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“Barulho”: samba, luto e os desafios da representatividade negra no cinema brasileiro

Curta dirigido por Karen Suzane acompanha um viúvo que reencontra a música após uma perda e circula por festivais no Brasil e no exterior, em um setor ainda marcado pela desigualdade no acesso a recursos e oportunidades.

Um homem que se fecha para o mundo após perder a companheira. Dois vizinhos sambistas que alteram sua rotina. E a música como caminho para atravessar o luto. Essa é a trama de Barulho, curta-metragem dirigido por Karen Suzane que reúne elenco 100% negro em uma história sobre perda, convivência e os vínculos que se constroem em torno do samba.

Desde a estreia, em março, o filme participou de mais de 15 eventos audiovisuais no Brasil e no exterior, entre eles o 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o 3º Festival Internacional de Nuevo Cine Independiente (FINCI), na Argentina, e o 16º Fórum de Cinema de Moçambique. Em novembro, está previsto para integrar a programação do 2º Festival Diaspóricas de Cinema e Música Negra, em Goiás, entre os dias 12 e 14, e do Cineclube Lavradio 11, no Rio de Janeiro, em 25 de novembro.

O protagonista Humberto é interpretado por Carlos Francisco, conhecido pelo papel de pai em Marte Um, longa de Gabriel Martins. Em Barulho, o ator vive um homem que, depois da morte da esposa, se recolhe ao silêncio. A chegada dos novos vizinhos rompe o isolamento e estabelece um confronto entre a dor da perda e a presença do samba em sua vida.

A narrativa se volta a uma experiência frequentemente pouco explorada fora dos estereótipos: a vulnerabilidade de homens negros mais velhos diante do luto. Para Carlos Francisco, interpretar personagens com essa complexidade permite mostrar outras dimensões da experiência negra, incluindo fragilidades, afetos e formas de cuidado. O ator também aponta a distribuição como um dos obstáculos para ampliar o acesso do público ao cinema negro contemporâneo.

Um elenco negro e diferentes experiências de representação

Além de Carlos Francisco, o filme conta com a participação especial de Elisa Lucinda, atriz, poeta e escritora. O elenco reúne ainda Dan Ferreira, Vitor Britto, Anne Belize, Joyce, Mihh Moraes e Veto Martins.

A atriz trans Alicia dos Anjos interpreta Lúcia, filha de Humberto, uma mulher cisgênero. A escolha amplia as possibilidades de representação de atrizes trans, que ainda encontram barreiras para acessar papéis que não estejam diretamente relacionados à sua identidade de gênero.

Em vez de fazer da representatividade um tema isolado da trama, Barulho a incorpora à composição de seu elenco e à construção de seus personagens. O resultado é uma narrativa centrada em relações familiares, vizinhança, envelhecimento e música, com personagens negros que não se limitam a papéis previamente estabelecidos pelo audiovisual.

A direção é de Karen Suzane, com roteiro assinado por JulyFrans, Leonardo Lumas e Caio Pudenzi. A produção é da Maruti Blue Produções, com produção associada de Tina Tigre e distribuição da Tarrafa. O filme tem patrocínio da BB Seguros.

Carlos Francisco com parte do elenco do filme Barulho - Divulgação
Carlos Francisco com parte do elenco do filme Barulho – Divulgação

Mais filmes, mas o acesso aos recursos continua desigual

A trajetória de Barulho se insere em um contexto de crescimento da produção audiovisual negra, acompanhado por desigualdades no financiamento, na contratação e na circulação das obras. A presença de profissionais negros nas telas e nos sets aumentou nas últimas décadas, mas os recursos públicos e as oportunidades de trabalho continuam distribuídos de forma desigual.

Em setembro, a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan) divulgou a Carta do Audiovisual Negro às Candidaturas Antirracistas de 2026. O documento chama a atenção para a necessidade de ampliar a equidade no setor, garantindo não apenas o ingresso de profissionais negros no mercado, mas também condições para sua permanência.

Segundo os dados apresentados pela entidade, 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. Entre as produções com orçamento público superior a R$ 5 milhões, mais de 90% também tiveram direção branca.

A desigualdade aparece nas equipes de trabalho. Na produção cinematográfica, profissionais negros representam 29,3% da força de trabalho, enquanto pessoas brancas correspondem a 69,6%. Na televisão aberta, pessoas pretas e pardas ocupam 32,6% dos postos registrados, diante de 65% de pessoas brancas. A Apan aponta ainda a concentração de profissionais negros em funções técnicas, muitas vezes associadas a remunerações menores, informalidade e menor proteção trabalhista.

Uma história de expansão da produção negra

O crescimento da realização de filmes dirigidos por pessoas negras é documentado pela pesquisa Cinemateca Negra, desenvolvida pelo Instituto NICHO 54. O levantamento identificou 1.104 filmes brasileiros dirigidos por pessoas negras entre 1949 e 2022, incluindo curtas, médias e longas-metragens. Desse total, 83% foram realizados a partir de 2010.

A pesquisa contabilizou seis títulos na década de 1960, 117 nos anos 2000 e 586 na década de 2010, período de maior volume no levantamento. Apesar desse crescimento, dados preliminares divulgados em 2023 indicavam que apenas 10% dos filmes brasileiros lançados entre 2010 e 2020 haviam sido dirigidos por pessoas negras.

É nesse cenário que a circulação de curtas como Barulho ganha dimensão para além da trajetória individual de seus realizadores. A presença em festivais cria oportunidades de encontro com públicos e profissionais, embora não elimine os desafios de distribuição e acesso ao financiamento.

Para Karen Suzane, a possibilidade de dirigir o filme também representa a continuidade de seu trabalho na função. A diretora defende oportunidades para que profissionais negros possam desenvolver suas carreiras e contar histórias que ampliem as perspectivas presentes no cinema brasileiro.

Ao acompanhar um viúvo que reencontra no samba uma forma de se relacionar com o mundo, Barulho coloca no centro da narrativa afetos, fragilidades e experiências de pessoas negras mais velhas. A música conduz a história, enquanto o percurso do filme pelos festivais se soma à busca por maior espaço para a produção audiovisual negra.

Acompanhe o filme: instagram.com/barulhoocurta

Karen Suzane - Foto Lucas Nunes
Karen Suzane – Foto Lucas Nunes