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Museu do Pontal revisita seis décadas da obra de Véio

Poucos artistas conseguiram construir um universo tão singular a partir da observação cotidiana do sertão quanto o escultor sergipano Cícero Alves dos Santos, o Véio.

Com figuras humanas, animais e seres híbridos esculpidos em madeira, sua produção atravessa mais de seis décadas e ocupa um lugar próprio na arte brasileira, entre a tradição da escultura popular e uma criação profundamente autoral. Essa trajetória ganha agora sua maior retrospectiva na exposição Véio – A Escuta do Sertão, em cartaz no Museu do Pontal, no Rio de Janeiro.

A mostra inaugura, em 29 de agosto, as comemorações pelos 50 anos do Museu do Pontal e reúne mais de 300 esculturas, resultado de uma extensa pesquisa conduzida pelos curadores Angela Mascelani e Lucas Van de Beuque. Para a realização da exposição, foram identificadas cerca de 650 obras distribuídas por mais de cinquenta coleções públicas e particulares, compondo um amplo mapeamento da produção do artista.

Mais do que uma retrospectiva cronológica, a exposição propõe uma leitura sobre a maneira como Véio construiu uma linguagem própria a partir das experiências vividas no interior de Sergipe. Suas esculturas revelam personagens do cotidiano rural, animais do sertão, figuras fantásticas e narrativas que transitam entre a memória, a imaginação e a observação da natureza, sem recorrer ao folclore como estereótipo ou ilustração.

O título da mostra sintetiza esse percurso. Em A Escuta do Sertão, o sertão aparece menos como cenário geográfico do que como um campo de experiências, saberes e relações que atravessam a obra do escultor. A produção de Véio nasce da convivência com a paisagem, com a madeira e com os modos de vida do interior nordestino, transformando esses elementos em esculturas que recusam classificações simplificadoras entre arte popular e arte contemporânea.

A retrospectiva também revisita a história do próprio Museu do Pontal. Ainda na década de 1970, Jacques Van de Beuque (1922–2000), fundador da coleção que deu origem à instituição, reconheceu a importância da obra de Véio e incorporou diversas esculturas ao acervo. Desde então, o artista passou a integrar uma narrativa que contribuiu para ampliar o reconhecimento da produção de mestres populares na história da arte brasileira.

Ao longo dos anos, o Museu do Pontal consolidou-se como uma das principais instituições dedicadas ao estudo, preservação e difusão da arte produzida por artistas das culturas populares. A escolha de Véio para abrir a programação do cinquentenário reforça esse compromisso ao destacar um criador cuja obra dialoga simultaneamente com a tradição escultórica brasileira e com questões contemporâneas relacionadas à memória, ao território e à criação artística.

A reunião de centenas de esculturas permite acompanhar diferentes momentos da trajetória do artista, evidenciando a permanência de determinados temas e, ao mesmo tempo, a constante renovação de seu repertório formal. Em cada peça, a madeira preserva marcas de um processo criativo guiado pela observação, pela experimentação e por uma imaginação que transforma o cotidiano em narrativa visual.

Mais do que celebrar um percurso individual merecidamente reconhecido, Véio – A Escuta do Sertão convida o público a refletir sobre o lugar ocupado pelos artistas populares na produção cultural e estética brasileira.

Serviço

Exposição: Véio – A Escuta do Sertão
Local: Museu do Pontal – Rio de Janeiro (RJ)
Abertura: 29 de agosto de 2026, às 15h
Curadoria: Angela Mascelani e Lucas Van de Beuque.

Artista Veio – Sergipe