Casa Verde e a memória negra de São Paulo
Mais do que um bairro da zona norte paulistana, a Casa Verde constitui um dos principais territórios históricos da presença negra na capital.
É desse espaço de intensa produção cultural, religiosa e comunitária que parte o livro Casa Verde: Uma Pequena África Paulistana, do sociólogo, compositor, pesquisador e capoeirista Tadeu Kaçula, obra que propõe uma leitura da formação do bairro a partir das experiências e das contribuições da população afro-brasileira.
Longe de se limitar à história do samba, o livro investiga como diferentes formas de organização social construíram um território de resistência cultural. Terreiros, rodas de samba, capoeira, clubes recreativos, campos de futebol de várzea, associações comunitárias e espaços de convivência aparecem como elementos fundamentais para compreender a formação da identidade da Casa Verde e seu papel na história urbana de São Paulo.
Ao utilizar a expressão “Pequena África Paulistana”, Kaçula aproxima a Casa Verde de outros territórios brasileiros marcados pela concentração de comunidades negras e pela intensa produção cultural. A expressão remete não apenas à herança africana preservada no bairro, mas também às redes de solidariedade, às práticas religiosas, às manifestações musicais e às formas de organização coletiva que atravessaram gerações.
O samba ocupa lugar central nessa narrativa. A região abriga algumas das mais importantes escolas de samba paulistanas — entre elas Unidos do Peruche, Mocidade Alegre, Império de Casa Verde, Rosas de Ouro e Acadêmicos do Tucuruvi — além do Sambódromo do Anhembi, principal palco do carnaval da cidade. Entretanto, o autor amplia esse universo ao mostrar que a cultura negra da Casa Verde também se manifesta nos afoxés, nos terreiros de religiões de matriz africana, nas rodas de capoeira, na culinária, na oralidade e nas festas populares.
Mais do que registrar memórias, o livro propõe uma reflexão sobre os processos de invisibilização da presença negra na história oficial da cidade. Ao recuperar trajetórias, personagens e espaços pouco contemplados pela historiografia tradicional, a obra contribui para ampliar o debate sobre patrimônio cultural, direito à memória e reconhecimento das contribuições da população afro-paulistana para a construção da metrópole.
Com linguagem acessível e fundamentação histórica, Casa Verde: Uma Pequena África Paulistana dialoga tanto com pesquisadores das áreas de cultura, patrimônio e história urbana quanto com sambistas, educadores e leitores interessados em compreender como os territórios negros ajudaram a moldar a identidade cultural de São Paulo.
Em um momento em que cresce o interesse pelas chamadas “Pequenas Áfricas” brasileiras e pelas políticas de preservação do patrimônio imaterial, o trabalho de Tadeu Kaçula reafirma a importância de reconhecer esses espaços como lugares vivos de produção cultural, memória coletiva e resistência.

Serviço
Casa Verde: Uma Pequena África Paulistana
Autor: Tadeu Kaçula
Editora: LiberArs
1ª edição: 2020
140 páginas
ISBN: 978-8594592095
Peso: 220 g
Dimensões: 22.6 x 15.4 x 1 cm

