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MASP apresenta obra inédita de Edgar Calel sobre ancestralidade e saberes maias kaqchikel

Exposição reúne três vídeos do artista guatemalteco e propõe uma reflexão sobre memória, território e transmissão de conhecimentos ancestrais.

Em 31 de outubro, Calel realiza uma performance aberta ao público no Vão Livre do museu.

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) inaugura, em 30 de outubro, a exposição Sala de Vídeo: Edgar Calel, dedicada à produção do artista guatemalteco de origem maia kaqchikel. Com curadoria de Isabela Ferreira Loures, assistente curatorial do museu, a mostra reúne três vídeos que abordam memória, ancestralidade e território a partir da cosmologia de seu povo.

O destaque é Ru Q’an Ramaj – Escalera del tiempo [Ru Q’an Ramaj – Escada do tempo], obra inédita comissionada pelo MASP e realizada em parceria com o diretor e produtor audiovisual brasileiro Fernando Pereira dos Santos. Com sete minutos de duração, o vídeo parte de um arquivo de imagens construído pelos dois artistas ao longo de anos de amizade e também registra o trânsito pessoal e afetivo de Calel entre a Guatemala e o Brasil.

Na obra do artista, o fogo ocupa um lugar central como guardião da memória e presença que acompanha a vida cotidiana e espiritual do povo kaqchikel, do nascimento à morte. A capacidade de interpretar o fogo constitui uma forma de transmitir conhecimentos entre gerações, mantendo vivos os vínculos com os antepassados.

“A obra de Calel nos convida a reconhecer essa força ancestral que permanece viva em nós, transformando o espaço do museu num local de escuta e partilha coletiva”, afirma a curadora Isabela Ferreira Loures. A exposição propõe, assim, um encontro com formas de conhecimento que ultrapassam os limites da palavra e se manifestam por meio de gestos, rituais e relações com a natureza.

Outros dois vídeos completam a mostra. Em Rajawal juyu – Espírito dueño y protector de los cerros [Rajawal juyu – Espírito dono e protetor das montanhas], de 2025, Calel e seus irmãos caminham por uma mata deixada por sua avó, guiados e protegidos por um jaguar. O trabalho aborda a herança ancestral não apenas como algo recebido, mas como um compromisso que exige cuidado e responsabilidade. Reunir-se ao redor do fogo para agradecer pelo que foi transmitido significa também renovar a obrigação de preservar esse legado.

Já em Ab’ej taj ch’ab’el – Palabras de piedra [Ab’ej taj ch’ab’el – Palavras de pedra], também de 2025, o artista aparece diante de uma fogueira vestindo uma pele de jaguar. Do outro lado do fogo, outra pele está dobrada sobre as pedras. A cena evoca a transformação da vida e a possibilidade de o espírito transitar por diferentes planos de existência.

Edgar Calel - Fernando Pereira dos Santos e Edgar Calel; Ru Q’an Ramaj – Escalera del tiempo, 2026
Edgar Calel – Fernando Pereira dos Santos e Edgar Calel; Ru Q’an Ramaj – Escalera del tiempo, 2026

Arte, comunidade e resistência cultural

A produção de Edgar Calel reúne pintura, desenho, poesia, performance, instalação e videoarte, articulando dimensões espirituais e rituais da cosmologia maia kaqchikel. Seu trabalho também questiona a marginalização histórica e política dos povos indígenas latino-americanos e as formas hegemônicas de produzir, expor e fazer circular a arte.

A dimensão comunitária é parte fundamental dessa prática. Muitas de suas obras são concebidas e realizadas em colaboração com familiares, reafirmando a criação como processo compartilhado e forma de transmissão de conhecimentos. Ao levar essas referências para o espaço institucional do museu, Calel propõe outras maneiras de compreender a arte, a memória e a relação entre seres humanos, território e mundo espiritual.

O artista participou de exposições internacionais como a 58ª Carnegie International, a 11ª Bienal de Berlim, a 35ª Bienal de São Paulo, a 12ª Bienal de Liverpool e a 14ª Bienal de Gwangju. Seus trabalhos integram coleções como as da Tate Modern, do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, da National Gallery of Canada e do Museum of Contemporary Art and Design, na Costa Rica.

