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Em Tiradentes, a criatividade encontra a tradição

Na décima edição, Semana Criativa ocupa ruas, casarões e espaços históricos para aproximar design, artesanato, arte, arquitetura, gastronomia e diferentes expressões da cultura brasileira.

Durante quatro dias de outubro, Tiradentes deixa de ser apenas cenário para se transformar em parte ativa de um dos principais encontros brasileiros dedicados à criatividade. Entre 15 e 18 de outubro, ruas, casarões e espaços públicos da cidade histórica mineira recebem a 10ª edição da Semana Criativa de Tiradentes, festival que, ao longo de uma década, ampliou seu campo de atuação e passou a reunir design, artesanato, arquitetura, arte, moda, gastronomia, música, patrimônio e saberes tradicionais.

O percurso é revelador de uma transformação. Criada inicialmente a partir do diálogo entre design e artesanato, a Semana foi incorporando novas linguagens e territórios até construir uma programação voltada às diferentes formas de criação presentes na cultura brasileira. A edição comemorativa reúne mais de 80 palestrantes e prevê mais de 200 atividades, distribuídas por diferentes pontos da cidade.

A expectativa é superar os 22 mil visitantes registrados em 2025, quando o festival recebeu aproximadamente três vezes a população de Tiradentes. Naquele ano, foram mais de 200 atividades, com a participação de 36 designers e cerca de 300 artesãos representados direta e indiretamente.

Tiradentes como parte da experiência

A escolha de Tiradentes para sediar o festival não é apenas uma questão de ambientação. A cidade histórica, com seu conjunto arquitetônico preservado, suas ruas e seus espaços de convivência, estabelece uma relação direta entre patrimônio e produção contemporânea.

É nesse encontro entre tempos diferentes que a Semana Criativa construiu parte de sua identidade. O visitante não percorre um centro de convenções, mas uma cidade. Entre uma exposição, uma conversa ou uma apresentação, circula por ruas, praças, lojas, restaurantes e espaços históricos, encontrando também os moradores e a dinâmica cotidiana do município.

A descentralização é igualmente importante para a economia local. Em 2024, o festival recebeu cerca de 14 mil visitantes. No ano seguinte, chegou a aproximadamente 22 mil, um crescimento de 57%. O público de 2025 veio principalmente de Minas Gerais (46%), São Paulo (23%) e Rio de Janeiro (13%), enquanto 18% vieram de outros estados.

Esse fluxo movimenta setores como hospedagem, alimentação, transporte e comércio. Também estabelece uma relação direta entre o festival e a produção autoral apresentada na cidade.

Congado Nossa Senhora do Rosário - Fonte httpsmucih.com.brartistascongado-nsra.jpg
Congado Nossa Senhora do Rosário – Fonte httpsmucih.com.brartistascongado-nsra.jpg

O artesanato como conhecimento

O artesanato permanece como um dos pontos de partida da Semana Criativa. Ao longo dos anos, porém, sua presença deixou de ser compreendida apenas como produção de objetos para ser tratada também como conhecimento, técnica, memória e patrimônio.

O Mercado da Semana Criativa, que nesta edição muda de endereço para a Villa da Matriz, reúne marcas, artesãos e pequenos produtores de diferentes regiões do Brasil. O espaço funciona como lugar de comercialização, mas também de encontro entre públicos e formas distintas de produção.

Essa aproximação entre design e artesanato permite discutir questões que atravessam a produção contemporânea: autoria, território, materiais, técnicas tradicionais, sustentabilidade e circulação de saberes.

A própria criação da Escola da Semana Criativa de Tiradentes amplia esse processo para além dos quatro dias do festival. Por meio de atividades e imersões realizadas durante o ano, designers, arquitetos e artesãos da região participam de processos de formação e troca de conhecimentos.

Uma cartografia mais diversa da criatividade brasileira

A décima edição amplia novamente esse mapa. Entre os nomes já anunciados estão o artista visual Thiago Rocha Pitta, o chef confeiteiro Lucas Corazza, a future thinker Andrea Bisker, a arquiteta Lígia Agostini, o artista do bambu Marcelo Maia, a pesquisadora de moda e biomateriais Tainah Fagundes, a urbanista social Ester Carro, o designer quilombola Dih Morais e a cientista de dados Zaika dos Santos.

A programação também inclui encontros com a Família Dumont, o ator Luis Melo e o artista tiradentino Vinicius Rosa Rios, homenageado desta edição.

A diversidade de trajetórias evidencia uma mudança importante na própria ideia de criatividade. Ela já não está restrita ao campo do design ou às fronteiras entre arte e indústria. Pode estar em uma técnica artesanal transmitida entre gerações, em uma pesquisa sobre biomateriais, na arquitetura, na culinária, na tecnologia ou nas experiências construídas a partir de territórios específicos.

Novos territórios dentro do festival

Entre as novidades dos dez anos está A Casa D’Preto, instalada no Casarão Ramalho, sede do IPHAM, sob curadoria dos arquitetos e urbanistas Pedro Rubens e Heloisa Nascimento.

O projeto parte da valorização de saberes, artes e tecnologias ancestrais historicamente silenciadas. Seu símbolo é o Adinkra Eban, associado a ideias de amor, segurança, abrigo e proteção.

A programação inclui a exposição Orí-gem, com trabalhos de artistas como Bruno Henrique de Souza, Hudson Silveira, Selma Maria e Elizabeth Ramos; o I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, com coordenadores de 16 estados brasileiros e Lisboa; o lançamento da Plataforma Arquitetura D’Preto, voltada à conexão entre clientes e profissionais negros da construção civil; e a exibição do documentário A Casa D’Preto, dirigido por Daniel Pereira e Tainara Matos.

