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Museu Casa Darcy Ribeiro transforma antiga residência em espaço de memória

Projetada por Oscar Niemeyer em Maricá, casa onde viveu o antropólogo reúne acervo, exposições, instalações e experiências que aproximam sua obra de diferentes expressões da cultura brasileira.

A casa onde Darcy Ribeiro viveu em Maricá, no litoral do Rio de Janeiro, deixou de ser uma residência particular para se transformar em espaço dedicado à memória, à cultura e ao pensamento do antropólogo. Projetado por Oscar Niemeyer, amigo de Darcy, o imóvel fica diante da Praia de Cordeirinho e foi adquirido pela Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar).

Inaugurado em junho, o Museu Casa Darcy Ribeiro preserva referências da vida do escritor e político, mas não se limita à apresentação de objetos pessoais. Fotografias de povos indígenas, páginas de seu diário, o fardão da Academia Brasileira de Letras e registros de sua trajetória convivem com instalações audiovisuais e referências à produção cultural contemporânea, incluindo funk, hip hop, rap, slam e podcasts.

O projeto de pesquisa e museografia foi desenvolvido pelo artista Gringo Cardia, responsável por organizar os ambientes da casa original e de um edifício anexo. O museu conta com exposições permanentes, visitas guiadas, espaços de convivência, dois cinemas, karaokê, instalações interativas, gravação de podcasts e cursos relacionados à cultura brasileira e à obra de Darcy Ribeiro. Toda a programação é gratuita.

A proposta parte de uma característica central da trajetória do antropólogo: a tentativa de compreender o Brasil a partir de sua formação histórica, de sua diversidade cultural e das experiências dos diferentes povos que construíram o país.

É mais que um acervo dele, mas uma conversa com as ideias que ele tinha”, resumiu Gilberto Silva, 65 anos, arquiteto e morador de Niterói, durante uma visita ao espaço.

Os ambientes do museu

A experiência começa ainda no jardim, onde uma instalação com troncos cria um percurso pela obra de Darcy Ribeiro. A partir dali, os visitantes encontram diferentes ambientes que abordam temas como a formação do povo brasileiro, educação, cultura popular, povos indígenas e as relações do antropólogo com artistas e intelectuais.

Museu Casa Darcy Ribeiro - foto Leonardo Fonseca
Museu Casa Darcy Ribeiro – foto Leonardo Fonseca

Sala Brava Gente Brasileira

A sala aborda a formação da sociedade brasileira a partir das diferentes matrizes culturais que participaram desse processo. Darcy Ribeiro preferia falar em “civilização brasileira”, entendendo que a combinação dessas influências produziu uma formação histórica específica.

Para representar essa diversidade, Gringo Cardia criou uma parede formada por nichos. Cada espaço apresenta aspectos dessa formação, passando pela herança europeia e pelas contribuições africanas trazidas pelas populações escravizadas, entre outras referências.

Corredor com desenhos de Dimitri Ismailovitch

Retratos realizados pelo artista Dimitri Ismailovitch apresentam rostos de brasileiros da primeira metade do século XX. Os desenhos ajudam a visualizar a diversidade de características físicas que compõem a sociedade brasileira.

Ismailovitch teve atuação relevante na vida cultural carioca a partir dos anos 1930, e seus trabalhos integram o percurso dedicado à diversidade da população brasileira.

Sala Revolução pela Educação

A educação ocupou um lugar permanente na trajetória de Darcy Ribeiro. Antropólogo, escritor e político, ele participou da criação da Universidade de Brasília (UnB) e dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), concebidos como espaços de educação integral.

A sala apresenta uma maquete de um CIEP e esculturas do artista João Alves representando crianças com o primeiro modelo de uniforme utilizado pelos centros educacionais.

A relação entre Darcy Ribeiro e Niemeyer aparece novamente nas referências ao arquiteto, responsável pelos projetos dos CIEPs e também pelo Sambódromo do Rio de Janeiro. Darcy defendeu que os espaços sob as arquibancadas do Sambódromo fossem aproveitados como salas de aula, aproximando educação, arquitetura e cultura.

