A pintura de Maria Auxiliadora em exposição de destaque em Nova Iorque
Mostra no Hessel Museum of Art propõe diálogo entre memória, ruralidade e urbanização na obra de Maria Auxiliadora Silva.
A artista brasileira Maria Auxiliadora Silva (1935–1974) ganha destaque em Nova York com a exposição Imprinted in My Mind, em cartaz até 24 de maio no Hessel Museum of Art, no campus do Bard College, em Annandale-on-Hudson. Com curadoria de Bruna Grinsztejn, a mostra apresenta um recorte consistente da produção da artista, evidenciando a força de sua linguagem e a atualidade de seu pensamento visual.
Reunindo pinturas que transitam entre o universo rural e urbano, a exposição revela como memória, imaginação e experiência moldaram a trajetória de Maria Auxiliadora. Nascida em Campo Belo (MG) e criada em São Paulo, a artista construiu uma obra profundamente marcada por lembranças da vida no campo — frequentemente reelaboradas por meio de uma visualidade intensa, detalhada e singular.
Mais do que recuperar sua produção, a mostra reposiciona a artista no debate contemporâneo ao evidenciar a sofisticação de seu trabalho — atravessado por questões de identidade, memória e pelas tensões entre o Brasil rural e urbano —, desafiando leituras historicamente reducionistas.
As cenas rurais apresentadas não são registros diretos, mas construções evocativas, muitas delas mediadas por narrativas familiares, especialmente as memórias transmitidas por sua mãe. Em contraponto, as pinturas urbanas capturam o cotidiano vibrante da São Paulo das décadas de 1960 e 1970, com seus encontros sociais, momentos de lazer e dinâmicas coletivas.
Ao articular esses dois universos, a exposição propõe uma leitura refinada da experiência da modernidade no Brasil, evidenciando suas contradições, tensões sociais e camadas subjetivas. Com cores intensas e composições densas, Maria Auxiliadora afirma-se como uma voz incontornável na história da arte, escapando de categorizações simplistas frequentemente atribuídas à sua produção.
A mostra também reforça a presença de artistas brasileiros no circuito internacional, ao mesmo tempo em que revisita trajetórias que tensionam narrativas tradicionais da história da arte.

Segundo a curadora Bruna Grinsztejn, a inclusão de um artista brasileiro no programa do museu sempre esteve entre seus objetivos. “Já conhecia e me fascinava a obra de Maria Auxiliadora. Há nela uma vitalidade e uma sofisticação únicas”, afirma.
Grinsztejn destaca ainda que o projeto expositivo — que articula pesquisa de arquivo e expografia — convida o público a um mergulho no vocabulário visual da artista e em sua conexão com os intensos anos 1960 e 1970.
Inaugurada em 4 de abril, a exposição tem despertado forte interesse do público. “O mais curioso é como cada visitante se detém em aspectos distintos das obras, ampliando as possibilidades de leitura e discussão”, observa a curadora.

Sobre a artista
Maria Auxiliadora Silva nasceu em 1935, na zona rural de Campo Belo (MG), filha de Maria Almeida da Silva e João Cândido da Silva. Aos três anos, mudou-se com a família para São Paulo, onde cresceu em um ambiente criativo, sendo incentivada pela mãe — também artista — a explorar diferentes linguagens, como bordado, desenho e pintura.
De origem operária, conciliou por anos a produção artística com outras atividades profissionais até dedicar-se integralmente à arte a partir de 1968. Nesse período, integrou um grupo de artistas negros em Embu das Artes, que promovia encontros, exposições e circulação de trabalhos em pleno contexto da ditadura militar, criando espaços de resistência e afirmação cultural.
A artista faleceu em 1974, deixando um legado marcado por sua observação sensível do cotidiano e por uma imaginação vibrante.
Serviço
“Imprinted in My Mind” — Maria Auxiliadora Silva
Curadoria Bruna Grinsztejn
Hessel Museum of Art — 33 Garden Rd, Annandale-On-Hudson, NY, EUA
até 24 de maio, das 13h às 16h


