Cadernos Raiz da Questão: memória negra, ancestralidade e cultura brasileira em três publicações
Da história do samba paulistano à tradição religiosa afro-brasileira, passando pelo legado intelectual de Mãe Stella de Oxóssi, a série editorial da Revista Raiz reúne pesquisas, testemunhos e registros que valorizam patrimônios culturais fundamentais para compreender o Brasil.
Preservar a memória cultural brasileira exige mais do que registrar acontecimentos: é preciso reconhecer os protagonistas das histórias, valorizar os territórios onde elas se desenvolvem e dar espaço aos conhecimentos transmitidos entre gerações. Essa é a proposta dos Cadernos Raiz da Questão, série de publicações da Revista Raiz dedicada à reflexão sobre cultura, identidade, patrimônio e sociedade.
Três títulos da coleção evidenciam a amplitude desse trabalho editorial. Mãe Stella (1925–2025): Uma homenagem aos 100 anos, Ilê Obá Ogunté – Seita africana Obá Omi (1875–2025), 150 anos do Nagô em Recife e Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade abordam diferentes experiências da cultura negra brasileira, aproximando biografias, tradições religiosas, manifestações populares e histórias de territórios urbanos.
Embora partam de temas distintos, as publicações compartilham uma perspectiva: compreender a cultura como conhecimento vivo, construído por pessoas e comunidades, e reconhecer sua importância para a formação da sociedade brasileira.
Os Bambas da Barra Funda: o samba como memória e direito à cidade
O terceiro Caderno Raiz da Questão, Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade, volta-se para um dos territórios fundamentais da história do samba paulistano. A publicação acompanha o projeto Cartografias de Bamba, desenvolvido pela Iniciativa Negra, que reúne pesquisa histórica, depoimentos, fotografias, documentos e registros audiovisuais para mapear a presença negra e suas manifestações culturais na Barra Funda, em São Paulo.
O trabalho recupera lugares, personagens e práticas que participaram da construção dessa história. Entre as referências estão o Grupo Carnavalesco Barra Funda, criado por Dionísio Barbosa em 1914, o Largo da Banana e as rodas de samba associadas à antiga Rua João de Barros, posteriormente denominada Rua do Samba.
Mais do que reconstituir episódios do passado, a publicação discute quem registra a história das cidades e quais experiências acabam deixadas de fora das narrativas oficiais. Ao dar espaço às lembranças de sambistas, moradores, pesquisadores e outros protagonistas, a cartografia reconhece a memória comunitária como fonte de conhecimento histórico.
O território, nessa abordagem, não é apenas o cenário onde o samba aconteceu. É parte de sua formação: reúne relações de trabalho, convivência, lazer, organização comunitária e criação artística. A permanência dessas referências também coloca em pauta o direito à cidade e os desafios enfrentados pelos espaços culturais diante das transformações urbanas.
O Caderno amplia, assim, a compreensão do samba para além da música e do carnaval. Mostra como a cultura negra participa da construção da identidade paulistana e como sua documentação pode contribuir para a preservação de histórias frequentemente pouco representadas nos registros convencionais.

Sítio de Pai Adão: 150 anos de tradição Nagô no Recife
O segundo volume da série, Ilê Obá Ogunté – Seita africana Obá Omi (1875–2025), 150 anos do Nagô em Recife, é dedicado ao Sítio de Pai Adão, terreiro localizado na zona norte do Recife e reconhecido como referência histórica e religiosa da tradição Nagô em Pernambuco.
A publicação celebra os 150 anos atribuídos à fundação do terreiro, estimada em 1875, e apresenta aspectos de sua trajetória, organização e estrutura sagrada. O texto é assinado pelo escritor e antropólogo Raul Lody, que conviveu com o universo cultural do Sítio, e as fotografias são de Jorge Sabino.
O conjunto arquitetônico e religioso do Ilê Obá Ogunté expressa uma tradição que articula espaços de culto, convivência e vida comunitária. Barracão de festas, cozinha, salas, moradias, capela e peji integram uma organização que permite compreender a dimensão social e espiritual do terreiro.
A publicação também aborda a relação entre natureza e religiosidade, destacando a presença simbólica das plantas e das árvores sagradas nos cultos aos orixás. Esses elementos ajudam a revelar um universo em que arquitetura, território, memória e práticas religiosas se relacionam de maneira profunda.
O Sítio de Pai Adão foi o segundo terreiro do país tombado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1985. Sua trajetória evidencia a importância dos terreiros na preservação de tradições africanas no Brasil e na continuidade de conhecimentos religiosos, culturais e comunitários.
Ao documentar essa história, o Caderno contribui para o reconhecimento de um patrimônio que não se limita às edificações: sua vitalidade está também nas práticas, nos ritos, nos saberes e nas pessoas que mantêm essa tradição em atividade.

