Frestas Trienal de Artes transforma Sorocaba em território de arte e memória
Sorocaba virou galeria. Não apenas nas paredes do Sesc, mas nas ruas, nos monumentos, nas capelas e nos clubes históricos da cidade.
Até 16 de agosto de 2026, a 4ª edição da Frestas – Trienal de Artes ocupa o interior paulista com uma das mais ousadas propostas curatoriais do ano: “do caminho um rezo”.
O título não é acidental. Sorocaba, em tupi-guarani, significa “terra rasgada” — e é exatamente nessa ferida fértil que a Trienal finca raízes. A curadoria, assinada por Khadyg Fares, Luciara Ribeiro e Naine Terena, parte da ideia de que caminhar é mais do que deslocar-se: é rezar, é marcar o solo, é criar cartografia. Desde as antigas trilhas do Peabiru, abertas por povos indígenas há milênios e que cruzaram este território, até os percursos contemporâneos da cidade industrial, Sorocaba é lida como um palimpsesto vivo.
Com 102 participantes — artistas e iniciativas comunitárias do Brasil e do exterior — e 188 obras, sendo 26 comissionadas especialmente para esta edição, a mostra é a maior da história da Trienal. O estacionamento G2 do Sesc Sorocaba foi transformado em uma grande galeria, mas o percurso extravasa os muros da instituição e se espalha por pontos nevrálgicos da memória urbana: a Capela João de Camargo, o Clube 28 de Setembro, o Monumento Pelourinho e o Monumento à Mãe Preta. Cada parada é um nó numa teia que conecta fé, resistência, trabalho e ancestralidade.

Entre os destaques, a instalação CHAVOSOS® — A Barbearia Temporária, da plataforma sorocabana homônima, converte o espaço expositivo em uma barbearia em pleno funcionamento, afirmando a autoestima e o protagonismo da juventude negra e periférica. Artistas como Deka Costa, Flávia Aguilera, Lucia Maria de Oliveira e Denise de Oliveira mobilizam grafite, memória operária, ancestralidade negra e experiências rurais para inscrever no espaço narrativas nascidas do interior paulista. Há ainda o trabalho de No Martins, Deus tá vendo (2025), que instala uma cruz com a frase na ponte estaiada do Sesc, provocando o cruzamento entre fé popular, espaço público e arte contemporânea.
O Rio Sorocaba, corpo d’água e corpo histórico, é inserido pela curadoria como artista da mostra — presença viva de memória, território e disputa que atravessa toda a edição de forma invisível e ao mesmo tempo irrecusável.
A dimensão pedagógica é central. Com coordenação educativa de Val Chagas e curadoria assistente de Cadu Gonçalves e Cristina Fernandes, a Trienal propõe atividades transdisciplinares, projetos educativos e ações com comunidades locais que ampliam o alcance da arte para além do público especializado.

Criada pelo Sesc Sorocaba com o objetivo de descentralizar o circuito artístico nacional — historicamente concentrado no eixo Rio-São Paulo —, a Frestas existe desde a sua primeira edição como um manifesto pela arte fora dos centros. Em sua quarta edição, a Trienal consolida Sorocaba não apenas como sede de um evento relevante, mas como território produtor de pensamento artístico contemporâneo.
Do caminho um rezo é uma convocação. Para caminhar, escutar e rezar junto — com a cidade, com seus mortos e seus vivos, com suas águas e suas feridas abertas.

Serviço
Frestas – Trienal de Artes 2026
De 28 de fevereiro a 16 de agosto de 2026
Sesc Sorocaba e espaços da cidade
Entrada gratuita
Sesc Sorocaba
Rua Barão de Piratininga, 555, no bairro Jardim Faculdade, Sorocaba (SP), CEP 18030-160
Terça a sexta-feira: das 9h às 22h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 19h


