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Restaurante Leite: desde 1882 tem preservado a boa cozinha luso-pernambucana

Texto dedicado a Armênio Ferreira Diogo
O restaurante Leite é o restaurante mais longevo em funcionamento no Brasil. Instalado no centro da cidade do Recife, próximo ao rio Capibaribe, numa casa em estilo colonial brasileiro; e impõe pela sua arquitetura a afirmação dos valores gastronômicos vividos, preservados e experimentados no cotidiano deste restaurante.
Um restaurante que testemunhou grandes mudanças sociais, econômicas e culturais, da cidade do Recife, e do Brasil, sem nunca perder seu estilo dominante do bem servir, do acolhimento requintado, da boa comida; sendo assim um local de excelência para se viver os rituais da comensalidade.
O restaurante Leite é um destes lugares que dá vontade de ficar, não apenas para comer ou beber uma boa bebida, mas usufruir do ambiente, ao som de um piano ao vivo, que reforça esse clima do bem viver.
restaurante Leite – foto Jorge Sabino
Assim o restaurante Leite foi se fortaleceu na trajetória histórica da cidade do Recife, marcou o seu lugar como excelente ponto de encontro, e é até hoje uma referência do turismo gastronômico, e se distingue por uma cozinha que combina muito bem a ancestralidade portuguesa com a ancestralidade multicultural de Pernambuco, também muito lusitana e por tudo isso muito brasileira.
A minha chegada ao restaurante de Leite se dá no final dos anos de 1970, quando descobri este lugar do bem comer, de um serviço elegante à mesa, sempre guarnecida de longas toalhas brancas o que afirma esse estilo no trato ao comensal. Exatamente assim construí uma relação de respeito e afeto com esse restaurante, e até hoje ainda sendo reconhecido pelos garçons mais antigos, o que só reforça este sentimento do bom acolhimento e dá certeza de viver um excelente almoço.
Entre as minhas muitas experiências gastronômicas no restaurante Leite, quero destacar a minha iniciação a apreciação à lima da Pérsia, fruta da limeira-da-pérsia Citrus limettioides, de terroir asiático, e que é uma deliciosa base para se fazer a nossa tão tradicional e estimada caipirinha, complementada pela cachaça e o açúcar, ou na versão caipirosca, quando a cachaça regional é substituída pela vodca.
E assim, iniciar o ritual do almoço, sem pressa, na apreciação desse ambiente, observar uma verdadeira coreografia realizada pelos movimentos dinâmicos dos garçons, dos copeiros, sob o olhar do maitre, num espetáculo que se integra à mesa. Após esta chegada deliciosa com a lima da Pérsia vamos ao cardápio com muitas, tantas, opções que fazem sonhar e a boca salivar de desejo.
restaurante Leite – foto Jorge Sabino
Filé ao funghi, filé ao catupiry, filé à Chateaubriand, steak au poivre, steak à Diana, filé ao Reino, cordeiro a Vasco da Gama, carne de sol do Sertão, churrasco à moda do chefe, bacalhau a Manoel Leite, peixe à Burle Max, garoupa à Vavá Cardozo, polvo à espanhola, língua ao Madeira, medalhões à Gilberto Freyre, picadinho especial, garoupa ao feijão de coco; e muito mais.
Contudo, antes de começar o almoço é muito bom apreciar uns bolinhos de bacalhau e, antes de comê-los, encharcá-los de azeite português. E detalhar que é conveniente comer o serviço da entrada com torradinhas, brioche, bolinhos de carne, manteiga, um sonho para o paladar.
Bem, depois dessas preparações para afinar o gosto, finalmente vamos para o almoço; se for carne, uma taça de vinho tinto; e se for peixe ou frutos do mar, uma taça de vinho branco; perfeitamente combinados nesta festa de paladares.
E assim, com este sentimento dominante, vive-se o almoço. Então, após, é hora de optar por alguma sobremesa. Destaco que para mim, como frequentador de quase cinco décadas do Leite, é muito fácil, e a minha escolha é uma verdadeira celebração, festeja-se à mesa com uma rabanada, também chamada na região de fatia dourada ou fatia de parida, devidamente encharcada de um bom vinho do Porto tinto, uma culminância perfeita para todo esse processo de sabores e de ritualidades que fazem o bem comer.
E agora é hora do cafezinho, sempre acompanhado de biscoitinhos, os melhores são os tarecos, hum! Terminar o almoço, não, porque agora é a hora da boa bagaceira portuguesa para arrematar sabores e desejar novos.
restaurante Leite – foto Jorge Sabino
E eu não quero ir embora, ficava e fico na alternância de um cafezinho e uma bagaceira, um cafezinho e uma bagaceira. E ainda, nas décadas de 1980 e 1990, era imprescindível fumar um charuto para verdadeiramente concluir todo este ritual à mesa.
Então, ficar de conversa com um garçom ou com um maitre, ou mesmo com o senhor Armênio, dono do Leite, que muitas vezes se sentava à minha mesa, e me fazia companhia, conversávamos muito.
Agora, já é final da tarde, próximo do restaurante fechar, às 17h, e o maitre, muito simpaticamente falava para mim: “O último trem já vai sair”!
Assim, eu entendia que já era hora de me levantar e de sonhar com a minha próxima visita a esse tão glorioso lugar, o Restaurante Leite.
 
RAUL LODY

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