Livro sobre Beatriz Nascimento ganha edição digital gratuita
Depois de quase duas décadas fora de catálogo, o livro Eu Sou Atlântica: lugares e rotas de Beatriz Nascimento, do geógrafo e pesquisador Alex Ratts, volta a circular em edição digital gratuita, disponibilizada pela Fundação Rosa Luxemburgo.
Publicada originalmente em 2007, a obra tornou-se uma das principais referências para compreender a trajetória intelectual, política e poética de Beatriz Nascimento (1942–1995), pensadora cuja produção permanece central nos debates sobre quilombos, diáspora africana, território, memória, racismo e feminismo negro no Brasil.
Com prefácio da filósofa e ativista Sueli Carneiro, o livro reconstrói os caminhos percorridos por Beatriz Nascimento a partir de sua atuação como historiadora, pesquisadora, roteirista, poeta e militante do movimento negro. Em vez de uma biografia convencional, Alex Ratts propõe uma leitura que acompanha os deslocamentos geográficos, políticos e intelectuais da autora, evidenciando como sua reflexão articulou história, cultura e identidade negra em diferentes escalas.
Nascida em Aracaju e radicada no Rio de Janeiro desde a infância, Beatriz Nascimento desenvolveu uma produção que ampliou o entendimento sobre os quilombos, interpretando-os não apenas como espaços históricos de resistência à escravidão, mas como territórios de continuidade cultural e de construção de novas formas de existência coletiva. Sua leitura influenciou gerações de pesquisadores e permanece presente em estudos sobre territorialidade, memória afro-brasileira e diáspora.

Ao longo da obra, Ratts aproxima o percurso intelectual de Beatriz de sua experiência como mulher negra, nordestina e pesquisadora em um ambiente acadêmico pouco permeável às vozes negras nas décadas de 1970 e 1980. A narrativa também evidencia sua participação nos debates do movimento negro brasileiro e sua interlocução com intelectuais e artistas comprometidos com a revisão crítica da história do país.
O título do livro remete a uma das imagens mais recorrentes no pensamento da autora: o Atlântico como espaço de circulação de culturas, saberes e experiências da diáspora africana. Essa perspectiva atravessa sua produção ao propor uma compreensão das identidades negras para além das fronteiras nacionais, estabelecendo conexões entre África, Américas e Caribe.
Na introdução, Alex Ratts explicita a dimensão pessoal e política da pesquisa ao dialogar com a tradição inaugurada por Abdias Nascimento, recusando a ideia de neutralidade absoluta na investigação acadêmica. Em sintonia com essa perspectiva, o autor assume seu envolvimento com o universo que estuda, construindo uma narrativa que combina pesquisa documental, memória e reflexão crítica.
A nova edição digital amplia o acesso a um trabalho que permaneceu esgotado por 18 anos e contribui para recolocar em circulação uma produção fundamental para os estudos sobre relações raciais, cultura afro-brasileira e pensamento social. Em um momento de crescente interesse pelas contribuições de intelectuais negros à história das ideias no Brasil, Eu Sou Atlântica oferece uma oportunidade para novas leituras da obra de Beatriz Nascimento e de sua influência sobre diferentes campos do conhecimento.
A edição digital pode ser baixada gratuitamente no site da Fundação Rosa Luxemburgo.

