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Pesquisa aponta problemas nas Bibliotecas das escolas

Dezesseis anos após a promulgação da Lei Federal nº 12.244/2010 — que determinou a universalização das bibliotecas escolares em todas as instituições de ensino do país — a realidade das escolas públicas paulistas ainda está distante do previsto pela legislação, um problema que se repete em todo país.

É o que revela uma pesquisa inédita divulgada pelo Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo (CRB-8), que traça um amplo diagnóstico sobre os espaços de leitura das redes estadual e municipal de ensino. O levantamento aponta que a maior parte das escolas opera com salas de leitura, e não com bibliotecas escolares estruturadas, o que, segundo a entidade, contribui para mascarar o descumprimento da legislação.

Ao todo, foram analisadas 912 unidades de ensino, sendo 536 escolas da rede estadual distribuídas em 203 municípios paulistas e 376 escolas da rede municipal da capital.

Panorama da pesquisa

Rede de ensinoEscolas pesquisadas
Estadual de São Paulo536
Municipal de São Paulo376
Total912

Segundo o CRB-8, a adoção da nomenclatura “sala de leitura” permite que o poder público mantenha espaços de acesso ao livro sem a obrigatoriedade de contratação de bibliotecários, exigência prevista para bibliotecas formalmente constituídas.

A utilização do termo sala de leitura não é neutra. Trata-se de uma estratégia administrativa que evita o reconhecimento desses espaços como bibliotecas e, consequentemente, o cumprimento da legislação“, afirma Ana Cláudia Martins, presidente do CRB-8.

Nenhuma escola estadual possui biblioteca formal

Um dos dados mais contundentes do levantamento é a confirmação de que nenhuma das escolas estaduais analisadas possui biblioteca formalmente constituída.

A informação é corroborada por resposta da própria Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) ao Serviço de Informação ao Cidadão (SIC), que reconhece não possuir o cargo de bibliotecário em seu quadro funcional.

Na rede municipal da capital, a situação é apenas ligeiramente melhor.

Presença de bibliotecários

RedeEscolas com bibliotecário
Estadual0
Municipal6
Total pesquisado6

Na prática, apenas 1,85% das escolas municipais avaliadas contam com o profissional considerado essencial para a gestão de uma biblioteca escolar.

Nem todas as escolas possuem salas de leitura

A pesquisa também revelou que muitas unidades sequer contam com salas de leitura em funcionamento.

Escolas sem biblioteca nem sala de leitura

RedeEscolas sem sala de leitura
Estadual26
Municipal50
Total76

Os dados mostram que milhares de estudantes permanecem sem acesso regular a espaços dedicados à leitura, à pesquisa e à formação de competências informacionais.

Problemas estruturais e de acessibilidade

Além da ausência de bibliotecas, os levantamentos identificaram limitações estruturais recorrentes.

Problemas de acessibilidade

RedeEscolas com problemas de acessibilidade
EstadualQuase 30%
MunicipalMais de 21%

Entre as dificuldades apontadas estão escadas internas sem alternativas de acesso, ausência de elevadores e inadequações arquitetônicas que dificultam o atendimento a estudantes com deficiência.

Acervos existem, mas pouco circulam

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a discrepância entre a quantidade de materiais disponíveis e seu uso efetivo.

Muitas escolas possuem acervos superiores a 1.500 exemplares, mas registram baixos índices de empréstimo e circulação de livros.

Para o CRB-8, esse cenário evidencia a ausência de mediação especializada e de políticas permanentes de incentivo à leitura.

Sem bibliotecários, os espaços acabam funcionando muitas vezes apenas como depósitos de livros, sem ações sistemáticas de formação de leitores.

Salas de leitura acumulam múltiplas funções

O estudo também constatou que parte significativa das salas de leitura passou a desempenhar funções diversas dentro das escolas.

Em muitas unidades, os espaços são utilizados simultaneamente para aulas, reuniões, armazenamento de materiais e outras atividades administrativas, descaracterizando sua finalidade original.

Cenário pouco mudou desde 2023

Esta é a segunda pesquisa realizada pelo Conselho Regional de Biblioteconomia sobre o tema.

Em 2023, levantamento apresentado durante o Fórum de Bibliotecas Escolares apontava que apenas 7% das escolas possuíam bibliotecas.

Três anos depois, os novos dados indicam que houve poucos avanços.

A universalização das bibliotecas escolares continua distante da realidade paulista. É urgente substituir o modelo atual por bibliotecas estruturadas, com acervos atualizados e bibliotecários em todos os turnos escolares“, afirma Ana Cláudia Martins.

O problema se repete em todo o país

Os resultados paulistas dialogam com dados nacionais levantados pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), com base no Censo Escolar de 2022.

Segundo o estudo, apenas 31% das escolas públicas brasileiras possuem biblioteca.

Percentual de alunos matriculados em escolas com biblioteca

EstadoPercentual
Acre13%
São Paulo16%
Maranhão29%
Distrito Federal31%
Goiás69%
Paraná73%
Rio Grande do Sul76%
Minas Gerais82%

Os números colocam São Paulo entre os estados com menor acesso proporcional às bibliotecas escolares do país, evidenciando que a ampliação da infraestrutura de leitura e informação continua sendo um dos principais desafios da educação pública brasileira.

Mais do que um espaço para guardar livros, a biblioteca escolar é reconhecida internacionalmente como ambiente estratégico para a formação leitora, o desenvolvimento do pensamento crítico e a democratização do conhecimento. Dezesseis anos após a promulgação da lei que determinou sua universalização, os dados revelam que esse direito ainda está longe de ser plenamente garantido para milhões de estudantes.

Clique aqui e confira as pesquisas: https://crb8.org.br/salas_de_leitura/