16º Estéticas das Periferias coloca as mulheres no centro da cena
Com o tema “Mulheridades em movimento: das quebradas ao centro”, festival reúne mais de 50 coletivos culturais em uma programação gratuita que atravessa diferentes territórios de São Paulo entre 22 e 30 de agosto.
Durante nove dias, as periferias de São Paulo se transformam em territórios de criação, memória, encontro e afirmação cultural. Entre 22 e 30 de agosto, acontece a 16ª edição do Encontro Estéticas das Periferias, realizado pela Ação Educativa, com uma programação gratuita construída coletivamente por mais de 50 coletivos culturais.
Neste ano, o festival coloca no centro da cena as trajetórias e criações de mulheres que movimentam seus territórios diariamente. Sob o tema “Mulheridades em movimento: das quebradas ao centro”, a programação reúne espetáculos, saraus, slams, shows, performances, exposições, oficinas, rodas de conversa e outras atividades que evidenciam a força artística, política e comunitária das periferias paulistanas.
Mais do que uma programação cultural descentralizada, o Estéticas das Periferias propõe uma mudança de perspectiva: em vez de levar a cultura para territórios considerados periféricos, reconhece esses lugares como centros produtores de arte, pensamento, conhecimento e inovação.
A programação ocupa equipamentos culturais, escolas, praças, espaços independentes e comunidades em diferentes regiões da cidade, aproximando públicos e artistas e fortalecendo redes que há anos constroem a cultura periférica.
Mulheres no centro da criação
Um dos grandes destaques da edição é o espetáculo de abertura “Tessituras – Ventos e Vozes de Mulher”, dirigido por Dani Nega, no Sesc 14 Bis. A apresentação reúne nomes como Taís Araújo, Leci Brandão, Fabiana Cozza, Brisa Flow, Linn da Quebrada, Naruna Costa e Luz Ribeiro, entre outras artistas.
Criado especialmente para o festival, o espetáculo combina música, teatro, poesia, dança, performance e cultura hip hop. Uma banda formada exclusivamente por musicistas mulheres conduz encontros entre diferentes gerações, linguagens e trajetórias, transformando o palco em espaço de celebração das múltiplas experiências femininas.
A programação também destaca a produção de mulheres por meio da exposição “Peito do Céu”, da fotógrafa Pétala Lopes, sua primeira mostra individual. Em cartaz no Espaço Cultural Periferia no Centro, da Ação Educativa, a exposição parte de uma pesquisa íntima sobre ancestralidade, memória e os vínculos construídos entre mulheres de diferentes gerações de uma mesma família.
Por meio de fotografias, objetos e patuás, Pétala Lopes constrói uma narrativa sobre afeto, pertencimento e memória, recuperando saberes e relações que atravessam gerações.

A potência da poesia falada
Outro ponto alto é o tradicional Torneio de Slam, que acontece no Instituto Moreira Salles (IMS), nos dias 29 e 30 de agosto. Com curadoria de Emerson Alcalde, do Slam da Guilhermina, o encontro reúne poetas de diferentes regiões do Brasil, colocando em circulação a diversidade da poesia falada produzida nas periferias.
Participam coletivos de São Paulo, Paraná, Rondônia, Goiás, Maranhão e outros estados. Mais do que uma competição, o torneio funciona como espaço de encontro entre diferentes comunidades de slam e evidencia a força do spoken word como linguagem artística, política e social.
As batalhas de poesia transformam experiências pessoais e coletivas em palavra, ritmo e presença, trazendo para o centro da cena narrativas que frequentemente permanecem fora dos circuitos culturais tradicionais.
Arte, memória e resistência
No Museu das Favelas, o festival promove o Encontro de Mulheres: Arte, Memória e Resistência, reunindo atividades dedicadas ao protagonismo feminino e às relações entre cultura, memória e território.
A programação inclui a roda de samba Amigas do Samba, em um encontro que valoriza a música como espaço de transmissão de conhecimentos, fortalecimento de vínculos comunitários e preservação de tradições.
Já a programação “Mulheridades em Movimento – Da Quebrada ao Centro”, realizada na Praça Mascarenhas de Moraes, reúne apresentações musicais, saraus protagonizados por mulheres cis e trans, feira de empreendedorismo feminino, oficina de customização de roupas, atendimento com trancistas, produção de retratos e depoimentos, além de rodas de conversa sobre equidade de gênero e masculinidades.
Organizado pelos coletivos Som na Praça, São Mateus em Movimento, Arteiros Produções e Sarau do Vale, o encontro também terá apresentações de artistas como MC Kety e Patríci Carneiro.
A proposta amplia o conceito de cultura para além do espetáculo: geração de renda, cuidado, formação, convivência e participação comunitária também fazem parte da produção cultural dos territórios.
Hip hop feito por mulheres
A cultura hip hop ganha espaço especial na programação com “Hip Hop Mulher: Graffiti, Lambe-Lambe e Slam Astro”, realizada na Escola Estadual Prof. Astrogildo Arruda.
Durante quatro dias, estudantes e moradores participam de oficinas de lambe-lambe, pintura coletiva de graffiti e da edição comemorativa de oito anos do Slam Astro.
