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Livro percorre um século de documentário brasileiro de protesto

Publicado pelas Edições Sesc São Paulo, “Um século de documentário brasileiro: do nacionalismo ao protesto”, de Darlene J. Sadlier, acompanha a produção documental no país e suas relações com as transformações sociais, políticas e culturais do Brasil.

Da Amazônia registrada pelas câmeras nos anos 1920 aos documentários que investigam as crises políticas e sociais do Brasil contemporâneo, o cinema documental acompanhou o país em suas transformações, conflitos e contradições. Ao longo de aproximadamente um século, seus filmes registraram personagens e territórios, deram visibilidade a realidades pouco presentes na história oficial e também participaram da disputa por diferentes formas de representar a sociedade brasileira.

É essa trajetória que a pesquisadora estadunidense Darlene J. Sadlier percorre em “Um século de documentário brasileiro: do nacionalismo ao protesto”, lançado no Brasil pelas Edições Sesc São Paulo. Com tradução de Alyne Azuma, o livro tem 460 páginas e chega ao público brasileiro depois de sua publicação original, em 2022, pela University of Texas Press.

Mais do que reconstruir a história de um gênero cinematográfico, Sadlier utiliza o documentário como uma espécie de lente para observar o próprio Brasil. Seus filmes revelam diferentes maneiras pelas quais o país se viu, foi representado e disputou sua própria imagem em momentos marcados por projetos de modernização, autoritarismo, desigualdade, transformações culturais e conquistas democráticas.

Das primeiras imagens à sociedade contemporânea

Professora emérita da Universidade de Indiana e referência internacional nos estudos sobre cultura brasileira, Sadlier inicia sua análise com algumas das experiências pioneiras do documentário nacional, entre elas “No país das amazonas” (1922), de Silvino Santos, e “São Paulo, a sinfonia da metrópole” (1929), de Adalberto Kemeny e Rodolfo Lustig.

A partir dessas primeiras produções, o livro acompanha as mudanças na linguagem e nas funções do documentário, relacionando os filmes aos contextos históricos em que foram realizados e exibidos.

A autora passa pelo Cinema Novo, pelas produções de resistência durante a ditadura militar e por documentários dedicados às questões racial e indígena. Também analisa filmes sobre personalidades da cultura brasileira e obras que abordam conflitos e transformações nas cidades e no campo.

Nesse percurso, aparecem temas que atravessam diferentes períodos da história nacional: nacionalismo, propaganda estatal, censura, desigualdade social, migração, violência urbana, democracia, raça e gênero.

Entre as obras analisadas estão títulos que se tornaram referências do documentário brasileiro, como “Cabra marcado para morrer”, “Ilha das Flores”, “Ônibus 174”, “Estamira”, “O processo” e “Democracia em vertigem”.

O documentário como memória e interpretação do Brasil

Ao aproximar filmes de diferentes épocas, regiões e perspectivas, Sadlier mostra que o documentário brasileiro nunca esteve separado das questões de seu tempo. A câmera pode registrar, mas também selecionar, interpretar, questionar e confrontar versões estabelecidas da realidade.

É nesse ponto que o livro ganha uma dimensão que ultrapassa a história do cinema. As imagens documentais passam a ser compreendidas como documentos de uma sociedade em permanente transformação e, ao mesmo tempo, como instrumentos capazes de intervir na maneira como essa sociedade compreende a si mesma.

Da construção de uma ideia de nação às experiências de grupos historicamente invisibilizados, o documentário aparece como território de memória e de disputa de representação.

A perspectiva também evidencia a diversidade da produção brasileira. Ao reunir obras realizadas em diferentes momentos e a partir de diferentes experiências sociais, o livro constrói um panorama no qual o documentário deixa de ser apenas um registro dos acontecimentos e passa a ser entendido como uma forma de produzir conhecimento sobre o país.

Um olhar internacional sobre o cinema brasileiro

A publicação brasileira ganha ainda relevância por trazer ao público uma pesquisa construída a partir de uma longa trajetória de estudos de Sadlier sobre a cultura do país.

Com prefácio do professor e pesquisador de cinema Eduardo Morettin e texto de orelha do cineasta João Batista de Andrade, “Um século de documentário brasileiro” amplia o debate sobre a produção audiovisual nacional e sobre a importância da preservação de sua memória.

O lançamento também ocorre em um momento de renovado interesse pelo documentário, gênero que ocupa lugar cada vez mais relevante tanto na produção cinematográfica quanto nas plataformas de streaming e nos debates sobre memória, política, identidade e representação.

Ao percorrer um século de imagens, personagens e acontecimentos, o livro convida o leitor a olhar novamente para o Brasil — desta vez, através das câmeras daqueles que buscaram registrar, interpretar e questionar o país.

Sobre a autora

Darlene J. Sadlier é professora emérita de Espanhol e Português na Universidade de Indiana, em Bloomington, onde dirigiu o Programa de Português entre 1978 e 2014. É sócia-correspondente da Academia Brasileira de Letras e autora de diversos livros sobre literatura, cultura e cinema brasileiros.

Entre suas publicações estão “Nelson Pereira dos Santos” (Papirus, 2012), “Americans All: Good Neighbor Cultural Diplomacy in World War II” (Texas, 2012), “Brasil Imaginado: De 1500 até o presente” (Edusp, 2016), “A diáspora em língua portuguesa: Sete séculos de literatura e arte” (Imprensa Nacional, 2018), “Memories of Underdevelopment” (BFI, 2023) e “The Haunted Cinema of Pedro Costa” (Indiana University Press, 2025), escrito em coautoria com James Naremore.

Ao longo da carreira, recebeu bolsas Fulbright de pesquisa e docência em Recife, Lisboa e São Paulo, além de bolsa do Rockefeller Archive Center e do Indiana University Distinguished Faculty Award. Também conquistou o primeiro lugar no prêmio internacional do Ministério das Relações Exteriores do Brasil para o melhor ensaio sobre Graciliano Ramos.

Atualmente, conclui o livro “The Amazon: A Multi-Media History”.

SERVIÇO

Um século de documentário brasileiro: do nacionalismo ao protesto
Autora Darlene J. Sadlier
Editora Edições Sesc
Número de páginas ‏ : ‎ 460 páginas
ISBN-10 8594933827
ISBN-13 978-8594933829
Peso do produto 640 g
Dimensões 15 x 3 x 22 cm

Sobre as Edições Sesc São Paulo

Pautadas pelos princípios da educação permanente e do acesso à cultura, as Edições Sesc São Paulo publicam livros em diferentes áreas do conhecimento, em diálogo com a programação e os campos de atuação do Sesc.

O catálogo reúne títulos dedicados à preservação e à difusão de conteúdos sobre os múltiplos aspectos da contemporaneidade, disponíveis nas unidades do Sesc São Paulo, nas principais livrarias e no portal da editora.

“Um século de documentário brasileiro: do nacionalismo ao protesto” está disponível nas unidades do Sesc, nas principais livrarias e na livraria virtual das Edições Sesc.