Saiu o Caderno Raiz da Questão nº 3 – OS BAMBAS DA BARRA FUNDA – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade
“Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade” apresenta o projeto Cartografias de Bamba e recupera aspectos da formação do samba paulistano a partir de um dos territórios fundamentais de sua história.
A Revista Raiz lança o terceiro número do Caderno Raiz da Questão, publicação dedicada ao projeto Cartografias de Bamba, desenvolvido pela Iniciativa Negra, e à história da presença negra e do samba na Barra Funda, região da cidade de São Paulo marcada por diferentes processos de ocupação, migração, trabalho, sociabilidade e produção cultural.
Com o título Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade, o Caderno parte de uma questão central: como registrar e preservar memórias que foram construídas pelas próprias comunidades, mas que nem sempre encontram espaço nos relatos oficiais sobre a formação da cidade?
A publicação acompanha o percurso das Cartografias de Bamba, iniciativa que utiliza pesquisa, documentação e escuta dos moradores e protagonistas do samba para construir um registro sobre o território. Depoimentos, fotografias, documentos, registros audiovisuais e ações educativas são articulados para identificar personagens, trajetórias, espaços de convivência e práticas culturais relacionados à presença negra na Barra Funda.
Mais do que reunir nomes e manifestações culturais, a proposta procura observar as relações entre samba, território, memória negra e direito à cidade. O território aparece não apenas como cenário onde essas histórias aconteceram, mas como parte da própria formação das práticas culturais e das redes de sociabilidade que deram origem e continuidade ao samba paulistano.
É nesse ponto que a cartografia ganha uma dimensão de pesquisa histórica. Ao ouvir sambistas, compositores, pesquisadores, mestres, moradores e outros personagens ligados ao bairro, o projeto trabalha com memórias produzidas por quem participou diretamente desses processos. São relatos que permitem identificar lugares, acontecimentos e relações que muitas vezes permanecem fora dos registros tradicionais da história urbana.

A Barra Funda e a formação do samba paulistano
O Caderno também recupera aspectos da formação histórica da Barra Funda e de sua relação com o desenvolvimento do samba em São Paulo.
No início do século XX, a região recebeu trabalhadores e populações negras que participaram de diferentes atividades econômicas e formas de organização comunitária. Entre as manifestações culturais que se desenvolveram nesse contexto estava o chamado samba rural paulista, associado a práticas musicais e festivas trazidas do interior do estado e posteriormente reelaboradas no ambiente urbano.
Em 1914, Dionísio Barbosa criou o Grupo Carnavalesco Barra Funda, considerado um dos primeiros cordões carnavalescos da cidade. A trajetória do grupo está ligada posteriormente à formação da escola de samba Camisa Verde e Branco, uma das agremiações tradicionais do carnaval paulistano.
Outro espaço fundamental dessa história é o Largo da Banana, associado à circulação de trabalhadores, sambistas e estivadores e frequentemente identificado como um dos lugares de referência para a formação do samba na cidade.
A antiga Rua João de Barros, por sua vez, esteve ligada às rodas de samba organizadas por Tuba a partir dos anos 1980. A transformação do nome da via em Rua do Samba recoloca no espaço urbano uma referência diretamente associada à memória cultural da região.
Esses lugares não são apresentados apenas como pontos de interesse histórico. A cartografia procura compreender como determinados espaços foram utilizados, ocupados e ressignificados por diferentes gerações, e como essas experiências permanecem relacionadas à produção cultural da Barra Funda.

