Com Amor, Alcione: a voz de uma mulher que ajudou a escrever a história do samba
Exposição no Museu das Favelas reúne mais de 650 itens do acervo da cantora e percorre cinco décadas de música, carnaval, identidade negra e cultura popular.
Mais do que uma retrospectiva de uma carreira de sucesso, Com Amor, Alcione apresenta a trajetória de uma artista que se tornou parte da própria história do samba brasileiro. Em mais de cinco décadas de carreira, Alcione construiu uma das vozes mais reconhecíveis da música do país e ajudou a ampliar o espaço do samba na música popular brasileira, especialmente para uma geração de mulheres negras.
Em cartaz no Museu das Favelas, em São Paulo, até 6 de dezembro, a exposição foi idealizada e produzida pelo Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM) e chega à cidade em sua primeira itinerância. São mais de 650 itens do acervo pessoal de Alcione, entre fotografias, vídeos, prêmios, figurinos e objetos que ajudam a reconstruir diferentes momentos de sua vida artística e pessoal.
O percurso passa por temas como família, fé, carnaval, migração e identidades negra e nordestina. A exposição também evidencia uma característica fundamental de Alcione: sua capacidade de aproximar diferentes territórios e tradições. Nascida em São Luís do Maranhão, ela levou para o Rio de Janeiro uma formação marcada pela música popular maranhense, pelo tambor de crioula, pelo bumba meu boi e por outras manifestações negras de sua terra. No Rio, encontrou no samba e na Mangueira outro espaço de pertencimento.
Uma maranhense na história do samba
A relação de Alcione com o samba ganhou força a partir dos anos 1970, quando o gênero atravessava uma importante transformação na música brasileira. Depois de circular por diferentes gêneros e experiências profissionais, a cantora encontrou no samba uma linguagem que se tornaria central em sua trajetória. Seu primeiro LP, A Voz do Samba, lançado em 1975, já anunciava essa escolha. Pouco depois, “Não Deixe o Samba Morrer”, de Edson e Aloísio, tornou-se um marco de sua carreira e uma das canções mais associadas à defesa e à permanência do gênero.
Alcione também ocupou um lugar importante na popularização do samba para além dos espaços tradicionalmente associados às escolas e rodas. Seu repertório transitou pelo samba de raiz, sambas de exaltação, canções românticas e outros gêneros, levando a linguagem do samba a públicos diversos no Brasil e no exterior.
Essa dimensão aparece também em sua relação com as escolas de samba. A Mangueira tornou-se parte fundamental de sua história. A partir dos anos 1980, Alcione passou a gravar e interpretar sambas de exaltação de diferentes agremiações, contribuindo para levar a tradição das escolas de samba a um público mais amplo. Portela, Beija-Flor, União da Ilha, Salgueiro, Mocidade e Imperatriz estão entre as escolas homenageadas por ela.
Mangueira como território de pertencimento
A ligação com a Estação Primeira de Mangueira foi além do carnaval. Alcione participou da criação da Mangueira do Amanhã, escola de samba mirim que se tornou um espaço de formação de novas gerações de sambistas. O projeto nasceu do desejo de aproximar crianças e adolescentes dos conhecimentos e valores transmitidos pelo samba, mas também de criar oportunidades de educação, esporte, cidadania e pertencimento.
A iniciativa acabou influenciando outras escolas de samba mirins e ajudou a consolidar a presença de crianças e jovens na transmissão dessa cultura. A atuação de Alcione também esteve relacionada à implantação da Vila Olímpica da Mangueira e a outras ações voltadas à comunidade.
Essa dimensão social ajuda a compreender a importância de Alcione para além dos discos e dos palcos. Sua trajetória está ligada à circulação do samba, mas também à sua capacidade de produzir pertencimento e abrir caminhos para pessoas que historicamente tiveram menos espaço na indústria cultural.
A própria Mangueira reconheceu essa relação ao dedicar à cantora o enredo do Carnaval de 2024, reafirmando seu lugar na história da escola e do samba carioca.
Maranhão, Rio e a cultura negra
A história de Alcione também desloca o olhar sobre o samba. Sua presença evidencia as conexões entre o Rio de Janeiro e outras tradições musicais negras do Brasil. Em sua formação estão o tambor de crioula, o bumba meu boi, as festas religiosas e a música popular maranhense, ao lado do samba, do choro, do jazz, do soul e de outras referências.
Essa mistura não aparece apenas como influência musical. Ela faz parte da identidade construída pela artista ao longo da carreira. O Maranhão não ficou para trás quando Alcione se mudou para o Rio; tornou-se matéria-prima permanente de sua obra.
Por isso, sua trajetória também pode ser lida como uma história de migração e circulação cultural. Uma mulher negra, nordestina e sambista que saiu de São Luís, construiu carreira no Rio de Janeiro e levou referências maranhenses para diferentes públicos, dentro e fora do Brasil.
Uma voz para outras mulheres
Outro aspecto importante de sua trajetória é a representação feminina. Ao longo de décadas, Alcione interpretou personagens femininas que expressam desejo, autonomia, sofrimento, força e capacidade de decisão. Sua presença nos palcos ajudou a consolidar uma imagem de mulher negra que não ocupa um lugar secundário na narrativa da música popular brasileira.
A própria exposição aborda essa dimensão ao relacionar sua trajetória artística às questões de identidade negra e às transformações vividas pelas mulheres ao longo das décadas. O tema também aparece na documentação produzida pela Mangueira sobre a artista, que a identifica como uma referência para outras mulheres e como uma das vozes negras que marcaram o samba brasileiro.
Assim, os mais de 650 objetos reunidos em Com Amor, Alcione não funcionam apenas como lembranças de uma celebridade. Fotografias, figurinos, troféus, vídeos e documentos ajudam a contar uma história maior: a de uma mulher que atravessou diferentes momentos da música brasileira e, ao mesmo tempo, participou da transformação do lugar ocupado pelo samba, pelas mulheres e pela cultura negra no imaginário nacional.
A exposição reúne textos de autores como Nei Lopes, Nilcemar Nogueira e Salgado Maranhão, além de depoimentos de pessoas próximas à cantora, ampliando o olhar sobre essa trajetória.
Com Amor, Alcione termina, portanto, onde talvez esteja sua principal contribuição: na compreensão de que a história de uma grande intérprete também pode ser a história de um gênero musical, de uma comunidade e de diferentes tradições culturais que encontraram em sua voz uma forma de permanecer vivas.

Serviço
Com Amor, Alcione
Em cartaz até 6 de dezembro de 2026
Museu das Favelas
Largo Pátio do Colégio, 148 – Centro Histórico – São Paulo/SP
Telefone: (11) 4240-3355
Terça a domingo, das 10h às 17h
Entrada gratuita.

