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Festival Acessa BH reúne artistas da cultura DEF em programação com artes e cultura popular

De 4 a 27 de setembro, festival ocupa seis espaços de Belo Horizonte com cerca de 30 atividades e reúne artistas brasileiros e uma companhia britânica.

A cultura DEF — produzida por artistas com deficiência e a partir de diferentes experiências de corpo, comunicação e percepção — ganha o centro da programação do Festival Acessa BH, que realiza sua sexta edição de 4 a 27 de setembro, em Belo Horizonte. Ao longo de quatro semanas, o festival reúne cerca de 30 atividades entre espetáculos, performances, cinema, oficinas, conversas e lançamentos de livros, com artistas de seis estados brasileiros e uma companhia do Reino Unido.

Mais do que apresentar trabalhos acessíveis, o Acessa BH coloca a experiência da deficiência no centro da criação artística. Dança, teatro, performance, cinema, literatura, Libras e recursos sensoriais aparecem não apenas como ferramentas de acesso, mas como linguagens capazes de produzir novas formas de fazer e experimentar arte.

Entre os destaques estão SER(tão) e Nuvem de Pássaros, da companhia potiguar Movidos Dança; Baixa Sociedade, dirigida por Pedro Neschling e protagonizada por Luiz Fernando Guimarães; SURDA, com Benedita Casé Zerbini; a performance imersiva Encontro Romântico Binaural, da britânica ZU-UK; e a pré-estreia nacional do documentário Uma em Mil, seguida de conversa com os diretores.

Festival Acessa BH - divulgação
Festival Acessa BH – divulgação

Dança entre o sertão e o contemporâneo

A abertura, em 4 de setembro, na Funarte MG, fica por conta de SER(tão), da Movidos Dança, com direção do coreógrafo Mário Nascimento. A montagem parte do sertão nordestino para construir uma paisagem cênica que aproxima tradição e contemporaneidade.

Forró, xote e baião convivem com sonoridades eletrônicas em uma criação que investiga a diversidade dos corpos e questiona os padrões tradicionalmente associados à dança. A companhia, criada em 2018 por Anderson Leão e Daniel Silva, desenvolve uma pesquisa voltada à presença de corpos diversos na cena.

No dia seguinte, 5 de setembro, o grupo apresenta Nuvem de Pássaros, espetáculo inspirado nas migrações das aves e nas estratégias de convivência entre diferentes espécies. A imagem das revoadas serve de ponto de partida para uma reflexão sobre coletividade, conflitos e sobrevivência.

Entre Ellas - foto Gilberto Goulart
Entre Ellas – foto Gilberto Goulart

Uma experiência de encontro

Também na primeira semana, a companhia britânica ZU-UK apresenta Encontro Romântico Binaural, performance imersiva que transforma o espaço cultural em uma espécie de restaurante. Durante 75 minutos, duplas formadas por pessoas que já se conhecem ou que nunca se encontraram participam de jogos, conversas e situações conduzidas por uma narrativa em áudio binaural.

A experiência, criada por Persis Jadé Maravala e Jorge Lopes Ramos, investiga relações, intimidade, afeto e autoconhecimento e coloca os espectadores dentro da própria obra. Ao final, os artistas conversam com o público sobre o processo de criação e as relações entre performance, tecnologia e deficiência.

Teatro coloca a experiência da surdez em cena

A programação teatral traz dois trabalhos que partem diretamente das experiências de seus criadores e intérpretes.

Em SURDA, a atriz Benedita Casé Zerbini interpreta uma mulher diante das transformações provocadas pela perda auditiva. Com dramaturgia autobiográfica de Julia Spadaccini e direção de Debora Lamm, o espetáculo aborda relações afetivas, família, trabalho e identidade a partir de uma experiência pessoal de surdez.

A montagem conta ainda com a presença da intérprete de Libras Diana Dantas em cena e legendas em tempo real. Após a apresentação, haverá conversa com o público sobre os processos de criação.

Baixa Sociedade, texto de Juca de Oliveira dirigido por Pedro Neschling, reúne Luiz Fernando Guimarães, Debora Osório, Paulo Mathias Jr. e Bruna Alves. A comédia aborda mobilidade social, ambição e relações de poder e integra as comemorações dos 50 anos de carreira de Luiz Fernando Guimarães. Neschling, que convive com deficiência auditiva desde a juventude, também participa do festival compartilhando sua experiência relacionada à surdez.

