CanaisIdentidadesMúsicasVisuais

Instituto Çarê transforma acervos em matéria viva para a cultura brasileira

Instituição reúne em setembro exposições, publicações, música, pesquisa e ações de formação que revelam diferentes caminhos para preservar e atualizar a memória cultural.

Preservar a memória não significa apenas guardar documentos, fotografias, partituras ou objetos. No trabalho desenvolvido pelo Instituto Çarê, os acervos funcionam como pontos de partida para novas pesquisas, encontros e criações. Em setembro, essa perspectiva se manifesta em uma programação que aproxima artes visuais, música, literatura, patrimônio documental, formação e ações de convivência, revelando como diferentes camadas da cultura brasileira podem ser revisitadas a partir de seus arquivos.

Entre os destaques do mês estão a exposição Recados Tramados, construída a partir do Fundo Tasso Gadzanis; o lançamento de Iorubahia, publicação que recupera textos raros de Pierre Fatumbi Verger sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e o golfo do Benim; um ciclo dedicado à trajetória de Laércio de Freitas; uma oficina que transforma materiais urbanos descartados em objetos de memória; e a retomada de registros históricos da música brasileira no podcast Baú do Zuza.

Mais do que uma sequência de eventos, a programação evidencia uma característica central do Instituto: o acervo como território de pesquisa e criação.

Objetos que carregam histórias

Essa perspectiva ganha forma a partir de 13 de setembro, com a abertura de Recados Tramados, nona exposição realizada pelo Instituto Çarê. A mostra coloca em diálogo máscaras e bastões de recado — conhecidos como récades — pertencentes ao Fundo Tasso Gadzanis, com trabalhos dos artistas A TRANSÄLIENe Uberê Guelé.

O conjunto reúne peças provenientes de países como Benim, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Mali, Moçambique e Nigéria, além do Brasil. Ao levar esse acervo para o espaço expositivo e colocá-lo em relação com produções contemporâneas, a exposição propõe uma leitura que ultrapassa a dimensão material dos objetos.

Máscaras e récades são também portadores de histórias, usos, símbolos e formas de comunicação. Seu deslocamento para o campo da pesquisa e da arte contemporânea permite refletir sobre circulação, memória, representação e os modos como diferentes culturas constroem e preservam seus sistemas de conhecimento.

A abertura, no dia 13, terá ainda feijoada da Cozinha Ocupação 9 de Julho, discotecagem da DJ Simoníssimae roda de samba com o Samba de Ganga, a partir das 17h. A exposição permanece até 14 de novembro, com entrada gratuita.

Pierre Verger - foto Arlete Soares - Instituto Çarê
Pierre Verger – foto Arlete Soares – Instituto Çarê

Pierre Verger: arquivos que atravessam o Atlântico

A dimensão documental da memória cultural está no centro de outro projeto importante do mês. Em 16 de setembro, na Biblioteca Mário de Andrade, o Instituto Çarê lança Iorubahia: Escritos raros sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim.

A publicação reúne 12 textos de Pierre Fatumbi Verger, produzidos entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1980. Boa parte desse material é inédita em português, ampliando o acesso a uma produção fundamental para compreender as relações históricas e culturais entre o Brasil e a África Ocidental.

O livro nasceu do processamento do acervo da editora Corrupio, adquirido pelo Instituto em 2003. O percurso da publicação revela, portanto, uma das funções menos visíveis — e mais importantes — do trabalho com arquivos: aquilo que permanece guardado pode voltar a circular, ganhar contexto e alcançar novos leitores.

Participam do lançamento Ângela Lühning, organizadora da publicação; Angela Fileno, coordenadora do Núcleo de Acervo do Instituto Çarê; e o historiador e etnomusicólogo Rafael Galante, com mediação da jornalista Teté Martinho.

Laércio de Freitas, memória musical

A música brasileira também é revisitada a partir de seus documentos. A partir de 24 de setembro, o Clube de Choro Laércio de Freitasinicia uma série de encontros quinzenais dedicados à trajetória do pianista, compositor e arranjador.

O projeto parte do Acervo Laércio de Freitas, sob os cuidados do Instituto Çarê, e reúne músicos, familiares, amigos e pesquisadores para compartilhar histórias e informações sobre o artista. Fotografias, partituras, documentos e gravações ajudam a reconstruir uma trajetória que também revela diferentes capítulos da música popular brasileira.

A abertura contará com a participação do músico Nailor Provetae mediação de Pedro Fraga, coordenador do Núcleo de Música, e dos pianistas e pesquisadores Jonathan Brasileiroe Vitor Cafora, que atuam diretamente com o acervo.

O ciclo segue até 19 de novembro, criando um espaço de escuta e pesquisa em torno da obra de Laércio de Freitas.