Performance no Vão Livre

A programação inclui uma performance inédita de Edgar Calel no Vão Livre do MASP, no dia 31 de outubro, às 16h. Intitulada At Nu jukukempe Bik’in – Te traigo arrastrando conmigo [At Nu jukukempe Bik’in – Te trago arrastando comigo], a ação parte da cosmovisão maia kaqchikel e convida o público a participar de um encontro construído por meio de oferendas, gestos e palavras.

A performance propõe uma reflexão sobre a memória, o agradecimento e as responsabilidades que acompanham aquilo que recebemos dos antepassados. Ao aproximar o visível do que nos antecede, a ação amplia para o espaço coletivo as questões presentes nos vídeos da exposição.

Sobre Fernando Pereira dos Santos

Diretor, documentarista e produtor cinematográfico, Fernando Pereira dos Santos desenvolve trabalhos entre o cinema documental, a ficção e as artes visuais, investigando relações entre território, memória, identidade e fabulação. Dirigiu Mapuche: Gente da Terra (2012) e codirigiu com Edgar Calel os curtas-metragens XAR: Sueño de Obsidiana (2022), comissionado pela 11ª Bienal de Berlim, e Ru Q’an Ramaj – Escalera del tiempo (2026), produzido para o MASP.

Como produtor e produtor executivo, participou de filmes como Fabiana (2018), vencedor do Prêmio do Público no Olhar de Cinema, e Samuel e a Luz (2023), coprodução Brasil–França exibida em festivais nacionais e internacionais. Também produziu o documentário A Vez de Espera, dirigido por Chico Bahia, com estreia prevista para 2027. Atualmente, desenvolve seu primeiro longa-metragem como diretor, Rocha-Måe.

Edgar Calel - Fernando Pereira dos Santos e Edgar Calel; Ru Q’an Ramaj – Escalera del tiempo, 2026
Edgar Calel – Fernando Pereira dos Santos e Edgar Calel; Ru Q’an Ramaj – Escalera del tiempo, 2026

Acessibilidade

As exposições temporárias do MASP oferecem recursos de acessibilidade, incluindo textos e legendas em fonte ampliada e conteúdos audiovisuais com audiodescrição, legendagem e interpretação em Libras. O museu também disponibiliza visitas em Libras ou descritivas, mediante solicitação pelo e-mail acessibilidade@masp.org.br.

Os materiais acessíveis estão disponíveis no site e no canal do YouTube da instituição e podem ser utilizados por pessoas com e sem deficiência, escolas, professores e demais públicos. Pessoas com deficiência e um acompanhante têm entrada gratuita.

A exposição Sala de Vídeo: Edgar Calel é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. A programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas conta com patrocínio do Nubank.

Serviço

Exposição: Sala de Vídeo: Edgar Calel
Período: 30 de outubro de 2026 a 31 de janeiro de 2027
Curadoria: Isabela Ferreira Loures, assistente curatorial do MASP
Local: Edifício Lina Bo Bardi, 2º subsolo, MASP
Endereço: Avenida Paulista, 1578, Bela Vista, São Paulo (SP)
Telefone: (11) 3149-5959

Horários de visitação:

Terças-feiras: das 10h às 20h, com entrada até as 19h. Entrada gratuita, com patrocínio Nubank.

Quartas e quintas-feiras: das 10h às 18h, com entrada até as 17h.

Sextas-feiras: das 10h às 21h, com entrada gratuita das 18h às 20h30, com patrocínio B3.

Sábados e domingos: das 10h às 18h, com entrada até as 17h.

Fechado às segundas-feiras.

Ingressos: R$ 85 (inteira) e R$ 42 (meia-entrada). Clientes Nubank Ultravioleta têm 50% de desconto no ingresso inteiro e em produtos selecionados da loja do MASP; clientes Nubank têm 25% de desconto.

Agendamento: obrigatório pelo site masp.org.br/ingressos.