Festival Acessa BH - divulgação
Festival Acessa BH – divulgação

Cinema sem estereótipos

O cinema ocupa espaço importante na programação. Entre as atrações está a pré-estreia nacional de Uma em Mil, documentário dos irmãos Jonatas e Tiago Rubert. A partir da relação entre os próprios realizadores — Tiago tem síndrome de Down —, o filme aborda autonomia, convivência e afeto, evitando os estereótipos frequentemente associados às narrativas sobre deficiência.

Premiado no Festival do Rio, o documentário será exibido em Belo Horizonte seguido de conversa com os diretores.

Outra atração é o longa espanhol Surda, vencedor de três prêmios Goya. Protagonizado pela atriz surda Miriam Garlo, o filme acompanha uma mulher durante a gravidez e a maternidade e investiga questões de identidade, comunicação e pertencimento.

Cultura nordestina encontra Libras

Um dos encontros mais singulares do festival acontece em A Cangaceira Surda Mara, criação da artista cearense surda Lyvia Cruz. Apresentado inteiramente em Libras, o espetáculo mistura humor, cultura nordestina e brincadeiras tradicionais para contar as aventuras de uma heroína surda pelo sertão.

Professora, tradutora, pesquisadora e contadora de histórias em Libras, Lyvia desenvolve uma pesquisa dedicada à cultura surda e à literatura em língua de sinais, aproximando públicos surdos e ouvintes.

Outro trabalho que dialoga com a cultura popular é O Número Sanfônico, da catarinense La Luna Cia. de Teatro. A montagem combina palhaçaria, música e acessibilidade estética em uma experiência para diferentes idades.

angaceira Surda Mara - foto Giuliano Robert
Cangaceira Surda Mara – foto Giuliano Robert

Teatro, circo e imaginação para as crianças

A programação dedicada às infâncias reúne teatro, circo, literatura, Libras e experiências sensoriais.

Em Circo de Los Pies, uma palhaça transforma os próprios pés em personagens para criar pequenas histórias de humor e imaginação. Já O Número Sanfônico coloca música e palhaçaria em cena para acompanhar as personagens Asmeline e Paçoca em uma narrativa sobre amor, cumplicidade e superação.

Puft e as Almofadas Coloridas, da Cia. Ananda e Rosa Primo, propõe uma experiência especialmente voltada a crianças com Transtorno do Espectro Autista. O espetáculo rompe a separação tradicional entre palco e plateia e transforma o brincar em parte da própria dramaturgia.

A programação infantil se completa com Da Janela, de Marco dos Anjos, que combina Libras, narração poética, recursos visuais e sonoros para contar a amizade entre duas crianças que descobrem novas formas de comunicação.

Formação e troca de experiências

Além dos espetáculos, o Acessa BH promove oficinas e encontros dedicados aos processos de criação e às diferentes formas de acessibilidade nas artes.

Entre as atividades está a oficina Audiodescrição, movimento e expressão – explorando possibilidades, que investiga as relações entre audiodescrição, corpo e artes performáticas. A atividade reúne Anita Rezende, Elizabet Sá e Renata Mara, artista da dança e pesquisadora com deficiência visual.

No dia 20 de setembro, o festival ocupa a Praça da Liberdade com o Quintal do Memorial – Edição Acessa BH, em parceria com o Memorial Minas Gerais Vale. Espetáculos, vivências e encontros transformam o espaço em um ponto de convivência entre artistas e público.

Ao reunir artistas surdos, cegos, autistas, pessoas com deficiência física e outras experiências de deficiência em diferentes linguagens, o Festival Acessa BH evidencia uma produção artística que vem ampliando seus espaços de criação e circulação. A programação mostra que acessibilidade pode estar não apenas no modo como o público chega à obra, mas na própria maneira como a obra é criada.

Cena do filme SURDA
Cena do filme SURDA

Festival Acessa BH – 6ª edição

De 4 a 27 de setembro de 2026

Programação em seis espaços de Belo Horizonte, entre eles Funarte MG, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cine Theatro Brasil, Praça da Liberdade, Teatro Raul Belém Machado e Palácio das Artes.

A programação é gratuita, com informações e inscrições disponíveis nos canais oficiais do festival.