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Coletânea recupera escritos de Pierre Verger sobre cultura iorubá e conexões entre Brasil e África

Livro reúne textos produzidos entre as décadas de 1950 e 1980, muitos deles inéditos em português, e amplia o acesso a reflexões fundamentais de Pierre Fatumbi Verger sobre a cultura iorubá, as religiões de matriz africana e as relações históricas entre a Bahia e o golfo do Benim.

Parte importante da produção intelectual de Pierre Fatumbi Verger (1902–1996) volta a circular com a publicação de Iorubahia – Escritos raros sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim (Letra da Cidade/Fundação Pierre Verger, 2026). Organizada pela pesquisadora Angela Lühning, a coletânea reúne doze ensaios escritos entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1980, muitos deles inéditos em português, oferecendo um panorama de temas centrais da trajetória do pesquisador francês radicado na Bahia.

Resultado de uma parceria entre o Instituto Çarê e a Fundação Pierre Verger, a publicação nasce do trabalho de organização do acervo da histórica editora Corrupio, incorporado ao instituto em 2003. O volume conta ainda com projeto gráfico de Oga Mendonça e posfácio do pesquisador, curador e músico Tiganá Santana.

O lançamento será realizado em dois encontros públicos: o primeiro durante a 10ª Flipelô – Festa Literária Internacional do Pelourinho, em Salvador, no dia 8 de agosto, e o segundo em 16 de setembro, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. As mesas de conversa reunirão Angela Lühning, Angela Fileno e Tiganá Santana para discutir a contribuição de Verger aos estudos sobre as culturas africanas e afro-brasileiras.

Uma produção entre pesquisa de campo e circulação atlântica

Os textos reunidos em Iorubahia foram produzidos em um período decisivo da trajetória de Verger, quando suas pesquisas de campo e documentais se intensificaram entre a Bahia, a Nigéria, o Benim e diferentes arquivos europeus.

Nesse período, o pesquisador viveu longas temporadas na África Ocidental, tornou-se doutor em estudos africanos pela École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris, foi pesquisador associado da Universidade de Ibadan e professor visitante da Universidade de Ilê-Ifé. Paralelamente, percorreu cidades e comunidades iorubás acompanhando rituais, registrando narrativas orais e documentando práticas religiosas que se tornariam centrais em sua produção.

Essas experiências atravessam os ensaios reunidos na coletânea, que abordam temas como a circulação de pessoas e saberes entre África e Brasil, a religião dos orixás, o transe, as plantas de uso litúrgico, o sistema divinatório de Ifá e os conhecimentos preservados pela tradição oral.

Como observa Angela Lühning, os textos revelam dimensões importantes de uma trajetória intelectual marcada pela circulação entre diferentes campos de conhecimento.

“Os textos reunidos em Iorubahia representam faces relevantes da trajetória multitemática e multiespacial do pesquisador Verger, que ele manteve em processo de construção constante, além da carreira do fotógrafo já consagrado.”

foto Arlete Soares
foto Arlete Soares

Três eixos para compreender as conexões atlânticas

A coletânea organiza os ensaios em três conjuntos temáticos.

O primeiro, Aspectos históricos das relações transatlânticas, dialoga diretamente com a pesquisa que deu origem ao clássico Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, estudo que permanece como referência para a compreensão das conexões históricas entre a África Ocidental e o Brasil.

O segundo núcleo, Religião iorubá: fundamentos e diáspora, reúne textos dedicados aos sistemas religiosos iorubás, às transformações ocorridas na diáspora e às permanências observadas entre diferentes comunidades afro-brasileiras.

Cultura, conhecimento e oralidade iorubá aproxima o leitor dos sistemas tradicionais de transmissão de conhecimento, refletindo sobre práticas orais, botânica ritual e o funcionamento do sistema de divinação Ifá.

Mais do que apresentar estudos especializados, o conjunto evidencia a maneira como Verger compreendia a circulação de saberes entre África e Brasil, recusando leituras centradas exclusivamente em uma das margens do Atlântico.

No posfácio, Tiganá Santana destaca justamente essa perspectiva ao observar que a obra de Verger desloca hierarquias entre os conhecimentos produzidos no continente africano e aqueles preservados na diáspora.

Verger entre fotografia, antropologia e história

Reconhecido internacionalmente por sua fotografia, Pierre Verger ampliou sua atuação a partir da década de 1940, dedicando-se à pesquisa histórica, antropológica e etnográfica. Instalado em Salvador desde 1946, desenvolveu uma investigação de longa duração sobre os vínculos culturais estabelecidos entre a Bahia e os territórios iorubás da África Ocidental.

Iniciado como babalaô em 1953, Verger passou a combinar pesquisa documental, observação participante e registro fotográfico, produzindo uma obra que permanece como referência para os estudos das religiões afro-brasileiras, da diáspora africana e dos intercâmbios culturais atlânticos.

Entre seus livros mais conhecidos estão Orixás: os deuses iorubás na África e no Novo Mundo e Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, considerados referências na bibliografia sobre o tema.

Um acervo editorial recuperado

A publicação também recupera parte da história da editora Corrupio, fundada em Salvador em 1979 por um coletivo de mulheres liderado pela fotógrafa Arlete Soares. Criada inicialmente para editar a obra de Verger, a editora construiu, ao longo de quatro décadas, um catálogo voltado às relações entre Brasil e África e à presença africana na formação da cultura brasileira.

Com a incorporação desse acervo pelo Instituto Çarê, manuscritos e materiais editoriais voltaram a ser organizados, permitindo a publicação de textos que permaneceram por décadas fora de circulação.

Ao disponibilizar ensaios pouco conhecidos de Pierre Verger, Iorubahia amplia o acesso a uma produção que continua contribuindo para os estudos sobre cultura iorubá, religiões afro-brasileiras, memória e diáspora africana, oferecendo novas possibilidades de leitura de uma obra fundamental para compreender as conexões históricas e culturais entre Brasil e África.

Serviço

Iorubahia – Escritos raros sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim
Autor: Pierre Fatumbi Verger
Organização: Angela Lühning
Editora: Letra da Cidade / Fundação Pierre Verger
320 páginas | ISBN 978-65-998062-6-1

Lançamentos

Salvador (BA)
Data: 8 de agosto, às 16h
Local: Casa do Olodum – programação da 10ª Flipelô

São Paulo (SP)
Data: 16 de setembro, às 19h
Local: Auditório da Biblioteca Mário de Andrade

Entrada gratuita.