ONJE-ALÉ FUNFUN
A “Ceia Branca” na Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte da cidade da Cachoeira, Bahia.
Conheci os rituais que fazem parte do ciclo religioso da Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte no ano de 1979, quando fui convidado pela prefeitura da cidade da Cachoeira para visitar a cidade, e me inteirar desta Irmandade. Nesta época, eu coordenava os projetos na FUNARTE, e assim passamos a apoiar a Irmandade para a realização das indumentárias para as “baianas de beca”, e para a própria festa deste mesmo ano.
E assim, em campo, em pleno mês de agosto, pude realizar grandes conexões entre as tradições religiosas do Recôncavo da Bahia com as suas matrizes africanas. Este mês no qual tradicionalmente os terreiros de candomblé da região dedicam ao orixá Omolu, e sua família mítica. Destaque para a festa do Olubajé, grande cerimônia ao ar livre com o oferecimento de comidas que fazem parte dos cardápios de muitos orixás, e estas comidas são servidas em folhas de mamona, na qual se come cerimonialmente com a mão.
A cidade da Cachoeira, além de seu magnífico patrimônio histórico de pedra e cal, vive também um rico patrimônio imaterial que o sagrado nas suas expressões e memórias, e que dialogam com o outro lado do Atlântico, com o continente africano.
Nesse contexto, a Irmandade da Boa Morte faz uma grande união do sagrado dos terreiros de candomblé com os rituais públicos das procissões das igrejas. Durante estas celebrações de um catolicismo repleto de africanidades têm-se como culminância a Assunção de Nossa Senhora.
No calendário da festa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, destaque para o ritual da sexta-feira que é chamado de “Ceia Branca”, quando as Irmãs, todas vestidas de branco, oferecem a própria Irmandade e ao público comidas especialmente escolhidas, porque estamos no dia de Oxalá, a sexta-feira; e assim são oferecidos pães, doboru – pipoca –; peixe ao coco, saladas, entre outros.
O doboru, além de ser servido no conjunto deste cardápio, é despejado como se fosse uma aspersão sobre a mesa e demais comidas, e sobre o público, e no próprio ambiente como um verdadeiro ritual sagrado de purificação.
ONJE-ALÉ FUNFUN – desenho de Raul Lody
Na cidade da Cachoeira, vive-se o ano inteiro com os preparativos e a organizações das festas. Festa de oferecimento de balaios de comidas e flores na Pedra da baleia no rio Paraguaçu; festa do Caboclo no dia 2 de julho; e um amplo e diverso calendário de festas dos terreiros de candomblé. Os preparativos da festa da Irmandade da Boa Morte com os peditórios, entre tantas outras celebrações, fazem desta cidade da Cachoeira um lugar muito especial para viver o sagrado.
Ainda, quero trazer aqui o meu testemunho emocionado de poder ter vivido tantas festas desta Irmandade, de ter aprofundado laços de amizade, de afeto e de carinho com tantas Irmãs; e assim ter ampliado essas relações nas festas dos terreiros, com muito aprendizado e gratidão.
Reuni e editei tantos aprendizados nestas relações com a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, e com as demais celebrações na cidade da Cachoeira, que pude, então, publicar o meu livro “Devoção e Culto à Nossa Senhora da Boa Morte. Pesquisa sociorreligiosa” (1981), o primeiro livro sobre essa Irmandade, o qual ofereci as Irmãs como uma homenagem; e, com destaque para a minha querida amiga Estelita, filha de Omolu, Juíza Perpétua desta Irmandade.
Tudo se mistura e se comunica no mês de agosto, numa ampla tradição que se renova e que se mantém na fé e na devoção aos santos, aos orixás e aos voduns.
RAUL LODY

