CanaisIdentidadesLançamentosPolíticas Públicas

Mestre Magela transforma tradição popular em arte há mais de 40 anos

Reconhecido como Mestre da Cultura Popular, artesão de Jacareí faz do barro, do papel e da imaginação matéria-prima para preservar saberes e formar novas gerações.

Antes de moldar o barro ou colar as primeiras camadas de papel, Geraldo Magela já iniciou a criação em outro lugar: na imaginação. É ali que surgem personagens, cenários e histórias que, mais tarde, ganham forma em suas mãos.

Aos 59 anos, o artesão de Jacareí acumula mais de quatro décadas dedicadas à arte popular brasileira. Conhecido por seus presépios, figuras religiosas e os tradicionais “Paulistinhas” — pequenas esculturas de barro ligadas ao imaginário popular paulista —, Magela construiu uma trajetória marcada pela preservação de técnicas artesanais e pela transmissão de conhecimentos que atravessam gerações.

Fui me descobrindo gente por meio da minha arte, do meu artesanato“, resume.

Seu trabalho combina principalmente a modelagem em argila e a técnica do empapelamento, processo artesanal que utiliza papel, cola e pintura para criar esculturas leves e resistentes. Em cada peça, convivem referências da cultura popular, da religiosidade e das memórias afetivas que acompanham a vida cotidiana brasileira.

O momento mais importante acontece antes da obra existir

Embora seja reconhecido pela habilidade manual, Magela afirma que sua etapa favorita acontece muito antes do contato com os materiais.

Gosto do momento que antecede a criação concreta, quando os bonecos e cenários começam a ganhar forma dentro da minha imaginação.

Depois dessa fase invisível, inicia-se um processo que exige paciência e domínio técnico. As peças modeladas permanecem em secagem por vários dias antes de seguirem para o forno à lenha, método tradicional aprendido com mestres artesãos da região.

A queima é um diálogo com o fogo. Uma meditação lenta e cuidadosa para que um descuido com a temperatura não coloque tudo a perder“, conta.

O resultado são obras que carregam marcas do tempo, do trabalho manual e da relação profunda entre o artesão e a matéria-prima.

Processo de queima, modelagem e a secagem das peças- Fotos: Acervo pessoal / Instagram
Processo de queima, modelagem e a secagem das peças- Fotos: Acervo pessoal / Instagram

Presépios que despertam lembranças

Entre as diversas criações de Magela, os presépios ocupam um lugar especial. Mais do que símbolos religiosos, eles funcionam como gatilhos de memória.

O presépio toca, antes de tudo, o imaginário. Remete à infância, às lembranças afetivas, encanta pelo colorido, desperta esperança e apresenta o belo.

Essa conexão emocional ajuda a explicar por que suas peças despertam identificação em públicos tão diversos. Para o artesão, o reconhecimento mais valioso nem sempre vem da venda.

Poder ver o encantamento de alguém diante de uma peça feita por mim é uma espécie de segundo pagamento. O dinheiro paga a matéria-prima e o tempo investido. O sorriso me mostra que trilhei o caminho correto.

Um mestre que ensina

Além da produção artística, Magela dedica parte importante de sua trajetória à formação de novos artesãos e à preservação de saberes tradicionais.

Em 2013, recebeu o título de Mestre da Cultura Popular, reconhecimento concedido a pessoas que atuam na salvaguarda e transmissão de conhecimentos ligados às culturas populares brasileiras.

Desde então, sua atuação tem ultrapassado os limites do ateliê, alcançando oficinas, projetos formativos e iniciativas voltadas à valorização do artesanato como expressão cultural e fonte de renda.

Artesanato como cultura e empreendedorismo

Nos últimos anos, iniciativas de apoio ao setor têm ampliado as possibilidades de desenvolvimento para profissionais como Magela. Entre elas está o Programa Empreendedor Artesão, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Paulo, que oferece ações de qualificação, orientação para formalização, emissão da Carteira do Artesão e acesso a linhas de crédito voltadas ao fortalecimento dos pequenos negócios criativos.

Para Magela, programas desse tipo ajudam a aproximar os artesãos de ferramentas capazes de fortalecer a atividade e ampliar sua visibilidade econômica e cultural.

Mais do que um incentivo ao empreendedorismo, essas iniciativas contribuem para reconhecer o artesanato como patrimônio vivo, sustentado por pessoas que transformam conhecimento, memória e criatividade em trabalho.