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De Piracicaba à Amazônia: pesquisas ajudam a desvendar os rios voadores

A trajetória do CENA, da USP, e do pesquisador Enéas Salati revela como estudos com isótopos de água realizados no interior paulista ajudaram a compreender a relação entre floresta, chuvas e clima na Amazônia.

Quase quatro mil quilômetros separam Piracicaba, no interior de São Paulo, da Floresta Amazônica. A distância, porém, não impediu que pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), da USP, estivessem entre os pioneiros de uma investigação que mudaria a compreensão sobre o funcionamento do ciclo das águas na Amazônia. A partir do estudo dos isótopos presentes nas moléculas de água, o grupo coordenado pelo pesquisador Enéas Salati acompanhou os caminhos da chuva, da evaporação e da transpiração da floresta.

A pesquisa ganhou repercussão ainda no início da década de 1970. Em 3 de novembro de 1970, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem sobre os estudos desenvolvidos pelo CENA e sobre a tentativa de determinar quanto a floresta contribuía para o regime de chuvas da bacia amazônica. Naquele momento, a questão tinha também uma dimensão política: a Amazônia era alvo dos projetos de ocupação e desenvolvimento da ditadura militar, que estimulava a abertura de estradas, novas frentes de exploração e grandes projetos de mineração.

Uma pesquisa que mudou de sentido

A hipótese inicial de Salati era que a transpiração da floresta poderia responder por parte significativa das chuvas da região. Ainda não se sabia, entretanto, qual seria essa contribuição nem suas consequências para outras áreas do país.

Os estudos receberam recursos do governo federal por meio de instituições como a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), além de apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O objetivo científico, naquele contexto, também poderia fornecer argumentos para os projetos de ocupação da Amazônia caso a influência da floresta sobre as chuvas se mostrasse pequena.

Os resultados apontaram em outra direção. Amostras de água enviadas para Piracicaba e medições do vapor atmosférico indicaram que os ventos provenientes do Oceano Atlântico respondiam por pouco mais da metade das chuvas amazônicas, enquanto o restante estava relacionado aos processos de evaporação e evapotranspiração da própria floresta. A pesquisa evidenciou, assim, uma relação dinâmica: a floresta depende das chuvas, mas também participa da formação delas.

À medida que as evidências avançavam, a posição de Salati também se modificou. Se nos primeiros anos sua pesquisa dialogava com a agenda desenvolvimentista do regime militar, no final da década de 1970 o cientista passou a criticar os impactos ambientais dos grandes projetos de transformação da Amazônia e ganhou espaço no movimento ambientalista internacional. Em 1979, Salati e colaboradores publicaram na revista Water Resources Research um estudo sobre a reciclagem da água na Bacia Amazônica, alertando para os efeitos do desmatamento sobre o balanço hídrico e as chuvas.

O projeto Rios Voadores uniu o aeronauta Gérard Moss e o pesquisador Salati em um esforço para percorrer a trilha dos jatos de baixa altitude, evidenciando como a Amazônia mandava umidade para a América do Sul - Fotos: site do projeto Rios Voadores
O projeto Rios Voadores uniu o aeronauta Gérard Moss e o pesquisador Salati em um esforço para percorrer a trilha dos jatos de baixa altitude, evidenciando como a Amazônia mandava umidade para a América do Sul – Fotos: site do projeto Rios Voadores

Seguindo os caminhos da água

Entre os pesquisadores que participaram dessa história está José Aurélio Bonassi, técnico do Laboratório de Isótopos Estáveis do CENA, conhecido como Pingin. Ele começou a trabalhar no laboratório em 1978, depois de receber uma oportunidade de estágio enquanto cursava Técnico em Química. A experiência o levou a deixar o emprego em um banco, concluir a formação universitária e permanecer no CENA.

Pingin participou das expedições de coleta de amostras de chuva na Amazônia e posteriormente de estudos realizados em diferentes capitais brasileiras. Um antigo mapa da Bacia Amazônica ainda ocupa uma parede da sala de estudos do laboratório, marcado pelos pontos das inúmeras expedições realizadas pela equipe.

Por trás dessas viagens havia uma técnica científica que permitia seguir o caminho das águas. A água é formada por hidrogênio e oxigênio, mas esses elementos aparecem na natureza em diferentes formas isotópicas, com diferentes massas atômicas. Como os isótopos se distribuem de maneira distinta nos ambientes, sua proporção pode funcionar como uma espécie de assinatura capaz de indicar a origem de uma amostra de água.

