YANUNI: a resistência de Juma Xipaia chega gratuitamente ao YouTube
Documentário acompanha a trajetória da liderança Xipaya na defesa de seu território e revela os conflitos entre povos indígenas, garimpo, mineração, desmatamento e grandes empreendimentos na Amazônia.
A história de Juma Xipaia, cacica do povo Xipaya, é também uma história sobre território, resistência e as disputas que atravessam a Amazônia brasileira. É a partir de sua trajetória que o documentário YANUNI, dirigido por Richard Ladkani, constrói um retrato íntimo de uma liderança indígena que passou de uma aldeia remota para a linha de frente da defesa dos direitos de seu povo e da floresta.
O longa chega gratuitamente ao YouTube, ampliando o acesso a uma produção que acompanha os desafios enfrentados por Juma diante das pressões provocadas pelo garimpo ilegal, pela mineração, pelo desmatamento e por grandes empreendimentos que avançam sobre territórios indígenas.
A disponibilização acontece um mês antes das eleições brasileiras, em um período marcado por debates sobre a proteção da Amazônia, os direitos dos povos originários e as políticas ambientais. No canal de Leonardo DiCaprio, o filme ganha alcance internacional e pode ser assistido gratuitamente por públicos de diferentes países. A produção conta com legendas em português, inglês, alemão, francês, espanhol, catalão, italiano e tailandês.
Mais do que registrar conflitos ambientais, YANUNI acompanha as pessoas que vivem no centro deles.
Uma liderança entre a aldeia e o poder público
A trajetória de Juma é marcada por uma mudança de escala. Sua atuação parte da defesa de seu território e chega às estruturas do governo federal, onde ocupou o cargo de primeira secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do recém-criado Ministério dos Povos Indígenas.
A passagem pelo poder público, entretanto, não significa o afastamento dos conflitos vividos em seu território. O documentário acompanha as tensões entre a atuação institucional e as ameaças enfrentadas por quem está na linha de frente da defesa da floresta.
A história de Juma também é atravessada pela violência. O filme registra que ela sobreviveu a diversas tentativas de assassinato e acompanha o aumento das ameaças relacionadas à sua atuação.
Ao lado dela está Hugo Loss, seu marido e agente federal do Ibama, cuja atuação aparece no documentário a partir das operações contra o garimpo ilegal. As trajetórias dos dois se cruzam em uma região onde a proteção ambiental, a defesa territorial e a segurança pessoal muitas vezes fazem parte do mesmo conflito.
O território como lugar de vida
Um dos aspectos centrais de YANUNI é justamente a perspectiva de quem vive no território. A Amazônia não aparece apenas como uma paisagem distante ou como um espaço associado às grandes questões ambientais do planeta. Ela é apresentada como lugar de moradia, memória, pertencimento e continuidade cultural.
A defesa da floresta, nesse contexto, está diretamente relacionada à defesa de modos de vida indígenas. A disputa pelo território envolve também a preservação de conhecimentos, relações comunitárias e formas próprias de compreender a natureza.
É nesse ponto que a trajetória de Juma ganha uma dimensão que ultrapassa sua experiência individual. Sua atuação representa uma luta coletiva por território e direitos, mas o filme também procura mostrar o custo pessoal dessa resistência.
O custo da resistência
A dimensão política de YANUNI convive com uma narrativa pessoal. Em meio à atuação pública e às ameaças crescentes, Juma enfrenta também as mudanças provocadas pela chegada de seu segundo filho.
A maternidade introduz outra camada na história. A liderança indígena que enfrenta conflitos territoriais, participa da política institucional e denuncia ameaças precisa lidar simultaneamente com as responsabilidades e vulnerabilidades de sua vida familiar.
Essa aproximação torna o documentário menos uma narrativa abstrata sobre a Amazônia e mais um retrato de uma mulher diante de escolhas concretas, riscos e responsabilidades.
A floresta, nesse sentido, deixa de ser apenas o tema do filme para se tornar o território onde essas experiências acontecem.

Uma história brasileira que ganhou o mundo
A trajetória de YANUNI também revela o interesse internacional pelo cinema documental voltado às questões ambientais e indígenas. O filme estreou no encerramento do Festival de Cinema de Tribecae, nos seis meses seguintes, passou por 65 festivais em 12 países.
A produção recebeu 25 prêmios, entre eles os de Melhor Documentário e Melhor Direção no SCAD Savannah Film Festival, e integrou a shortlist do Oscar 2026 na categoria de Melhor Documentário de Longa-Metragem.
Agora, a chegada gratuita ao YouTube modifica a escala de circulação do filme. Uma obra que passou pelo circuito de festivais e alcançou diferentes países passa a estar disponível para um público muito mais amplo.
As legendas em oito idiomas reforçam essa dimensão internacional, mas também cumprem outra função: permitem que uma história localizada em um território específico da Amazônia seja compreendida como parte de uma discussão que ultrapassa fronteiras.
A voz de quem vive a floresta
Para Juma Xipaia, que também participa da produção do documentário, a disponibilização gratuita é uma forma de ampliar o alcance da história.
“Como parte da equipe de produção do filme, tenho orgulho de termos escolhido disponibilizá-lo gratuitamente no YouTube, para que essa história possa chegar a todos”, afirma.
A escolha é particularmente significativa porque YANUNI não parte apenas de uma observação externa sobre os conflitos amazônicos. A narrativa acompanha uma liderança indígena que participa diretamente da disputa por território e direitos e que, ao mesmo tempo, experimenta as consequências pessoais dessa atuação.
A história de Juma coloca em primeiro plano uma questão que há décadas atravessa a Amazônia brasileira: quem tem o direito de decidir sobre o território e sobre o futuro da floresta?
Sobre o filme
YANUNI é uma produção da Malaika Pictures, em associação com Appian Way, Nia Tero, Age of Union e Tellux Group, com apoio do Instituto Austríaco de Cinema.
Elenco:Juma Xipaia e Hugo Loss
Direção e roteiro:Richard Ladkani
Produção:Juma Xipaia, Leonardo DiCaprio, Anita Ladkani, Richard Ladkani, Jennifer Davisson e Phillip Watson
Cinematografia:Richard Ladkani
Composição:H. Scott Salinas
Edição:Georg Michael Fischer, bfs
Produção executiva:Dax Dasilva, Joanna Natasegara, Laura Nix, Eric Terena, Martin Choroba e Philipp Schall
Segunda câmera:Fábio Nascimento
Trilha sonora:Katú Mirim
Vocais:Djuena Tikuna
Países:Áustria, Brasil, Estados Unidos, Canadá e Alemanha