A presença do projeto introduz na programação discussões sobre representatividade, ancestralidade e arquitetura, ampliando a compreensão sobre os repertórios que formam a cultura brasileira.

Outra estreia é a Casa Rio, espaço-conceito criado por Didi Maakaröun, do Conceito MAADI, e Vivi Baldeija, da Capivara do Vale. A proposta reúne design autoral, arte, artesanato e experiências sensoriais para apresentar referências da cultura fluminense dentro do contexto da Semana em Minas Gerais.

Cidade de Tiradentes, MG - foto Douglas Mendes
Cidade de Tiradentes, MG – foto Douglas Mendes

Uma cidade que também produz cultura

A dimensão territorial do festival pode ser observada ainda na circulação econômica e cultural provocada pela ocupação de diferentes endereços. Em vez de concentrar a programação em um único espaço, a Semana se distribui pela cidade, criando percursos que conectam o evento à paisagem urbana.

Essa característica também coloca em evidência uma questão importante para iniciativas culturais realizadas em cidades históricas: como fazer com que grandes fluxos de visitantes contribuam para a economia e para a vida cultural local sem transformar o território apenas em cenário?

A experiência construída ao longo de dez anos aponta para uma resposta baseada na continuidade. A Escola e as imersões realizadas ao longo do ano procuram estabelecer uma presença permanente, aproximando a programação de designers, arquitetos e artesãos locais.

Ao completar uma década, a Semana Criativa de Tiradentes chega, assim, a um momento em que sua história pode ser lida pela própria transformação de seu conteúdo. O design continua presente, mas divide espaço com o artesanato, a arquitetura, a música, a gastronomia, a moda, as artes visuais e, sobretudo, com os saberes e repertórios de diferentes territórios brasileiros.

Em uma cidade marcada pela permanência de sua arquitetura e de sua memória, o festival encontra justamente aí sua principal matéria: colocar tradição e contemporaneidade em contato, sem tratar o passado como peça de museu nem a criação contemporânea como algo desligado de suas raízes.

Se quiser, posso também preparar uma segunda versão mais jornalística e menos institucional, com título mais forte e cerca de 4.500–5.000 caracteres, no formato que costuma funcionar melhor para publicação na Revista Raiz.

CASA CRIATIVA

A Casa Criativa funciona como o QG e o coração das experiências da Semana Criativa de Tiradentes. Instalado em um casarão histórico, o espaço abriga mostras e exposições que revelam o resultado das criações conjuntas entre designers e artesãos brasileiros. Além de servir como polo comercial de design autoral, promove o intercâmbio de saberes por meio de palestras, rodas de conversa sobre sustentabilidade e oficinas afetivas de bordado, como o tradicional Agulhaço.

CASA PARÁ

Já consolidada na Semana Criativa, a Casa Pará é um espaço imersivo que conecta a cultura e o design da Amazônia com o festival mineiro. Idealizada pela plataforma A Casa Como Ela É e pelo escritório Guá Arquitetura, a embaixada cultural reúne artesãos e designers nortistas. A programação destaca coleções de design colaborativo feitas com miriti, exposições de artes manuais ancestrais, intervenções artísticas embaladas por tecnobrega e experiências gastronômicas exclusivas.

CASA MATA ATLÂNTICA

Cultura, artesanato, literatura e gastronomia que têm em comum a relação com o bioma ganham destaque na Casa Mata Atlântica, programação que reúne pequenos produtores, criadores e projetos ligados à gastronomia e ao artesanato. São diferentes maneiras de produzir a partir da terra, valorizando saberes locais, matérias-primas, pessoas e práticas comprometidas com a sustentabilidade – uma imersão nos fazeres que nascem da floresta e se transformam em identidade, memória e futuro.

CASA ARADO

A Casa Arado é a embaixada do Estúdio Arado, responsável pela identidade visual da Semana Criativa, que teve como inspiração ferramentas como extensão das mãos. O espaço funciona como um memorial imersivo dedicado a pesquisar, resgatar e difundir a cultura e o imaginário rural caipira brasileiro. Instalado em um casarão histórico, o espaço opera como galeria de arte gráfica vintage e loja conceitual, comercializando cartazes, papelaria fina, gravuras e itens selecionados de mercearia artesanal.

CASA DO DESIGN CEARENSE

A Casa do Design Cearense na Semana Criativa de Tiradentes é a vitrine de um coletivo que une criadores como Érico Gondim e Leo Ferreiro para projetar o design contemporâneo aliado ao artesanato ancestral do Ceará. Com apoio da ADECE (Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará) e da plataforma e hub criativo Nordestesse, o espaço promove imersões e mostras de mobiliário que fundem saberes em palha e argila à rica iconografia cultural e folclórica do estado.

Varanda Câmara - divulgação
Varanda Câmara – divulgação

SERVIÇO

10ª Semana Criativa de Tiradentes
Data: 15 a 18 de outubro de 2026
Local: Tiradentes (MG) – programação distribuída por diversos pontos da cidade
Ingressos: gratuitos (reservas para palestras no site oficial)
Para a programação completa, informações e inscrições acesse, a partir de 5 de outubro: semanacriativadetiradentes.com.br

Tinta oficial: Coral
Patrocínio máster: Electrolux
Patrocínio: Sebrae e Casa Riachuelo
Copatrocínio: Eliane e Decortiles
Apoio: Atlas Revestimentos, CAU-MG, Germer Porcelanas e Lider
Parceria cultural: Belotur, Prefeitura de Belo Horizonte, Metropolitano, Villa da Matriz e UNESCO