Mãe Stella de Oxóssi: pensamento, espiritualidade e legado intelectual
A primeira edição de 2025 dos Cadernos Raiz da Questão homenageia o centenário de nascimento de Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida como Mãe Stella de Oxóssi ou Odé Kayodê (1925–2018). Quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, ela teve papel importante na vida religiosa e cultural brasileira, além de construir uma trajetória marcada pelo diálogo entre tradição, conhecimento e produção intelectual.
A publicação Mãe Stella (1925–2025): Uma homenagem aos 100 anos, com o texto Kayodê, aquele que chegou com alegria, é assinada por Raul Lody, que conviveu com Mãe Stella e manteve com ela uma relação de amizade e troca de escritos.
A homenagem recupera a dimensão pessoal dessa convivência e reconhece a contribuição de uma liderança religiosa que também atuou no campo da escrita e da reflexão sobre a cultura. Formada pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, Mãe Stella exerceu a profissão de enfermeira durante 30 anos. Mais tarde, sua atuação intelectual recebeu reconhecimento acadêmico e institucional, incluindo o título de doutora honoris causa pela Universidade do Estado da Bahia e sua eleição, em 2013, para a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia.
Sua trajetória demonstra que os terreiros são também espaços de produção e transmissão de conhecimento. A experiência religiosa, a oralidade, a escrita e a reflexão sobre a cultura integram uma mesma rede de saberes, capaz de dialogar com a sociedade sem perder seus vínculos com a ancestralidade.
Ao reunir lembranças e registros dessa convivência, o Caderno não se limita a celebrar uma data. Procura preservar aspectos de uma trajetória que permanece relevante para pensar a presença das tradições afro-brasileiras na cultura, na educação e na vida pública do país.

Publicações para manter a memória em circulação
Os três Cadernos Raiz da Questão mostram como diferentes caminhos podem contribuir para a valorização da cultura brasileira. A cartografia do samba recupera a memória negra de um bairro paulistano; a documentação do Sítio de Pai Adão registra a continuidade de uma tradição religiosa centenária; e a homenagem a Mãe Stella preserva a trajetória de uma liderança cuja atuação atravessou a religião, a escrita e o pensamento cultural.
Em comum, as publicações reconhecem que a memória não pertence apenas ao passado. Ela permanece nas práticas culturais, nos territórios, nas comunidades e nos conhecimentos que continuam sendo transmitidos e recriados.
Ao transformar pesquisas, experiências e registros em publicações acessíveis, a Revista Raiz amplia a circulação dessas histórias e contribui para que referências fundamentais da cultura negra brasileira sejam conhecidas para além de seus contextos de origem.
Os Cadernos também reforçam uma dimensão importante da preservação cultural: documentar é reconhecer. É dar visibilidade a personagens, tradições e lugares que participam da formação do país e que precisam estar presentes nas narrativas sobre sua história.
Conheça os Cadernos Raiz da Questão
- Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade
Publicação dedicada ao projeto Cartografias de Bamba e à história do samba paulistano, com foco na memória negra e nas relações entre cultura e território.
Leia e acesse a publicação: Caderno Raiz da Questão nº 3 – Os Bambas da Barra Funda
- Ilê Obá Ogunté – Seita africana Obá Omi (1875–2025), 150 anos do Nagô em Recife
Texto de Raul Lody, com fotografias de Jorge Sabino, sobre a história, a estrutura religiosa e a importância cultural do Sítio de Pai Adão.
Leia e acesse a publicação: Sítio de Pai Adão, o Ilê Obá Ogunté completa 150 anos em 2025
Sítio de Pai Adão, o Ilê Obá Ogunté completa 150 anos em 2025 — Revista RAIZ – cultura brasileira
- Mãe Stella (1925–2025) – Uma homenagem aos 100 anos
Publicação de Raul Lody que celebra a trajetória de Mãe Stella de Oxóssi, sua contribuição à cultura brasileira e a memória de uma convivência marcada pela amizade e pela troca intelectual.
Leia e acesse a publicação: 100 anos de Mãe Stella em publicação exclusiva
100 anos de Mãe Stella em publicação exclusiva — Revista RAIZ – cultura brasileira