Para realizar essas medições, o CENA contou com a tecnologia da espectrometria de massas, instrumento capaz de distinguir átomos de diferentes massas. A colaboração com o químico norte-americano Irving Friedman, pioneiro da hidrologia isotópica, aproximou os pesquisadores de Piracicaba de uma rede internacional de investigação. Friedman esteve no CENA em diferentes ocasiões, enquanto Salati e Eiichi Matsui realizaram períodos de formação nos Estados Unidos.

Do interior paulista para a Amazônia

A pesquisa de Salati começou antes mesmo da criação do CENA, em 1966. Engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), ele concluiu o doutorado em 1958 e passou a trabalhar com Admar Cervellini, um dos responsáveis pela criação do centro e seu primeiro diretor. Em 1964, recebeu apoio da Fapesp para pesquisar a composição isotópica natural do oxigênio. Dois anos depois, participou com Cervellini do Simpósio de Hidrologia Isotópica da AIEA, em Viena.

Com a instalação do primeiro espectrômetro de massas do CENA, em 1968, começaram as análises de oxigênio. Em 1970, um segundo equipamento permitiu ampliar os estudos para o hidrogênio. As primeiras pesquisas envolveram águas de rios e chuvas do interior paulista, mas logo alcançaram regiões consideradas estratégicas pelos planos nacionais de desenvolvimento, entre elas o Nordeste e a Amazônia. As expedições amazônicas começaram em 1971.

A hidrologia isotópica tinha ainda uma característica importante para a época: empregava técnicas relativamente simples e de menor custo quando comparadas a outras áreas da pesquisa nuclear. Isso permitiu sua utilização em países em desenvolvimento e ajudou a ampliar as possibilidades de investigação sobre os recursos hídricos.

O técnico de laboratório Pingin acompanhou os cientistas do CENA em diversas viagens para coletar amostras de água na Amazônia. No detalhe, ele aparece ao centro, ao lado de outros dois técnicos do Laboratório de Isótopos Estáveis: Miguel Luiz Baldessin (à esquerda) e Bento Moçambique de Moraes Neto (à direita) - Fotos: Denise Casatti
O técnico de laboratório Pingin acompanhou os cientistas do CENA em diversas viagens para coletar amostras de água na Amazônia. No detalhe, ele aparece ao centro, ao lado de outros dois técnicos do Laboratório de Isótopos Estáveis: Miguel Luiz Baldessin (à esquerda) e Bento Moçambique de Moraes Neto (à direita) – Fotos: Denise Casatti

A ideia dos rios voadores

A compreensão construída por essas pesquisas ajudaria, posteriormente, a dar maior precisão à ideia de que a Amazônia não funciona apenas como uma região que recebe água, mas também como parte ativa do sistema que distribui umidade pelo continente.

O pesquisador Reynaldo Luiz Victoria, que foi orientado por Salati, recordou a maneira como o cientista explicava essa dinâmica: na Amazônia haveria um rio no chão e outro no céu, permanentemente conectados.

O climatologista José Antonio Marengo Orsini, também influenciado pelos estudos de Salati, investigou posteriormente os chamados jatos de baixa altitude — correntes de ar que transportam umidade da Amazônia, contornam os Andes e seguem em direção ao sul do continente, alcançando regiões do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e chegando à área do Rio da Prata.

Em seguida, Marengo e o aeronauta Gérard Moss participaram de um projeto dedicado a acompanhar esses fluxos de umidade em avião. Com patrocínio da Petrobras, a iniciativa recebeu o nome de Rios Voadores, expressão que ajudou a popularizar uma das dimensões mais conhecidas da circulação de água na Amazônia.

Enéas Salati morreu em Piracicaba, em 5 de fevereiro de 2022, aos 88 anos. A pedido do próprio pesquisador, suas cinzas foram levadas para a Amazônia e hoje estão na Reserva Ducke, área de floresta vinculada ao INPA, nas proximidades de Manaus. O percurso encerra, simbolicamente, uma trajetória que começou no interior de São Paulo e que teve na Amazônia um de seus principais campos de investigação.

O primeiro espectrômetro de massas do CENA foi comprado em 1966 com recursos da CNEM, do CNPq, da Capes, da Fapesp e da USP. Chegou ao porto de Santos no ano seguinte, mas só entrou em operação em 1968. Segundo o professor Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz, um dos fundadores do CENA, a luta para se conseguir um espectrômetro de massas foi das mais árduas, pois remonta à década de 1950 - Foto: Denise Casatti
O primeiro espectrômetro de massas do CENA foi comprado em 1966 com recursos da CNEM, do CNPq, da Capes, da Fapesp e da USP. Chegou ao porto de Santos no ano seguinte, mas só entrou em operação em 1968. Segundo o professor Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz, um dos fundadores do CENA, a luta para se conseguir um espectrômetro de massas foi das mais árduas, pois remonta à década de 1950 – Foto: Denise Casatti