Festivais indígenas reafirmam línguas, rituais e memória coletiva no Acre
Dois dos principais encontros culturais dos povos indígenas do Acre mobilizam comunidades, visitantes e pesquisadores em torno da preservação de saberes tradicionais e da valorização das identidades originárias.
Enquanto o povo Shanenawa realiza o Festival do Matxu, entre 31 de julho e 2 de agosto, na Aldeia Morada Nova, em Feijó, o povo Puyanawa promove a 8ª edição do Festival Atsa Puyanawa, na Terra Indígena Barão Ipiranga, em Mâncio Lima.
Mais do que eventos festivos, ambos os encontros constituem espaços de transmissão de conhecimentos, fortalecimento das línguas indígenas, realização de rituais, celebração da memória coletiva e afirmação dos modos de vida de seus povos.
Realizado desde 2008, o Festival do Matxu é considerado a principal celebração cultural do povo Shanenawa. A programação reúne rituais tradicionais, cantos, danças, jogos e atividades voltadas ao encontro entre diferentes gerações, fortalecendo a continuidade de práticas culturais e espirituais preservadas pela comunidade.
Já o Festival Atsa Puyanawa, criado em 2016, tornou-se um marco do processo de revitalização cultural vivido pelo povo Puyanawa nas últimas décadas. O nome Atsa, que significa macaxeira, remete a um alimento central na cultura local e simboliza continuidade, partilha e permanência.
A edição de 2026 presta homenagem a Mário Mãpa Puyanawa, primeiro cacique da Terra Indígena Puyanawa e uma das principais lideranças indígenas do Acre, falecido em 2020. Sua atuação foi decisiva na luta pela demarcação do território e na reorganização cultural da comunidade.
Durante a abertura, o atual cacique Joel Puyanawa destacou o festival como parte do processo de reconstrução da identidade do povo após um longo período de interrupção de práticas culturais.
“Hoje, o festival representa a retomada e o fortalecimento da nossa cultura. Conseguimos revitalizar aquilo que parecia perdido“, afirmou.
A trajetória recente dos Puyanawa está diretamente ligada à conquista de seu território tradicional. Em 2000, a demarcação da Terra Indígena consolidou um processo iniciado décadas antes e criou condições para que a comunidade retomasse práticas culturais, fortalecesse sua organização social e ampliasse ações voltadas às novas gerações. Naquele mesmo ano foi realizada uma grande celebração comunitária, considerada um marco na recuperação de rituais, cantos e conhecimentos tradicionais.
Desde então, o festival passou a ocupar lugar importante nesse processo, reunindo apresentações culturais, práticas tradicionais, culinária, pinturas corporais e atividades que aproximam jovens e anciãos em torno da transmissão de saberes.
Além de seu papel cultural, o encontro também contribui para ampliar a visibilidade das comunidades indígenas acreanas e fortalecer iniciativas de turismo de base comunitária desenvolvidas no território, criando oportunidades de geração de renda sem dissociá-las da preservação cultural.
Ao reunir moradores das aldeias, visitantes e representantes de diferentes instituições, os festivais evidenciam como celebrações indígenas contemporâneas podem funcionar simultaneamente como espaços de memória, educação, fortalecimento comunitário e afirmação dos direitos culturais dos povos originários.
PROGRAMAÇÃO COMPLETA
04 de agosto
18h — Abertura
18h30 — Roda de Conversa “Mulheres Indígenas em Cena: Cantos, Territórios e Resistências”, com Cintia Guajajara, Kaê Guajajara e Djuena Tikuna. Mediação: Magda Pucci
19h30 — Documentários “Histórias e Cantos Guajajara Aldeia Maçaranduba — Terra Indígena Caru — Alto Alegre do Pindaré (MA)” e “Histórias e Cantos Indígenas Guajajara — Aldeia Lagoa Quieta — Terra Indígena Araribóia — Amarante (MA)”
20h30 — Show de Abertura: Kaê Guajajara (MA)
05 de agosto
16h — Oficina “Cantos da Floresta: Musicalidades Indígenas na Educação”, com Magda Pucci
19h30 — Documentário “Awa tea jãnaha – O canto dos Awa Guajá”
20h — Bate-papo Conversa sobre o filme com Djuena Tikuna, Diego Janatã, Vinicius Berger, Flavia Berto e cantores do Coletivo Japua
20h30 — Apresentação Musical: Coletivo Japua – Povo Awa Guajá (MA)
06 de agosto
17h30 — Roda de Conversa “Ára Jegwaka – Enfeites do Tempo”, com Arami Argüello, Jaciara Marschner, Rossandra Cabreira e Kellen Vilharva Xamiri Hu’y Rendy
18h30 — Visita Guiada: Exposição-instalação “Graciela Ñe’ē Jary — A Protetora das Palavras”
19h — Documentário “Graciela — um enfeite do tempo”
19h30 — Documentário “Mbaraká – A palavra que age”
20h — Apresentação Musical: Tainara Takua (SC)
07 de agosto
16h — Roda de Conversa “Mulheres do Xingu: Cultura, Território e Vida”, com Coletivo Tecedoras do Território Xingu
17h — Demonstração: Pinturas Corporais do Xingu
18h30 — Documentário “As Hiper Mulheres”
20h — Ritual Yamurikumã: Coletivo Tecedoras do Território Xingu, com representantes dos povos Yawalapiti, Kuikuro, Mehinako, Kalapalo e a participação do cacique Takumã Kalapalo

Serviço
Festival do Matxu 2026
Povo: Shanenawa
Data: 31 de julho a 2 de agosto de 2026
Local: Aldeia Morada Nova – Terra Indígena Katukina/Kaxinawá – Feijó (AC)
8º Festival Atsa Puyanawa
Povo: Puyanawa
Local: Terra Indígena Puyanawa Barão Ipiranga – Mâncio Lima (AC)
Assim como outros encontros promovidos por povos indígenas em diferentes regiões do país, os dois festivais reafirmam que a preservação do patrimônio cultural imaterial depende da continuidade das práticas comunitárias, da transmissão intergeracional dos conhecimentos e do reconhecimento da autonomia dos próprios povos na condução de suas tradições.