A memória do músico também atravessa a apresentação de Alaíde Costa, no dia 25 de setembro. Em Uma Estrela para Dalva, a cantora e compositora revisita o repertório de Dalva de Oliveira, a partir do álbum homônimo lançado em 2025.

A relação com Laércio é pessoal e artística. Amigo e parceiro de Alaíde, ele participou de seis faixas do álbum Alaíde Costa, de 1965. A cantora já esteve no Instituto para compartilhar lembranças sobre o músico e contribuir para o registro de sua trajetória.

Ubere Guele - foto Thayame Soares
Ubere Guele – foto Thayame Soares

A cidade como matéria para criar

O trabalho de preservação também pode partir de materiais aparentemente banais. No dia 26, a artista Patzu Orvalhoconduz a oficina Encadernação urbana, desdobramento da segunda edição da Feira da Gamela, realizada em maio no Çarê.

Mapas de São Paulo, cartazes, sacolas e outros papéis descartados são transformados em cadernos artesanais por meio de técnicas de encadernação, bordado e costura japonesa.

O exercício aproxima reaproveitamento, memória e criação artística. Materiais que normalmente seriam descartados passam a carregar novas histórias, transformando fragmentos da vida urbana em objetos que podem ser preservados.

Memória também é convivência

A atuação do Instituto se estende ainda para além dos espaços tradicionalmente associados à preservação cultural. O Cine Pipoca, realizado em parceria com o Consultório na Rua – Equipe Ceagesp, promove sessões mensais de cinema voltadas a pessoas em situação de rua e em extrema vulnerabilidade.

A iniciativa utiliza o cinema como espaço de encontro, convivência e construção de vínculos com o território, ampliando a compreensão sobre o papel de uma instituição cultural e sobre quem tem direito a ocupar seus espaços.

Na esfera digital, essa política de preservação e circulação da memória chega, em 30 de setembro, ao segundo episódio da nova temporada do podcast Baú do Zuza. O programa recupera uma entrevista inédita realizada por Zuza Homem de Mellocom Ronaldo Bôscoli, entre as gravações feitas pelo jornalista e pesquisador entre 1967 e 1969.

Nesta nova temporada, Charles Gavinatua como interlocutor, comentando as conversas e contextualizando o período em que foram registradas. Os episódios estão disponíveis na Rádio do Instituto Çarê, no Spotify e no YouTube.

Entre objetos africanos, manuscritos, fotografias, partituras, gravações, depoimentos e materiais encontrados nas ruas da cidade, a programação de setembro revela um mesmo princípio: a memória cultural não é estática. Ela se transforma quando os acervos são pesquisados, compartilhados, reinterpretados e colocados em contato com novos artistas e públicos.

Alaide Costa - foto @mualvesso Murilo Alvesso
Alaide Costa – foto @mualvesso Murilo Alvesso

Serviço

Exposição Recados Tramados
Abertura: 13 de setembro de 2026, domingo
Horário: das 13h às 19h
Feijoada com a Cozinha Ocupação 9 de Julho, com opção vegana, e DJ Simoníssima
Samba de Ganga: das 17h às 19h
Temporada: de 15 de setembro a 14 de novembro de 2026
Horários: de terça a sexta-feira, das 13h às 20h; sábados, das 10h às 18h

Lançamento de Iorubahia: Escritos raros sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim
Data: 16 de setembro de 2026, quarta-feira
Horário: 19h
Mesa: Ângela Lühning, Angela Fileno e Rafael Galante, com mediação de Teté Martinho
Local: Biblioteca Mário de Andrade
Entrada: gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes

Clube de Choro Laércio de Freitas
Data: 24 de setembro de 2026, quinta-feira
Horário: 19h30
Participação especial: Nailor Proveta
Mediação: Pedro Fraga, Jonathan Brasileiro e Vitor Cafora

Alaíde Costa apresenta Uma Estrela para Dalva
Data: 25 de setembro de 2026, sexta-feira
Horário: 19h30
Local: Sala do Piano

Oficina Encadernação urbana, com Patzu Orvalho
Data: 26 de setembro de 2026, sábado
Horário: das 14h às 18h
Público: a partir de 15 anos
Vagas: 15 participantes
Atividade gratuita, mediante inscrição

Segunda temporada do podcast Baú do Zuza
Segundo episódio: entrevista de Zuza Homem de Mello com Ronaldo Bôscoli
Data: 30 de setembro de 2026, quarta-feira
Rádio do Instituto Çarê https://institutocare.org.br/radio/
Spotify: https://bit.ly/4pKcCff
YouTube: https://bit.ly/4pGLX2O

Instituto Çarê – Rua Dr. Avelino Chaves, 138, Vila Hamburguesa, São Paulo – SP
Entrada: gratuita
Classificação: livre

Zuza Homem de Mello - Indaiatuba, escritório 09.05.15  - foto por James Gavin
Zuza Homem de Mello – Indaiatuba, escritório 09.05.15 – foto por James Gavin