Museu Casa Darcy Ribeiro - foto Leonardo Fonseca
Museu Casa Darcy Ribeiro – foto Leonardo Fonseca

Sala Utopias de Darcy

Erudito e popular aparecem lado a lado neste ambiente. De um lado, o fardão da Academia Brasileira de Letras usado por Darcy Ribeiro. Do outro, referências ao samba e ao carnaval.

Entre os dois universos está a escrivaninha que o antropólogo utilizava em Brasília. O objeto, de aparência simples, integra o ambiente dedicado às diferentes dimensões de sua atuação intelectual e política.

Sala Rap, Trap, Poesia e Pensamento e Sala Karaokê

O percurso chega às manifestações culturais contemporâneas, com destaque para linguagens que se desenvolveram ou ganharam força nas periferias brasileiras.

Funk, rap, partido-alto, samba-enredo e slam aparecem em uma seleção de vídeos relacionados aos temas trabalhados por Darcy Ribeiro. A proposta aproxima essas expressões de questões presentes em sua obra, especialmente aquelas relacionadas à identidade, à desigualdade e à formação cultural brasileira.

No karaokê, o público também pode participar. Músicas e poesias podem ser interpretadas pelos visitantes, e as gravações são enviadas posteriormente por e-mail.

Sala Os Brasis de Darcy

Uma instalação imersiva propõe uma experiência relacionada aos povos indígenas e à trajetória de Darcy Ribeiro junto a essas comunidades.

O ambiente remete visualmente a uma floresta, associada aos territórios tradicionalmente ocupados pelos povos originários. Uma grande tela exibe imagens e vídeos acompanhados por sons e músicas indígenas. A iluminação reage à movimentação dos visitantes, criando uma experiência que combina imagem, som e movimento.

Depoimentos sobre a vida e a obra de Darcy entre os povos indígenas integram as projeções.

Espaço Berta Ribeiro

A trajetória de Berta Gleizer Ribeiro, companheira de Darcy Ribeiro e também pesquisadora dedicada aos povos indígenas, ganha espaço próprio no museu.

Mapas apresentam as áreas indígenas demarcadas no Brasil, enquanto vídeos recuperam o trabalho desenvolvido por Berta e Darcy junto aos povos originários. A sala também aborda a defesa da demarcação das terras indígenas, uma das pautas presentes na atuação dos dois pesquisadores.

Museu Casa Darcy Ribeiro - foto Leonardo Fonseca
Museu Casa Darcy Ribeiro – foto Leonardo Fonseca

Cinema dos Espelhos

Uma sala de projeção utiliza espelhos ao redor da tela para ampliar visualmente as imagens apresentadas. Fotografias de povos indígenas brasileiros e de suas manifestações artísticas e objetos tradicionais compõem a experiência.

O conjunto reúne imagens históricas e contemporâneas, incluindo registros do fotógrafo Sebastião Salgado. Os reflexos multiplicam as imagens e fazem do próprio espaço parte da instalação.

O Povo Brasileiro: Histórias Preciosas

Instalado em um quiosque no jardim, o espaço reúne depoimentos de pessoas que conviveram com Darcy Ribeiro em Maricá e de personagens cujas obras dialogam com o pensamento do antropólogo e possuem relação com o município.

O acervo deverá crescer com novos depoimentos, formando um registro oral da presença de Darcy em Maricá e das relações que estabeleceu na cidade.

Mais do que reconstruir cronologicamente a trajetória do antropólogo, o Museu Casa Darcy Ribeiro organiza diferentes aspectos de seu pensamento a partir de objetos, documentos, imagens e linguagens contemporâneas. A casa projetada por Niemeyer passa, assim, a funcionar também como espaço de exposição, pesquisa, convivência e atividades culturais.

Serviço

Museu Casa Darcy Ribeiro
Endereço: Rua Darcy Ribeiro, 395, Cordeirinho, Maricá – RJ
Entrada: gratuita

Horários de visitação das exposições:
Quarta a sexta-feira, das 10h às 17h, com entrada até as 16h.
Fins de semana e feriados, das 11h às 18h, com entrada até as 17h.

Programação: Instagram @casadarcyribeiromarica e perfil da Codemar @codemarmarica.

Museu Casa Darcy Ribeiro - foto Leonardo Fonseca
Museu Casa Darcy Ribeiro – foto Leonardo Fonseca