Vídeo nas Aldeias: Vincent Carelli e a revolução do olhar indígena no cinema brasileiro
Criado em 1986, projeto pioneiro de formação audiovisual ajudou povos indígenas a assumir o controle de suas próprias imagens. Com dezenas de filmes produzidos e gerações de realizadores formados, a iniciativa transformou o cinema em instrumento de memória, identidade e resistência cultural.
Quem tem o direito de contar a história dos povos indígenas? Durante muito tempo, a imagem dos povos originários no cinema, na televisão e na imprensa brasileira foi construída predominantemente por olhares externos, que frequentemente os retratavam como personagens de um passado distante, sem espaço para expressar suas próprias experiências, conflitos e perspectivas.
Foi para questionar essa relação que o indigenista e cineasta Vincent Carelli criou, em 1986, o Vídeo nas Aldeias, uma das experiências mais importantes do audiovisual indígena no Brasil. A proposta começou com uma ideia aparentemente simples, mas de consequências profundas: levar câmeras às aldeias, registrar o cotidiano das comunidades e devolver essas imagens aos próprios indígenas, para que pudessem se reconhecer na tela, discutir como eram representados e decidir o que desejavam mostrar ao mundo.
Em entrevista à TV Raiz, Carelli conta essa trajetória de mobilização, aprendizado e resistência cultural, marcada pela construção de novas formas de relação entre cinema e comunidades indígenas. O depoimento ajuda a compreender não apenas a história de um projeto audiovisual, mas também uma transformação na maneira como os povos originários produzem e fazem circular suas próprias narrativas.
Uma câmera a serviço das comunidades
A relação de Vincent Carelli com os povos indígenas começou muito antes da criação do projeto. Em 1969, aos 16 anos, ele visitou uma aldeia do povo Xikrin, no sul do Pará. A experiência marcou sua trajetória e contribuiu para aproximá-lo do indigenismo, campo em que passou a atuar em defesa dos direitos e da autonomia dos povos originários.
Em 1986, trabalhando no contexto do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Carelli iniciou as experiências que dariam origem ao Vídeo nas Aldeias. Os primeiros registros foram realizados entre os Nambikwara, no Centro-Oeste brasileiro. A câmera não servia apenas para documentar costumes: as imagens eram exibidas nas próprias comunidades, provocando conversas, reações e reflexões sobre a maneira como cada povo se via e se relacionava com outros grupos.
Esse processo de assistir às próprias imagens tinha uma dimensão política e cultural. Ao se reconhecerem na tela, os indígenas podiam identificar aspectos de sua vida coletiva, recuperar lembranças, discutir transformações e refletir sobre a continuidade de suas tradições.
A iniciativa também permitia que comunidades distantes conhecessem umas às outras. Em vez de depender exclusivamente dos relatos produzidos por pesquisadores, jornalistas ou cineastas não indígenas, os próprios povos passavam a compartilhar suas experiências, línguas, cerimônias e formas de organização.
Da representação à autoria indígena
O passo seguinte foi transformar o contato com a câmera em formação audiovisual. A partir de 1997, o Vídeo nas Aldeias intensificou as oficinas de capacitação de realizadores indígenas, com acesso a equipamentos e orientação para as diferentes etapas da produção, da filmagem à edição.
A mudança foi decisiva. Os indígenas deixaram de ocupar apenas o lugar de personagens filmados e passaram a participar da escolha dos temas, da construção das narrativas e das decisões sobre o que deveria ser registrado e compartilhado.
Essa autoria não se limita à presença de uma pessoa indígena atrás da câmera. Ela envolve a possibilidade de definir o ponto de vista, escolher o que mostrar, estabelecer relações com os personagens e determinar como uma história será contada. Também exige considerar que cada povo possui sua própria organização social, seus conhecimentos e seus modos de compreender o mundo.
O resultado é um conjunto de filmes que rompe com imagens genéricas sobre os povos originários. Em lugar de uma representação única do que significa ser indígena, surgem narrativas distintas, construídas a partir de diferentes línguas, territórios, tradições e experiências contemporâneas.
Ao longo de sua trajetória, o Vídeo nas Aldeias trabalhou com dezenas de povos indígenas e contribuiu para a formação de realizadores que passaram a desenvolver suas próprias obras. O projeto tornou-se referência nacional e internacional na discussão sobre cinema, autoria, diversidade cultural e direitos dos povos originários.

Cinema, memória e resistência
Entre os trabalhos que ajudam a compreender a importância dessa experiência está O Espírito da TV (1990), de Vincent Carelli, que aborda a relação de comunidades indígenas com o vídeo e as possibilidades abertas pela apropriação dessa tecnologia. Outro título de destaque é A Arca dos Zo’é (1993), que integra a trajetória do projeto e evidencia a importância de permitir que os próprios indígenas conduzam a construção de suas narrativas.
A produção audiovisual também se tornou uma ferramenta de preservação da memória. Registros de festas, rituais, cantos, práticas cotidianas e formas de organização comunitária podem ser revisitados pelas novas gerações, contribuindo para a transmissão de conhecimentos e para a reflexão sobre as mudanças vividas pelas comunidades.
Mas o alcance desses filmes vai além da documentação cultural. Em um país marcado por conflitos fundiários, invasões de territórios e preconceitos contra os povos indígenas, controlar a própria imagem significa também disputar espaço no debate público. As câmeras permitem mostrar comunidades contemporâneas, com projetos políticos, formas próprias de organização e diferentes maneiras de se relacionar com a sociedade brasileira.
Isso não significa que todas as comunidades devam filmar ou divulgar suas práticas. A autonomia sobre a imagem inclui também decidir o que não deve ser registrado, quais conhecimentos podem ser compartilhados e quem está autorizado a fazê-lo. O princípio central é que a produção audiovisual não seja uma nova forma de apropriação, mas uma ferramenta colocada a serviço dos próprios povos.
Um legado para o cinema brasileiro
Em quase quatro décadas, o Vídeo nas Aldeias contribuiu para modificar o lugar do audiovisual indígena na cultura brasileira. A iniciativa ajudou a formar cineastas, reuniu um acervo de filmes e registros históricos e ampliou a presença de narrativas indígenas em mostras, festivais, instituições culturais e espaços de formação.
Esse legado também questiona a própria ideia de cinema nacional. A história do audiovisual brasileiro não pode ser contada apenas a partir dos grandes centros de produção, dos diretores consagrados ou das narrativas urbanas. Ela inclui os filmes realizados em aldeias, em diferentes línguas, por pessoas que encontram na câmera uma maneira de registrar suas experiências e dialogar com outros públicos.
A trajetória de Vincent Carelli é importante justamente por ter ajudado a criar condições para que esse protagonismo se desenvolvesse. O objetivo não era falar pelos indígenas, mas contribuir para que tivessem meios de produzir e fazer circular suas próprias imagens — um trabalho que, ao longo do tempo, passou a ser conduzido também pelos realizadores formados nas comunidades.
O Vídeo nas Aldeias demonstra que uma câmera pode ser mais do que um instrumento de registro. Pode funcionar como arquivo de memória, espaço de aprendizagem, meio de comunicação entre povos e ferramenta de afirmação cultural. Sobretudo, pode alterar quem tem o poder de contar uma história.
Ao colocar a autoimagem no centro de sua atuação, o projeto abriu caminhos para um cinema em que os povos indígenas não aparecem apenas como tema: são autores de suas narrativas, produtores de conhecimento e participantes ativos da cultura contemporânea brasileira.

