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Carnaval como método: quando a avenida entra no museu

Exposição no MAM Rio reúne obras inéditas de seis carnavalescos e trabalhos de Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães e Maria Augusta Rodrigues para discutir os processos de criação das escolas de samba.

O Carnaval carioca deixa a avenida e ocupa o museu. A partir de 19 de setembro, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) apresenta Carnaval como método, exposição que transforma o Salão Monumental e o mezanino da instituição em espaço de experimentação sobre os processos de criação das escolas de samba.

Mais do que apresentar objetos relacionados aos desfiles, a mostra propõe olhar para o Carnaval como uma prática artística complexa, construída coletivamente a partir de materiais, imagens, conhecimentos, técnicas e diferentes linguagens. Nesse percurso, o carnavalesco deixa de ser visto apenas como o responsável pelo desfile e passa a ocupar o lugar de artista, pesquisador e articulador de processos visuais.

A exposição reúne obras inéditas especialmente desenvolvidas para o MAM Rio por seis carnavalescos em atividade — André Rodrigues, Annik Salmon, Antônio Gonzaga, Gabriel Haddad e Leonardo Bora, e Thayssa Menezes —, além de trabalhos históricos de três grandes nomes da história do Carnaval: Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães e Maria Augusta Rodrigues. O percurso é completado por uma seleção de pinturas e outras obras de artistas ligados ao universo do samba, entre eles Heitor dos Prazeres e Nelson Sargento.

A proposta parte de uma questão central: o que acontece quando os modos de criação desenvolvidos para a avenida são deslocados para o espaço do museu?

Na Sapucaí, o desfile acontece em movimento e durante um tempo determinado. A distância entre obra e público, os diferentes pontos de observação e a própria passagem das alegorias fazem parte da experiência. No museu, essas relações se transformam. O visitante pode se aproximar, observar um detalhe, mudar de posição, permanecer diante de uma obra ou percorrer o espaço em seu próprio ritmo.

Essa mudança de contexto não é apenas uma adaptação. Ela integra o próprio processo criativo da exposição.

Trazer os artistas do Carnaval para dentro do museu é, para o MAM Rio, uma forma de reconhecer a potência artística de uma produção que faz parte da história e da cultura do nosso país, mas que ainda ocupa um lugar pouco explorado no campo das artes visuais”, afirma Yole Mendonça, diretora executiva do MAM Rio. Para ela, colocar os carnavalescos no centro da discussão permite aproximar universos que, embora historicamente relacionados, nem sempre encontraram espaço de diálogo dentro das instituições museológicas.

Fotografia de Valtemir Valle_bastidor do barracão do G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis_Enredo Ratos e urubus, larguem minha fantasia (1989) de Joãosinho Trinta
Fotografia de Valtemir Valle_bastidor do barracão do G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis_Enredo Ratos e urubus, larguem minha fantasia (1989) de Joãosinho Trinta

A criação como experiência coletiva

Os processos de produção de um desfile de escola de samba envolvem equipes numerosas e profissionais de diferentes áreas. Figurino, cenografia, escultura, pintura, música, pesquisa histórica, iluminação e engenharia participam de uma mesma construção artística, concebida para alcançar um público amplo e provocar uma experiência coletiva.

É justamente esse modo de fazer que Carnaval como método coloca em evidência.

Os carnavalescos desenvolvem processos de criação extremamente complexos, realizados por equipes com diversas especializações artísticas e técnicas”, explica Raquel Barreto, curadora-chefe do MAM Rio. Segundo ela, ao levar esses processos para o museu, a exposição propõe observar as formas de fazer do Carnaval e sua relação com o público como referências para a produção artística contemporânea.

A própria arquitetura do MAM participa dessa experiência. O Salão Monumental estabelece uma relação de escala com a Sapucaí, permitindo diferentes pontos de observação, tanto no nível do chão quanto a partir do mezanino. A estrutura de concreto, a dimensão vertical do espaço e a possibilidade de circular ao redor das obras foram incorporadas às questões apresentadas aos artistas.

Rosa Magalhães, Imperatriz Leopoldinense, 1994
Rosa Magalhães, Imperatriz Leopoldinense, 1994

Seis olhares sobre o Carnaval

Cada um dos carnavalescos convidados parte de sua própria experiência para criar uma obra especialmente pensada para o museu.

André Rodrigues, em colaboração com a historiadora da arte Juliana Joannou, transforma o processo de construção do figurino em uma experiência aberta à participação do público. Quatro peças inicialmente brancas serão modificadas ao longo da exposição, permitindo acompanhar etapas e procedimentos da criação.

Annik Salmon apresenta uma obra monumental dedicada à presença das mulheres no Carnaval. Um grande corpo ocupa o salão e pode ser observado de diferentes pontos do museu — inclusive por dentro, já que o público poderá entrar na estrutura. Sua trajetória é marcada por pesquisas sobre cultura afro-brasileira e protagonismo feminino.

Antônio Gonzaga também trabalha em grande escala. Sua escultura articula referências afro-brasileiras à espacialidade do Carnaval e estabelece uma relação direta com a arquitetura modernista do MAM. Artista plástico, compositor e carnavalesco, Gonzaga desenvolve uma produção que transita entre diferentes campos da criação.

Thayssa Menezes parte das raízes das escolas de samba e de referências ligadas às matrizes afro-brasileiras. Pesquisadora, carnavalesca e arte-educadora, investiga as relações entre memória, pensamento negro, escolas de samba e patrimônio intelectual. Em seu trabalho, o Carnaval aparece como linguagem estética e também como território de memória e afirmação.

A dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora apresenta quatro trabalhos inspirados nos processos criativos de carnavalescos que marcaram a história dos desfiles. As obras estabelecem relações entre diferentes maneiras de pensar e construir a linguagem visual das escolas de samba, articulando homenagem e investigação.

A escolha dos artistas evidencia ainda a diversidade existente dentro do próprio Carnaval carioca. O grupo reúne experiências no Grupo Especial, na Série Ouro e nos desfiles da Intendente Magalhães, revelando um universo que ultrapassa as grandes escolas e as imagens mais conhecidas da Sapucaí.

Heitor dos Prazeres. Sem título, 1960. óleo sobre tela. Coleção Almeida & Dale
Heitor dos Prazeres. Sem título, 1960. óleo sobre tela. Coleção Almeida & Dale

Três mestres da avenida

A memória do Carnaval ocupa lugar central na exposição por meio de trabalhos de Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães e Maria Augusta Rodrigues, três artistas fundamentais para compreender a transformação estética dos desfiles brasileiros.

A apresentação dedicada a Joãosinho Trinta concentra-se em Ratos e urubus, larguem minha fantasia, desfile realizado pela Beija-Flor de Nilópolis em 1989. Em colaboração com a pesquisadora Debora Moraes, a exposição reúne desenhos de Cláudio Urbano, responsável por traduzir visualmente as ideias do carnavalesco, e fotografias inéditas de Valtemir Valle, feitas no barracão durante a construção dos desfiles.

O conjunto permite acompanhar não apenas o resultado apresentado na avenida, mas também o trabalho desenvolvido nos bastidores. O desfile, lembrado sobretudo pela imagem do Cristo coberto, será apresentado integralmente na exposição.

De Rosa Magalhães, serão exibidos croquis relacionados a cinco desfiles de diferentes momentos de sua carreira, pertencentes ao Núcleo de Memória, Informação e Documentação da Rede de Bibliotecas da UERJ. Os desenhos revelam o pensamento visual da artista e permitem acompanhar diferentes etapas de sua trajetória em diversas escolas.

Já Maria Augusta Rodrigues ganha uma instalação organizada em torno de uma mesa circular, reunindo desenhos, figurinos e fantasias. Concebida em colaboração com o carnavalesco e pesquisador Edu Gonçalves, a instalação recupera aspectos fundamentais de sua produção.

Professora de Teoria da Cor da Escola de Belas Artes da UFRJ, Maria Augusta ficou conhecida por explorar aquilo que chamava de “luxo da cor”, ampliando a paleta dos desfiles para além das cores tradicionais das agremiações. Sua escolha cromática estava subordinada às necessidades de cada enredo. Também se destacou pela leveza e pela liberdade dos temas que levou à avenida, inclusive durante a ditadura militar.

Exposição Carnaval - Foto Fabio Souza
Exposição Carnaval – Foto Fabio Souza

A pintura e o universo do samba

Ao final do percurso, uma seleção de pinturas funciona como um epílogo e amplia a discussão sobre as relações entre criação visual, samba e Carnaval.

Estão presentes trabalhos de artistas profundamente ligados às escolas de samba e à cultura popular, como Antônio Caetano, um dos fundadores da Portela; Gisa Nogueira, integrante da Ala de Compositores da escola; Heitor dos Prazeres; João da Baiana; Mestre Saul; Miguel Moura; Nelson Sargento e Raquel Trindade.

O conjunto revela uma produção visual menos conhecida, mas fundamental para compreender como o samba e o Carnaval também produziram artistas, imagens e formas de representação que ultrapassam os limites da avenida.

Carnaval e museu: uma história que continua

A aproximação proposta pela exposição não é inteiramente inédita. Carnaval como método recupera uma relação que faz parte da própria história do MAM Rio. Nos anos 1970, escolas de samba participaram dos Domingos da Criação, iniciativa concebida pelo crítico e curador Frederico Morais. Depois do incêndio que atingiu o museu em 1978, a Beija-Flor de Nilópolis também esteve entre os grupos mobilizados pela reconstrução da instituição.

Apesar desses encontros, a produção artística ligada ao Carnaval permaneceu durante muito tempo em posição periférica dentro do circuito institucional das artes visuais.

Ao colocar lado a lado carnavalescos, artistas, pesquisadores, obras históricas e novas criações, a exposição questiona justamente essa separação. O que define um artista? Quais práticas têm legitimidade dentro de um museu? Que conhecimentos são reconhecidos como produção artística? E por que os processos criativos das escolas de samba foram tantas vezes vistos como algo à parte da história das artes visuais?

A mostra propõe não apenas levar o Carnaval para dentro do museu, mas rever as fronteiras que tradicionalmente separaram a avenida das instituições de arte.

Nas palavras de Pablo Lafuente, curador do MAM Rio, trata-se de um “gesto de abertura de portas”: uma oportunidade para discutir quais artistas encontram lugar nos museus, nos acervos e nas coleções.

Desenho de Claudio Urbano
Desenho de Claudio Urbano

SERVIÇO

Carnaval como método
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM Rio
Abertura: 19 de setembro de 2026
Encerramento: 21 de fevereiro de 2027
Curadoria: Raquel Barreto, Pablo Lafuente e Phelipe Rezende, com colaboração de Debora Moraes e Edu Gonçalves
Visitação: quartas, quintas, sextas, sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
Domingos: das 10h às 11h, visitação exclusiva para pessoas com deficiência intelectual
Ingressos: entrada gratuita para todos os públicos
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 – Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro – RJ
Telefone: (21) 3883-5600