Assis e Damião Calixto registram toadas e aboios do Sertão em álbum gravado ao ar livre
Mestres da cultura popular de Arcoverde, os irmãos lançam “Toadas na Serra da Imaginação”, trabalho que reúne repertório autoral e tradicional e incorpora os sons da paisagem sertaneja.
Aos 80 e 79 anos, respectivamente, os mestres Assis Calixto e Damião Calixto acabam de lançar o álbum inédito “Toadas na Serra da Imaginação“. Apresentado em agosto no povoado das Caraíbas, na zona rural de Arcoverde, no Sertão de Pernambuco, o trabalho reúne 12 canções autorais e tradicionais ligadas às toadas e ao aboio, manifestações que atravessam a memória e o cotidiano rural da região.
O disco foi gravado ao ar livre, no Assentamento Pedra Vermelha, diante da Serra da Imaginação. Sem acompanhamento de instrumentos musicais, Assis e Damião registraram suas vozes em diálogo direto com a paisagem. Pássaros, bois, cavalos, vento e outros sons do ambiente passaram a integrar a gravação, preservando no álbum parte da atmosfera do lugar onde o repertório foi cantado.
Nascidos na comunidade de Rio da Barra, no Sítio Estreito, em Sertânia, os irmãos chegaram a Arcoverde em 1952. Desde então, construíram uma longa trajetória ligada às manifestações da cultura popular do município. Patrimônios Vivos de Arcoverde e cidadãos arcoverdenses, Assis e Damião também integram o Samba de Coco Raízes de Arcoverde, grupo indicado ao Prêmio da Música Brasileira em 2025.
“Toadas na Serra da Imaginação” é o primeiro álbum lançado pelos dois mestres em dupla. A proposta recupera um repertório associado ao aboio, às andanças pelo Sertão e às experiências de trabalho e convivência no campo. São cantos que circularam durante gerações pela transmissão oral e que encontram, na voz dos irmãos Calixto, novos registros.
“O lançamento desse trabalho também significa resgatar a identidade das toadas, sobretudo porque somos aboiadores originários do Sertão de Pernambuco”, afirma Assis Calixto.
Segundo o mestre, parte desse repertório foi aprendida com mulheres aboiadoras que acompanhavam Sabino Sapateiro, nome lembrado como referência na tradição do aboio na região. A presença dessas mulheres na transmissão dos cantos é uma das memórias que atravessam a história musical dos irmãos.
Damião Calixto relaciona as canções às experiências acumuladas pela família e pelas comunidades rurais com as quais conviveram. “A gente faz tudo isso hoje graças às vivências com o pessoal que acompanhou Sabino, cantando durante as andanças da vida, nos plantios nas hortas e pela natureza”, diz.
A gravação aconteceu em janeiro deste ano, no Assentamento Pedra Vermelha, território ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A escolha do local também define a sonoridade do disco: em vez de criar um ambiente artificial de estúdio, a produção manteve presentes os ruídos e movimentos da paisagem sertaneja.
Nesse encontro entre voz e território, o álbum aproxima o canto dos aboiadores da Serra da Imaginação, do vento, dos animais e da vegetação que cercam a gravação. As toadas aparecem, assim, não apenas como repertório musical, mas como parte de uma experiência construída no trabalho, nas caminhadas, nas relações comunitárias e na memória oral do Sertão.
A produção musical é assinada por Kell Calixto. A captação, mixagem e masterização ficaram a cargo de Buguinha Dub.
Músicas do álbum: “Maria Elena”, “Florisbela”, “Uma Morena”, “Imbuzeiro Verde”, “Boi Pretinho”, “Touro Baiano”, “Vaca Mimosa”, “Xote do Vaqueiro”, “Tô na Mesa de um Bar”, “Prisão de Domineu”, “Minha Mãe” e “Criação Lula Calixto”.
O projeto teve apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, dentro do Sistema Nacional de Cultura, com recursos do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

