36ª Bienal de São Paulo leva a Salvador obras sobre humanidade, memória e decolonialidade
Itinerância reúne cerca de 80 obras de 14 artistas no MUNCAB e aproxima a exposição de diferentes experiências culturais e históricas.
A 36ª Bienal de São Paulo chega a Salvador com uma seleção de cerca de 80 obras de 14 artistas, reunidas no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB). A itinerância, aberta à visitação até 29 de novembro, amplia para a capital baiana os debates propostos pela exposição realizada no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, em São Paulo, e estabelece novas relações entre as obras e um contexto marcado pela presença afro-brasileira e pela diversidade cultural.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
(Conceição Evaristo – excerto de “Da calma e do silêncio”)
As itinerâncias passaram a ocupar um papel importante na atuação da Bienal de São Paulo ao levar parte de suas exposições para outras cidades e instituições. Mais do que reproduzir a mostra original, essas apresentações permitem que obras, conceitos e debates sejam confrontados com diferentes contextos sociais e culturais, produzindo outras possibilidades de leitura a partir dos públicos e dos territórios que recebem a exposição.
Em Salvador, a escolha do MUNCAB acrescenta uma camada particular a esse processo. O museu, dedicado à preservação, pesquisa e difusão das culturas afro-brasileiras, recebe uma seleção de trabalhos que dialoga com questões presentes na 36ª Bienal, entre elas memória, identidade, relações de poder, circulação de saberes e diferentes formas de compreender a experiência humana.
A humanidade como prática
Inspirada na obra da escritora Conceição Evaristo, a 36ª Bienal parte de uma proposição que desloca a ideia de humanidade de uma condição fixa para uma prática em permanente construção. Em vez de compreender o humano como um substantivo, a exposição propõe pensá-lo como verbo: algo que se realiza por meio das relações, das experiências e das formas de convivência.
A imagem do estuário é utilizada como uma das chaves conceituais da mostra. Local onde diferentes cursos de água se encontram antes de chegar ao mar, o estuário torna-se uma metáfora para processos de mistura, negociação, transformação e coexistência entre culturas.
A ideia ganha particular significado em uma exposição que toma o Brasil como ponto de partida para discutir questões que ultrapassam suas fronteiras. A experiência brasileira, marcada por encontros e conflitos entre diferentes povos, deslocamentos, diásporas e processos de colonização, aparece como um campo para pensar formas mais amplas de convivência no mundo contemporâneo.
A curadoria é assinada por Thiago de Paula Souza e Keyna Eleison, que estruturam a mostra a partir de três vertentes de pesquisa. Os eixos percorrem questões relacionadas à desaceleração do tempo, às dinâmicas de poder e aos processos de decolonialidade, articulando trabalhos de diferentes linguagens e trajetórias.
A presença da Bienal em Salvador desloca esses debates para uma cidade cuja formação está profundamente ligada às culturas africanas e afro-brasileiras. Nesse contexto, as obras podem ser observadas a partir de experiências históricas e culturais específicas, estabelecendo relações que não necessariamente se apresentam da mesma maneira na exposição paulistana.
A itinerância também reafirma uma característica que acompanha a Bienal de São Paulo em diferentes edições: a possibilidade de fazer da circulação das obras uma extensão do processo curatorial. Ao sair do edifício projetado por Oscar Niemeyer no Parque Ibirapuera, a exposição encontra outros espaços, públicos e referências, fazendo com que seus temas sejam novamente colocados em perspectiva.
Em Salvador, esse encontro acontece no MUNCAB, onde a produção artística contemporânea apresentada pela Bienal passa a compartilhar espaço com uma instituição voltada à memória e à cultura afro-brasileira. A exposição permanece aberta até 29 de novembro.
Artistas presentes
Alberto Pitta, Antonio Társis, Berenice Olmedo, Christopher Cozier, Korakrit Arunanondchai, Leo Asemota, Manauara Clandestina, Márcia Falcão, Marlene Almeida, Ming Smith, Myrlande Constant, Nádia Taquary, Sharon Hayes, Thania Petersen e Théodore Diouf.

Serviço
Itinerância Salvador da 36ª Bienal de São Paulo
Data: 5 de setembro a 29 de novembro de 2026
Horários: terça a domingo, das 10h às 17h — último acesso às 16h30
Local: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB
Endereço: Rua das Vassouras, 25, Salvador – BA
Curadoria: Thiago de Paula Souza e Keyna Eleison
Ingressos: Sympla – Itinerância Salvador da 36ª Bienal de São Paulo
Entrada gratuita: quartas-feiras e domingos.