A iniciativa é desenvolvida pelos coletivos Hip Hop Mulher, Arte e Cultura na Kebrada e Dream Team do Guetto e transforma a escola pública em espaço de criação, formação artística e ocupação cultural.
A programação evidencia também a presença das mulheres e dos jovens na construção da cultura hip hop, aproximando poesia, arte urbana e educação.
Um festival construído pelos territórios
Criado em 2011, o Estéticas das Periferias já realizou mais de mil atividades, reuniu mais de oito mil artistas e alcançou mais de 100 mil pessoas ao longo de sua trajetória.
A característica mais marcante do festival permanece a construção coletiva. Em vez de concentrar suas atividades em um único equipamento, a programação se espalha por diferentes regiões de São Paulo, conectando instituições culturais consolidadas, espaços independentes, escolas, praças e iniciativas comunitárias.
Nesta edição, estão envolvidos territórios como Butantã, Cidade Ademar, Grajaú, Jaçanã, Vila Maria, Penha, Ermelino Matarazzo, Sapopemba, São Mateus, São Miguel Paulista, Vila Jacuí e Itaim Paulista.
Essa descentralização não é apenas uma escolha logística. É parte da própria concepção do festival, que reconhece as periferias como lugares de produção cultural e intelectual e como espaços fundamentais para compreender as transformações da cidade.
Em 2026, essa perspectiva ganha uma dimensão ainda mais específica ao destacar mulheres negras, indígenas, periféricas, cis, trans e de diferentes gerações, valorizando suas experiências não apenas a partir das desigualdades e violências que enfrentam, mas também por sua capacidade de criar, organizar comunidades, preservar memórias, produzir conhecimento e imaginar novos futuros.
“O Estéticas das Periferias nasce da escuta dos territórios e é construído coletivamente por quem produz cultura nas periferias da cidade. Nesta edição, escolhemos colocar as mulheridades no centro porque reconhecemos que são essas mulheres que, todos os dias, movimentam redes de solidariedade, preservam memórias, produzem conhecimento e reinventam formas de existir”, afirma Fernanda Nascimento, coordenadora de cultura da Ação Educativa.
O festival, assim, reafirma a cultura como espaço de escuta, encontro e transformação social, aproximando diferentes públicos das histórias e linguagens que nascem nas quebradas e ajudam a redesenhar a própria cidade.

Destaques da programação
Tessituras – Ventos e Vozes de Mulher
26 de agosto, às 19h30
Sesc 14 Bis – Teatro
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista
Espetáculo de abertura dirigido por Dani Nega, com participação de Taís Araújo, Leci Brandão, Fabiana Cozza, Linn da Quebrada, Naruna Costa, Brisa Flow, Luz Ribeiro, DJ Cinara, Izandra e outras artistas convidadas.
Torneio de Slam
29 e 30 de agosto
Instituto Moreira Salles
Avenida Paulista, 2.424 – Bela Vista
Sábado, das 14h às 19h; domingo, das 15h às 18h.
Encontro nacional de poesia falada, com participação de coletivos de diferentes estados e curadoria de Emerson Alcalde.
Peito do Céu
24 de agosto a 24 de novembro
Espaço Cultural Periferia no Centro – Ação Educativa
Rua General Jardim, 660 – Vila Buarque
Primeira exposição individual da fotógrafa Pétala Lopes, dedicada à ancestralidade, memória e às relações entre mulheres de diferentes gerações.
Encontro de Mulheres: Arte, Memória e Resistência
29 de agosto
Museu das Favelas
Largo Pátio do Colégio, 148 – Centro Histórico
Programação com a roda de samba Amigas do Samba e atividades voltadas ao protagonismo feminino.
Mulheridades em Movimento – Da Quebrada ao Centro
30 de agosto, das 14h às 20h
Praça Mascarenhas de Moraes
Apresentações musicais, saraus, feira de empreendedorismo feminino, oficina de upcycling, trancistas, retratos, rodas de conversa, atividades para crianças e shows de MC Kety, Patríci Carneiro e outras artistas.
Hip Hop Mulher: Graffiti, Lambe-Lambe e Slam Astro
25 a 28 de agosto, das 9h às 17h
Escola Estadual Prof. Astrogildo Arruda
Rua Domingos do Sacramento, 275 – Vila Carolina
Oficinas, intervenções urbanas, graffiti, lambe-lambe e a edição comemorativa de oito anos do Slam Astro.
SERVIÇO
16º Encontro Estéticas das Periferias
Tema: Mulheridades em movimento: das quebradas ao centro
Quando: 22 a 30 de agosto de 2026
Onde: diversos espaços culturais e territórios de São Paulo
Entrada: gratuita
Programação completa:
www.esteticasdasperiferias.org.br
acaoeducativa.org.br
Redes sociais:
@acaoeducativa
@esteticasdasperiferias
Realizado pela Ação Educativa, o Estéticas das Periferias conta com patrocínio do Itaú, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e parceria institucional do Sesc-SP e do Instituto Moreira Salles. A edição de 2026 também conta com a parceria do Programa Nacional dos Comitês de Cultura em São Paulo (PNCC) e do Museu das Favelas, além da participação de dezenas de organizações e coletivos culturais.

