da galeria. A sala especial permite acompanhar a diversidade de materiais e a construção de um universo visual próprio, marcado por detalhes minuciosos, combinações de referências e relações pouco convencionais de escala, perspectiva e cor.

Nascido em Coimbra, Portugal, em 1861, Cardosinho chegou ao Brasil ainda criança. Estudou no Seminário São José, no Rio de Janeiro, e posteriormente cursou Filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. De volta ao país, construiu uma longa carreira no ensino, como professor e inspetor escolar. Lecionou latim, português e francês, passou pelo Liceu de Artes e Ofícios e dedicou-se também à literatura, escrevendo romances e poemas que permaneceram inéditos.

Sua trajetória artística começou tardiamente. Cardosinho passou a pintar por volta dos 70 anos, depois de se aposentar de mais de quatro décadas de trabalho na educação. Em entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa, publicada na revista Diretrizes em 18 de setembro de 1941, contou que sua primeira experiência surgiu da vontade de reproduzir a paisagem de um cartão-postal. Comprou os materiais e realizou a pintura, que mostrou ao amigo Correia e Castro, pintor e flautista. O incentivo recebido contribuiu para que prosseguisse.

Autodidata, desenvolveu um método de trabalho baseado na observação e na apropriação de imagens encontradas em fotografias, livros, jornais, revistas e cartões-postais. Em vez de simplesmente reproduzir essas referências, selecionava e combinava elementos, reorganizando paisagens, figuras, animais e objetos em composições de lógica própria. Pássaros, insetos, flores, naturezas-mortas e cenas imaginadas aparecem com frequência em sua produção.

Cardosinho: Acervo Especial - foto João Liberato - divulgação
Cardosinho: Acervo Especial – foto João Liberato – divulgação

Reconhecimento entre modernistas e circulação internacional

Mesmo distante dos circuitos tradicionais de formação artística, Cardosinho estabeleceu relações com nomes importantes do ambiente modernista brasileiro. A aproximação com Candido Portinari foi especialmente significativa. Em 1932, durante a passagem do artista japonês Tsuguharu Foujita pelo Brasil, Portinari o levou ao ateliê de Cardosinho. Foujita se interessou pelas pinturas e adquiriu uma delas. Na entrevista de 1941, o próprio Cardosinho mencionou, entre os compradores de seus trabalhos, Portinari, Josias Leão, Paulo Prado e Foujita.

Em 1939, Mário de Andrade dedicou parte do artigo “Artes de novembro”, publicado em O Estado de S. Paulo, à pintura e ao processo de criação do artista. Sua produção também despertou o interesse de críticos como Celso Kelly e Rubem Navarra e do escritor Rubem Braga, que o incluiu no livro Três Primitivos, publicado em 1953.

A lembrança de Maria Portinari, esposa de Candido Portinari, ajuda a dimensionar a singularidade do artista. Em depoimento concedido entre 1982 e 1983 às pesquisadoras Rose Ingrid Goldschmidt e Maria Christina Guido, ela recordou as visitas de Cardosinho à casa da família e destacou a ingenuidade que reconhecia tanto em sua personalidade quanto em sua pintura.

O reconhecimento ultrapassou as fronteiras brasileiras ainda durante a vida do artista. Em 1942, o colecionador Lincoln Kirstein adquiriu Still Life with View of the Bay of Guanabara (1937), por meio do Inter-American Fund, para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). A pintura integrou a exposição The Latin-American Collection of the Museum of Modern Art, em 1943, e permanece na coleção da instituição.

Entre 1944 e 1945, Cardosinho também participou da exposição itinerante Exhibition of Modern Brazilian Paintings, apresentada em diferentes cidades do Reino Unido. Uma de suas obras, They Amuse Themselves (Elas se divertem), foi doada à Tate, em Londres, em 1945, pelo arquiteto britânico Alfred Charles Bossom. É a única pintura daquela exposição a ingressar na coleção da instituição.

Nas décadas seguintes, seus trabalhos apareceram em mostras como 20 artistas brasileños, no Museo Provincial de Bellas Artes de La Plata (1945); Ways of Looking, no MoMA (1971); e Lincoln Kirstein’s Modern, também no MoMA (2019). Em 2020, El Museo del Barrio, em Nova York, dedicou-lhe um núcleo monográfico no projeto Popular Painters & Other Visionaries, posteriormente ampliado e apresentado presencialmente entre 2021 e 2022. No Brasil, sua produção integrou, entre outras exposições recentes, Em cada canto, apresentada pelo Instituto Tomie Ohtake e pela Casa Fiat de Cultura, em 2025, e Arte da Nossa Gente, no Museu de Arte Brasileira da FAAP, em 2026.

Cardosinho: Acervo Especial - foto João Liberato - divulgação
Cardosinho: Acervo Especial – foto João Liberato – divulgação

A ampliação do acervo

A relação da Galeria Estação com a obra de Cardosinho começou a ganhar maior visibilidade em 2024, quando cinco pinturas do artista participaram da exposição coletiva Metamorfoses e distâncias, com curadoria de Lorenzo Mammì. Duas dessas obras foram vendidas. Com a aquisição das oito pinturas agora apresentadas, a galeria passa a reunir 11 trabalhos do artista em seu acervo.

A produção de Cardosinho também está representada em coleções institucionais como as de El Museo del Barrio, em Nova York, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) e do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), na Coleção Mário de Andrade.

A mostra ocupa uma sala da galeria e acontece simultaneamente a Toda minúcia, primeira exposição individual de Andre Barion em São Paulo. Com 27 trabalhos produzidos entre 2023 e 2026, a exposição de Barion ocupa o segundo andar e o mezanino e apresenta diferentes abordagens contemporâneas da arte têxtil. A curadoria é de Amanda Tavares, com texto de catálogo de Omar Porto.

Cardosinho: Acervo Especial - foto João Liberato - divulgação
Cardosinho: Acervo Especial – foto João Liberato – divulgação

Serviço

Cardosinho: Acervo Especial
Período: 6 de outubro a 28 de novembro de 2026
Abertura: 6 de outubro, às 18h
Em paralelo: Toda minúcia, exposição individual de Andre Barion.

Galeria Estação
Rua Ferreira Araújo, 625 – Pinheiros, São Paulo (SP).
Horários: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábado, das 11h às 15h.
Telefone: (11) 3813-7253
E-mail: contato@galeriaestacao.com.br
Site: www.galeriaestacao.com.br
Instagram: @galeriaestacao