Paisagista Roberto Burle Marx ganha retrospectiva na Europa
Exposição percorre Suíça e Espanha entre outubro de 2026 e junho de 2027 e apresenta diferentes dimensões da produção do artista, do paisagismo à pintura, passando pela botânica, pelas artes decorativas e pela defesa da flora brasileira.
A obra de Roberto Burle Marx (1909–1994), um dos nomes fundamentais da arte e do paisagismo modernos, será apresentada ao público europeu na retrospectiva “Roberto Burle Marx. Modernismo Tropical”. A exposição estreia no Zentrum Paul Klee, em Berna, na Suíça, e segue, em março de 2027, para a Fundación Juan March, em Madri, na Espanha. O Sítio Roberto Burle Marx, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), participa da iniciativa com 86 peças de seu acervo.
A mostra propõe um olhar abrangente sobre a produção de Burle Marx, que aproximou paisagismo, pintura, música e artes decorativas para criar uma linguagem própria. Entre os materiais apresentados estão obras autorais, ilustrações da botânica Margaret Mee, objetos do cotidiano e itens das coleções pessoais do artista.
Em Berna, a exposição poderá ser visitada de 17 de outubro de 2026 a 7 de fevereiro de 2027. Depois, ficará em cartaz na Fundación Juan March, em Madri, de 5 de março a 13 de junho de 2027. A curadoria é assinada por Fabienne Eggelhöfer e Myriam Dössegger, do Zentrum Paul Klee, e Manuel Fontán del Junco e María Toledo, da Fundación Juan March. A realização conta com a parceria do Instituto Burle Marx e o apoio do Sítio Roberto Burle Marx/Iphan.

Paisagismo, arte e biodiversidade
Entre os destaques estão 15 projetos paisagísticos emblemáticos, incluindo o calçadão de Copacabana, apresentados por meio de desenhos coloridos à mão, fotografias, maquetes e filmes. A exposição também reúne pinturas, esculturas, figurinos de balé, tapeçarias e joias, revelando a diversidade de linguagens exploradas pelo artista.
Duas instalações ampliam essa abordagem: um vídeo de 15 metros dedicado ao universo vegetal do Sítio Roberto Burle Marx e um mural de 13 metros projetado pelo paisagista. Os trabalhos ajudam a contextualizar uma produção em que a vegetação não aparece apenas como elemento decorativo, mas como matéria de criação artística e investigação sobre a diversidade natural.
A participação do Sítio reforça a importância desse espaço para compreender a trajetória do artista. Localizado em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, o lugar foi residência, laboratório botânico e campo de experimentação paisagística. Em 16 de outubro, a diretora da unidade, Claudia Storino, participa da abertura oficial da exposição, com uma apresentação sobre a relação entre o Sítio, a vida e a obra de Burle Marx e sua condição atual de patrimônio cultural e mundial.

A invenção do Jardim Tropical Moderno
Burle Marx transformou o paisagismo do século XX ao incorporar à composição dos jardins princípios da pintura moderna e da música. Em lugar de reproduzir os modelos geométricos europeus, desenvolveu projetos que exploravam formas, cores, volumes e associações vegetais, valorizando a flora tropical e, especialmente, as espécies brasileiras.
Nascido em São Paulo e criado no Rio de Janeiro, o artista identificou o potencial estético da vegetação brasileira durante uma temporada em Berlim, entre 1928 e 1930. Ao visitar as estufas do Jardim Botânico de Dahlem, entrou em contato com espécies tropicais que despertaram seu interesse e o levaram a questionar a preferência, comum à época, por plantas europeias importadas.
Sua formação em pintura na Escola Nacional de Belas Artes foi apenas uma das bases de uma carreira multidisciplinar. Burle Marx também atuou como desenhista, designer de joias, tecidos e tapeçarias, cenógrafo, figurinista e cantor barítono. Essa multiplicidade de interesses atravessou seus projetos e contribuiu para a criação de uma linguagem que aproximou arte, arquitetura e natureza.
Sua atuação também esteve ligada à defesa ambiental. Em expedições pelo interior do Brasil, pesquisou a flora e participou da descoberta de mais de cem espécies de plantas, cerca de 30 delas homenageadas com o epíteto burle-marxii. Ao longo da carreira, usou sua projeção pública para alertar sobre o desmatamento e a perda da biodiversidade.

Um patrimônio vivo no Rio de Janeiro
Reconhecido pela Unesco, em julho de 2021, como Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural, o Sítio Roberto Burle Marx é parte essencial desse legado. Adquirido em 1949 por Roberto e seu irmão, Guilherme Siegfried Marx, o espaço tem 405 mil metros quadrados e foi inicialmente chamado Sítio Santo Antônio da Bica.
Ali, Burle Marx cultivou espécies, experimentou combinações vegetais e reuniu coleções que ajudaram a desenvolver suas ideias sobre paisagismo. O lugar também foi sua casa e um centro de convivência, criação e pesquisa. Como registra o livro Sítio Roberto Burle Marx, produzido pela própria unidade, a propriedade não se limita a um projeto paisagístico ou arquitetônico: constitui um projeto de vida.
Em 1985, o artista doou o Sítio ao Governo Federal para assegurar a continuidade das pesquisas, a preservação do acervo e a difusão do conhecimento. Hoje, o local abriga mais de 3.500 espécies vivas de plantas tropicais e subtropicais, funcionando também como espaço de conservação e referência para a pesquisa botânica.
O complexo reúne sete edificações, entre elas a Casa de Roberto, o Ateliê de Pintura — cuja fachada incorpora cantaria colonial do século XIX — e a Capela de Santo Antônio da Bica, do século XVIII. Há ainda seis lagos e um acervo museológico com mais de 4 mil itens, que inclui arte pré-colombiana, arte sacra luso-brasileira, cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha, vidros, cristais, conchas e obras do próprio artista.
A retrospectiva europeia oferece, assim, a oportunidade de conhecer a amplitude de uma produção que ultrapassou os limites do paisagismo. Para quem estiver no Brasil, uma visita ao Sítio, em Barra de Guaratiba, permite conhecer o território onde parte fundamental dessa obra foi concebida e experimentada.

Serviço
Exposição: Roberto Burle Marx. Modernismo Tropical
Zentrum Paul Klee — Berna, Suíça
17 de outubro de 2026 a 7 de fevereiro de 2027. Abertura oficial em 16 de outubro de 2026.
Fundación Juan March — Madri, Espanha
5 de março a 13 de junho de 2027.
Ingressos: a entrada para a cerimônia de abertura em Berna, no dia 16 de outubro, será gratuita. Nos demais dias, será necessário adquirir ingresso pelo site do Zentrum Paul Klee.
Curadoria: Fabienne Eggelhöfer, Myriam Dössegger, Manuel Fontán del Junco e María Toledo.
Parceria: Instituto Burle Marx.
Apoio: Sítio Roberto Burle Marx e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Sítio Roberto Burle Marx: Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. Aberto à visitação pública.

