Livro analisa a formação e as transformações da música armorial
Ensaio de Carlos Eduardo Amaral parte da produção da Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e do Quinteto Armorial para discutir referências, instrumentos, compositores e desdobramentos do movimento.
À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre a música armorial, do jornalista, pesquisador e crítico musical Carlos Eduardo Amaral, concentra-se na formação da linguagem musical associada ao Movimento Armorial, criado em Pernambuco no início da década de 1970, e toma como referências centrais os repertórios desenvolvidos pela Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e pelo Quinteto Armorial. A pesquisa também acompanha antecedentes intelectuais do movimento, suas escolhas estéticas e instrumentais e as transformações ocorridas nas décadas seguintes.
Entre as referências que antecedem o Armorial estão o Manifesto Regionalista, apresentado por Gilberto Freyre em 1926, e o Ensaio sobre a música brasileira, publicado por Mário de Andrade em 1928. O estudo também aborda a trajetória do compositor Guerra-Peixe, cuja permanência no Recife, entre 1949 e 1952, alterou suas concepções sobre música popular e sobre a formação de uma linguagem musical brasileira.
A pesquisa parte de uma questão central: como determinados procedimentos melódicos, rítmicos, harmônicos e instrumentais passaram a ser associados ao que se convencionou chamar de música armorial?
Orquestra e Quinteto
A Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e o Quinteto Armorial estabeleceram, nos anos 1970, duas referências distintas para essa linguagem. O livro examina os repertórios, as formações instrumentais e os procedimentos composicionais utilizados pelos dois grupos.
A própria definição da instrumentação esteve no centro de debates dentro do movimento. A presença de instrumentos considerados populares, a aproximação com sonoridades de tradição ibérica e nordestina e a influência de procedimentos associados à música erudita europeia produziram diferentes interpretações sobre o que poderia ser identificado como armorial.
Segundo o estudo, divergências entre Ariano Suassuna e integrantes da Orquestra contribuíram para a formação do Quinteto Armorial, reunindo músicos mais jovens e uma formação que respondia de maneira diferente às concepções estéticas defendidas pelo escritor.
O Quinteto passou a explorar outras possibilidades instrumentais e timbrísticas, estabelecendo um repertório que se tornou uma das principais referências para compositores e grupos interessados na linguagem armorial.
Essas duas experiências, entretanto, não esgotaram as possibilidades de criação dentro do movimento. Outros compositores e conjuntos desenvolveram trabalhos que procuravam se aproximar desses modelos, afastar-se deles ou combinar elementos de diferentes tradições musicais.

Da década de 1970 ao século XXI
Uma parte do ensaio é dedicada justamente às transformações posteriores. Para Amaral, a partir da virada do século XXI surgem novas questões sobre os limites da música armorial e sobre a utilização de seus procedimentos em contextos musicais diferentes daqueles que deram origem ao movimento.
O livro apresenta obras e compositores que permitem acompanhar esse percurso e discutir se determinadas características originalmente associadas ao Armorial continuam funcionando como elementos de uma linguagem específica ou passaram a integrar outras matrizes musicais.
A pesquisa também procura organizar uma produção que permanece dispersa em gravações, artigos acadêmicos, teses, dissertações e estudos especializados. O autor identifica a existência de uma bibliografia acadêmica produzida principalmente a partir dos anos 2000, mas observa que ainda são poucos os livros dedicados especificamente à música armorial.
O resultado é também um inventário de obras e compositores relacionados, direta ou indiretamente, ao desenvolvimento dessa produção musical.
Uma linguagem entre tradição e criação
A música armorial surgiu em um contexto de discussão sobre a possibilidade de construir uma arte erudita brasileira a partir de referências encontradas nas culturas populares, particularmente nas manifestações do Nordeste. A proposta de Ariano Suassuna articulava literatura, teatro, artes visuais e música em torno de uma concepção estética própria.
Na música, essa formulação levou à pesquisa de ritmos, melodias, instrumentos e procedimentos encontrados em tradições como a música de viola, a rabeca, os cantos populares e as bandas de pífanos, articulados a técnicas e formas de composição associadas à música de concerto.
O ensaio de Carlos Eduardo Amaral acompanha esse processo sem restringi-lo aos primeiros anos do movimento. Ao incluir compositores e obras posteriores, procura observar como o conceito de música armorial foi reinterpretado e transformado por diferentes gerações.
O autor
Carlos Eduardo Amaral é jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisador, crítico musical, escritor, compositor e arranjador. Colabora com a revista Continente desde 2006 e coordena o projeto Música na APL, da Academia Pernambucana de Letras.
Como pesquisador, teve trabalhos reconhecidos pela Funarte, pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Joaquim Nabuco. Como compositor, possui mais de 30 obras para orquestra sinfônica e formações de câmara.
É autor de biografias de compositores como Clóvis Pereira, Maestro Formiga, Maestro Duda, Getúlio Cavalcanti e Jota Michiles, publicadas pela Cepe Editora. Também publicou SaGrama: um álbum por escrito, dedicado aos 30 anos de trajetória do grupo pernambucano.
Em 2022, recebeu a Medalha Biblioteca Nacional — Ordem do Mérito do Livro.

Serviço
À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre a música armorial
Autor: Carlos Eduardo Amaral
Detalhes no perfil @musicaarmorial, no Instagram
Incentivo: Funcultura / Fundarpe / Secretaria de Cultura / Governo de Pernambuco
Audiobook: disponível no YouTube
Aqui mantive deliberadamente a música como eixo da matéria, em vez de transformar o texto em uma apresentação genérica do Movimento Armorial. Também retirei a ideia de que o livro seria “fundamental”, “necessário” ou qualquer outra avaliação semelhante — a própria descrição da pesquisa já estabelece sua relevância.