Cartografias de Bamba
O projeto Cartografias de Bamba, realizado pela Iniciativa Negra, utiliza a cartografia como instrumento de pesquisa e documentação de territórios do samba paulistano. A metodologia combina levantamento histórico, entrevistas, registros audiovisuais, fotografias e atividades de formação.
A escolha dos protagonistas é parte importante desse processo. Em vez de construir uma narrativa exclusivamente a partir de documentos institucionais, o projeto incorpora as vozes daqueles que participaram da construção cotidiana dessas manifestações.
A pesquisa permite localizar personagens, coletivos, espaços de encontro, rodas de samba, agremiações e outras referências que integram a memória social do território. O resultado é um inventário que pode ser utilizado tanto para a preservação da memória quanto para novas pesquisas sobre cultura, cidade e relações raciais.
O Caderno Raiz da Questão nº 3 procura acompanhar esse processo e ampliar a discussão. A publicação não se limita a apresentar os resultados da cartografia: busca contextualizar as condições históricas que produziram essas memórias e discutir os desafios envolvidos em sua preservação.
Nesse sentido, a pergunta sobre quem conta a história da cidade também está presente. A documentação da memória negra depende não apenas da preservação de objetos, fotografias e documentos, mas da escuta de pessoas e comunidades que mantêm esses conhecimentos em circulação.
Para saber mais e baixar a sua cartografia acesse:
https://iniciativanegra.org.br/cartografias-de-bambas/
A Iniciativa Negra
Fundada em 2015 por Nathália Oliveira e Dudu Ribeiro, a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas é uma organização da sociedade civil que atua na construção de uma agenda de justiça racial e econômica, com ações de advocacy em direitos humanos e proposições relacionadas à política de drogas.
A organização desenvolveu sua atuação a partir da compreensão das relações entre racismo, política de drogas, desigualdade e violência. Ao longo desse percurso, incorporou também a dimensão cultural como campo de disputa de memória, representação e reconhecimento da população negra.
É nesse contexto que surgem iniciativas como Cartografias de Bamba e Samburbano, que deslocam a discussão sobre o samba para o campo da cidade, da memória e das políticas culturais.
A documentação de territórios negros permite observar como manifestações culturais estão relacionadas a processos mais amplos de ocupação urbana. No caso do samba, essa relação envolve espaços de trabalho, moradia, lazer, religiosidade, carnaval, música e sociabilidade que foram construídos e mantidos por sucessivas gerações.

A memória como território
Ao tratar da Barra Funda, o Caderno recupera uma parte da história do samba paulistano, mas também coloca em discussão uma questão mais ampla: o que acontece quando práticas culturais fundamentais para a formação de uma cidade não são acompanhadas por políticas permanentes de documentação e preservação?
A resposta proposta pelas Cartografias de Bamba passa pela pesquisa realizada nos próprios territórios e pela participação de seus protagonistas. A memória deixa de ser apenas um registro do passado e passa a ser compreendida como conhecimento produzido no presente.
Essa perspectiva também permite observar as transformações urbanas que atingem os territórios onde essas manifestações se desenvolveram. Mudanças no uso do solo, deslocamentos populacionais, alterações na paisagem e processos de valorização imobiliária podem modificar os espaços de sociabilidade e afetar a continuidade de práticas culturais.
Na Barra Funda, a permanência de referências como a Rua do Samba, o Largo da Banana, as escolas de samba, as rodas e os personagens ligados ao território permite acompanhar diferentes momentos dessa história.
O Caderno Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade reúne parte desse percurso e apresenta a cartografia como uma ferramenta contemporânea de pesquisa, documentação e preservação. Ao lado do registro histórico, a publicação procura discutir quem produz, transmite e preserva as memórias que compõem a cidade.

Nathália Oliveira na TV Raiz
A edição acompanha ainda um programa audiovisual produzido pela TV Raiz, com entrevista exclusiva de Nathália Oliveira, cofundadora e diretora executiva da Iniciativa Negra.
Na conversa, Nathália aborda a atuação da organização, a relação entre cultura negra, memória e território e os projetos desenvolvidos a partir do samba paulistano, incluindo as Cartografias de Bamba e o Samburbano.
O programa está disponível no canal da TV Raiz no YouTube.
Caderno Raiz da Questão
Criado pela Revista Raiz, o Caderno Raiz da Questão é uma série editorial dedicada a temas relacionados à cultura brasileira, memória, patrimônio, cidade e participação social.
O terceiro número, Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade, concentra-se na história do samba paulistano e na experiência das Cartografias de Bamba, articulando pesquisa documental, memória oral e reflexão sobre o território.
A publicação também integra a documentação das ações da Revista Raiz relacionadas à cultura popular e às iniciativas contemporâneas de preservação e ativação da memória cultural brasileira.


SERVIÇO
Caderno Raiz da Questão nº 3
Os Bambas da Barra Funda – Samba, Memória Negra e Direito à Cidade
Publicação: Revista Raiz
Páginas: 84
ISBN-13: 979-8191167114
Dimensões: 13,97 x 0,51 x 21,59 cm
Peso: 163 g
Edição digital: gratuita
Para baixar a publicação:
Caderno Os Bambas da Barra Funda – PDF completo
Edição impressa:
Comprar a edição impressa na Amazon
Entrevista com Nathália Oliveira – TV Raiz:
Assistir à entrevista no YouTube
Revista Raiz: revistaraiz.com.br

