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Madrinha Eunice: São Paulo celebra a pioneira do samba e liderança das mulheres negras

Fundadora da Lavapés, a mais antiga escola de samba paulistana em atividade, Deolinda Madre completa 117 anos de nascimento. Semana de homenagens reúne rodas de conversa, celebração e cortejo para reconhecer seu legado na história do Carnaval e da cultura negra da cidade.

A história do samba paulistano também é feita por mulheres que abriram caminhos em um ambiente marcado pelo racismo, pelo preconceito contra as manifestações de matriz africana e pela desigualdade de gênero. Entre essas protagonistas está Deolinda Madre, a Madrinha Eunice (1909–1995), fundadora da Escola de Samba Lavapés, em 1937, e uma das principais referências da história do Carnaval de São Paulo.

Para celebrar os 117 anos de seu nascimento, a cidade recebe, entre 13 e 18 de outubro, a Semana Madrinha Eunice – 117 anos. A programação reúne rodas de conversa, uma celebração de aniversário e o quarto cortejo em sua homenagem, promovendo o encontro entre sambistas, pesquisadoras, dirigentes de escolas de samba e público interessado na memória cultural paulistana.

Nascida em Piracicaba, em 14 de outubro de 1909, Deolinda Madre construiu sua trajetória em São Paulo, onde fundou a Lavapés, reconhecida como a escola de samba mais antiga da cidade ainda em atividade. Sua atuação, porém, não se restringiu à organização do Carnaval. Madrinha Eunice foi também uma liderança comunitária e política, empenhada na defesa das agremiações e das condições de vida de suas comunidades.

Uma mulher entre os Cardeais do Samba

A importância de Madrinha Eunice ultrapassa a história de uma escola de samba. Sua presença na organização do Carnaval paulistano ajudou a afirmar o lugar das comunidades negras na vida cultural da cidade, em uma época em que o samba e outras expressões afro-brasileiras enfrentavam discriminação e repressão.

A pesquisadora Cláudia Alexandre, integrante do Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras (Cerne), ligado ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), destaca a força dessa trajetória para as mulheres negras que atuam no samba.

Cláudia teve a oportunidade de acompanhar Madrinha Eunice em reuniões com dirigentes de escolas de samba e recorda sua participação ativa nas discussões sobre a gestão do Carnaval. Segundo a pesquisadora, ela era firme nas decisões e nas reivindicações por melhores condições para as comunidades de blocos e agremiações.

Esse protagonismo ajuda a compreender por que Madrinha Eunice recebeu o título de Cardeal do Samba, sendo a única mulher entre os cinco nomes reconhecidos por essa denominação no samba paulistano. Sua trajetória evidencia a presença das mulheres não apenas na dimensão artística do Carnaval, mas também na liderança, na organização política e na defesa dos direitos das comunidades sambistas.

Madrinha Eunice morreu em 1995, quando a Lavapés já estava fora do grupo principal do Carnaval e integrava a União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP). Distante da grande exposição da mídia, sua história permaneceu viva na memória de sambistas e das comunidades que ajudou a organizar.

Escultura de Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, no bairro da Liberdade, em São Paulo – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Escultura de Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, no bairro da Liberdade, em São Paulo – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Memória negra e direito à cidade

A Semana Madrinha Eunice propõe manter essa memória em circulação, aproximando diferentes gerações e reconhecendo o papel das mulheres negras na construção da cultura brasileira. Ao reunir pesquisadoras, cantoras, dirigentes e representantes de escolas de samba, a programação cria espaço para discutir trajetórias femininas que nem sempre receberam o reconhecimento proporcional à sua contribuição.

A homenagem também permite olhar para o samba como patrimônio cultural e forma de organização coletiva. As escolas e comunidades sambistas construíram redes de solidariedade, pertencimento e expressão artística que fazem parte da história de São Paulo. Preservar essa trajetória significa reconhecer a participação negra na formação da cidade e valorizar os espaços onde essa cultura continua sendo produzida.

A Lavapés, fundada por Madrinha Eunice em 1937, permanece como referência dessa história. Relembrar sua fundadora é reconhecer que o Carnaval paulistano não se explica apenas pelos desfiles e pelas apresentações públicas, mas também pelo trabalho de lideranças que sustentaram as agremiações, articularam comunidades e defenderam o samba em períodos de pouca visibilidade.

Programação da Semana Madrinha Eunice – 117 anos

Terça-feira, 13 de outubro, às 18h
Roda de conversa: Mulheres do Samba
Participantes: Cláudia Alexandre; Maria Bernadete Raimundo, a Bernadete, conhecida como Tulipa Negra do Samba; Solange Cruz Bichara, presidente da Mocidade Alegre; e Theba Pitylla, rainha da Império de Casa Verde. Mediação: Kenya Macedo.
Local: Casa de Dona Yayá – Centro de Preservação Cultural da USP.
Endereço: Rua Major Diogo, 353, Bela Vista, São Paulo.

Quarta-feira, 14 de outubro, às 19h
Celebração do aniversário de Deolinda Madre
Local: Fábrica do Samba, São Paulo.

Sexta-feira, 16 de outubro, às 18h
Roda de conversa: Os Cinco Cardeais do Samba Paulistano
Local: Casa de Dona Yayá – Centro de Preservação Cultural da USP.
Endereço: Rua Major Diogo, 353, Bela Vista, São Paulo.

Domingo, 18 de outubro, às 9h
4º Cortejo para Madrinha Eunice
Concentração: Rua Lavapés, 159, São Paulo.
Percurso: caminhada até a estátua de Madrinha Eunice, no Largo da Liberdade.

Ao celebrar os 117 anos de Madrinha Eunice, São Paulo homenageia uma mulher que fez do samba um espaço de criação, afirmação negra e participação comunitária. Sua história lembra que a preservação do patrimônio cultural depende também do reconhecimento de quem o construiu — e de quem continua mantendo suas tradições vivas.