Cartografia reúne produção musical ligada à saúde mental
Festival de Música Doida cria plataforma permanente para mapear compositores, grupos e blocos carnavalescos vinculados à Rede de Atenção Psicossocial em todo o Brasil.
A produção musical desenvolvida por usuários, trabalhadores e coletivos vinculados à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) passa a contar com uma iniciativa inédita de documentação e difusão em âmbito nacional. O Festival de Música Doida abriu um cadastro permanente destinado a compositores, intérpretes, grupos musicais, blocos carnavalescos e coletivos culturais ligados aos serviços de saúde mental, criando uma cartografia colaborativa que pretende mapear essa produção em todo o país.
A plataforma busca registrar experiências musicais surgidas em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Centros de Convivência, oficinas terapêuticas, projetos comunitários e outras iniciativas vinculadas à Reforma Psiquiátrica brasileira. Embora essas experiências estejam presentes em diversas regiões do país há décadas, poucas são documentadas ou integradas aos circuitos culturais, editais públicos e pesquisas acadêmicas.
Mais do que um simples cadastro, a cartografia constitui um banco nacional de informações sobre artistas e coletivos que atuam na interface entre cultura e saúde mental. A plataforma reúne biografias, registros fotográficos, vídeos, releases, informações sobre repertórios e dados de contato, formando um acervo capaz de facilitar intercâmbios entre artistas, estimular pesquisas, subsidiar políticas públicas e ampliar oportunidades de circulação dessa produção cultural.
Segundo Babilak Bah, idealizador e diretor artístico do Festival de Música Doida, a proposta surgiu da necessidade de reconhecer uma produção artística frequentemente invisibilizada.
“Queremos identificar compositores, compositoras, grupos e blocos que nasceram dentro dos dispositivos da Reforma Psiquiátrica e mostrar que essa produção faz parte da cultura brasileira. Trata-se de um patrimônio vivo, construído em processos coletivos de criação, cuidado e participação social.“
A iniciativa também pretende contribuir para a formulação de políticas culturais voltadas à saúde mental. Ao registrar a trajetória dos participantes, a plataforma funciona como um currículo cultural permanente, fortalecendo o reconhecimento público desses artistas e oferecendo informações qualificadas para gestores, pesquisadores e produtores culturais.
Atualmente, a cartografia reúne 64 iniciativas cadastradas, distribuídas por 11 unidades da federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Sergipe, Bahia, Paraíba, Goiás e Distrito Federal. A expectativa da organização é ampliar gradualmente essa cobertura, formando um panorama nacional da produção musical vinculada à RAPS.
A criação do banco de dados dialoga diretamente com os princípios da Reforma Psiquiátrica brasileira, que, desde a década de 1980, passou a reconhecer a arte como instrumento de expressão, convivência e participação social. Em diferentes serviços substitutivos aos antigos hospitais psiquiátricos, oficinas de música, blocos carnavalescos, bandas e grupos autorais transformaram-se em importantes espaços de criação artística e fortalecimento de vínculos comunitários.
Nesse contexto, a música deixa de ocupar apenas um lugar terapêutico para afirmar-se como produção cultural autônoma, capaz de circular em festivais, espaços culturais e projetos educativos. A cartografia procura registrar justamente essa diversidade de experiências, valorizando trajetórias que, em muitos casos, permanecem restritas aos territórios onde foram produzidas.

O cadastro permanece aberto durante todo o ano e pode ser realizado gratuitamente por compositores, intérpretes, grupos musicais, blocos carnavalescos e coletivos vinculados à Rede de Atenção Psicossocial. O formulário solicita informações básicas sobre a atuação artística, além do envio de fotografias, vídeos e material de divulgação.
Ao consolidar esse mapeamento, o Festival de Música Doida pretende contribuir para que essa produção passe a integrar de forma mais consistente o cenário cultural brasileiro, ampliando sua visibilidade e fortalecendo redes de colaboração entre iniciativas espalhadas pelo país.
Diz o Festival TERCEIRA EDIÇÃO DO FESTIVAL:
“A cartografia integra as ações do Festival de Música Doida, que acaba de chegar na terceira edição. Neste ano, o evento será realizado entre 2 e 4 de setembro, em Belo Horizonte. Reconhecido por reunir artistas, usuários dos serviços de saúde mental, trabalhadores, pesquisadores e público em geral, o festival busca fortalecer a luta antimanicomial por meio da música, da arte e da ocupação dos espaços culturais da cidade. A programação contará com mostra de compositores, apresentações musicais, rodas de conversa, instalações artísticas, feira de economia criativa e o tradicional Palco Aberto. O festival homenageia os trabalhadores(as) da saúde mental, reconhecendo seu papel histórico na construção da reforma psiquiátrica brasileira e do cuidado em liberdade.”
Serviço
Cartografia Nacional do Festival de Música Doida
Inscrições: permanentes e gratuitas
Público: compositores(as), grupos musicais, coletivos e blocos carnavalescos vinculados à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
Cadastro e informações: festivaldemusicadoida.com.br/cartografia
3º FESTIVAL DE MÚSICA DOIDA
2 a 4 de setembro de 2026
Funarte Minas Gerais
Gratuito (sujeita à lotação)
Mais detalhes: @festivalmusicadoida

