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Máscaras do Xingu revelam a presença dos espíritos e a dimensão sagrada dos rituais indígenas

Exposição no Museu de Arte Indígena, em Curitiba, apresenta as máscaras Apapaatai e aborda sua relação com a cosmologia, os processos de cura e as tradições dos povos do Médio e Alto Xingu.

No universo dos povos indígenas do Médio e Alto Xingu, as máscaras são muito mais do que objetos ou representações visuais. São vestimentas rituais que permitem a manifestação de seres sobrenaturais, estabelecem relações entre diferentes dimensões da existência e participam de práticas fundamentais, como os processos de cura. Essa concepção orienta a exposição Máscaras do Xingu: Os Seres Apapaatai e Suas Histórias, em cartaz no Museu de Arte Indígena (MAI), em Curitiba.

Na cosmologia da região, a origem desses seres está relacionada a um tempo anterior à presença da luz. Segundo essa narrativa, o mundo era tomado pela escuridão e habitado pelos Yerupoho. Com o nascimento dos heróis míticos Sol e Lua, a claridade tornou-se uma ameaça para esses seres, que precisaram se refugiar. Para se proteger, criaram indumentárias e objetos especiais, transformando-se em Apapaatai.

Dotados de potência xamânica, os Apapaatai podem estabelecer contato com humanos e outros seres míticos. As máscaras são parte dessa relação: tornam visível aquilo que não pode ser visto e oferecem aos espíritos uma forma de se manifestar no mundo. Não são, portanto, simples representações de entidades, mas vestimentas que possibilitam sua presença e atuação durante os rituais.

Título: Kupulukumã
Etnia: Mehinako 
Procedência: Parque Indígena do Xingu - MT 
Foto: Acervo MAI - Museu de Arte Indígena
Título: Kupulukumã
Etnia: Mehinako
Procedência: Parque Indígena do Xingu – MT
Foto: Acervo MAI – Museu de Arte Indígena

A identidade que se manifesta no ritual

Na tradição apresentada pela mostra, o termo máscara não se restringe à peça que cobre o rosto. Refere-se ao conjunto da indumentária, que pode reunir quatro elementos: a cobertura da cabeça (otowonai), a saia (pisi), a calça (puti) e as mangas (owana).

A identidade de cada máscara está relacionada aos grafismos, às marcas e, sobretudo, à performance ritual. Cantos, danças, alimentos e objetos utilizados durante as cerimônias são elementos que permitem reconhecer o espírito ao qual a vestimenta está associada. Fora desse contexto, sua identificação pode se tornar mais difícil, mesmo quando os grafismos permanecem visíveis.

Entre os Waurá, os desenhos seguem um repertório amplo, que pode reunir de dez a 45 motivos, embora cerca de 16 sejam utilizados com maior frequência. A pintura não é necessariamente fixa: pode variar conforme aquilo que o especialista ritual, o yakapá, observa e interpreta. Os grafismos expressam, assim, tanto a identidade dos seres quanto a liberdade de criação associada a eles.

A exposição apresenta também dois tipos principais de máscaras: Sapukuyawá e Atujuwá. As primeiras têm estrutura retangular e vertical, com formas que remetem às anatomias dos Apapaatai, e apresentam grafismos nas laterais. Suas cores são obtidas de materiais naturais, como o jenipapo, responsável pelo preto, o urucum, pelo vermelho, e a raiz da árvore de urucum, pelo amarelo.

As máscaras Atujuwá, por sua vez, passaram por um período de ausência nas cerimônias entre 1890 e 1965. Epidemias que atingiram sucessivamente as aldeias impediram a realização das festas dedicadas aos Apapaatai. Mesmo sem aparecer nos rituais, esses seres continuaram presentes na vida cotidiana, manifestando-se por meio de representações em panelas e outros objetos.

Título: Xapukuyawá 
Etnia: Mehinako 
Procedência: Parque Indígena do Xingu - MT
Foto: Acervo MAI - Museu de Arte Indígena
Título: Xapukuyawá
Etnia: Mehinako
Procedência: Parque Indígena do Xingu – MT
Foto: Acervo MAI – Museu de Arte Indígena

Flautas, sons e relações com o mundo espiritual

A relação entre os Apapaatai e os objetos rituais também aparece em instrumentos como a flauta Kawoká, associada ao espírito Jakui, considerado um dos seres mais poderosos do Médio e Alto Xingu. Segundo as narrativas, esse espírito pode estabelecer vínculos com os humanos, mas exige exclusividade. Sua presença também está relacionada a restrições culturais: a tradição apresentada no texto da exposição conta que as flautas pertenciam originalmente às mulheres, mas foram tomadas pelos homens, e hoje elas não têm permissão para olhar esses instrumentos.

Outro objeto associado à presença espiritual é o zunidor, relacionado ao apapayêi matapu, dos Mehinako. Considerado um espírito poderoso e mais velho, ele é associado ao ensinamento de outros apapayêi. O som produzido quando o instrumento é girado é entendido como a própria voz do Apapaatai.

Ao apresentar essas narrativas, Máscaras do Xingu: Os Seres Apapaatai e Suas Histórias amplia o entendimento sobre a produção material indígena e sua relação com conhecimentos, práticas e cosmologias. A mostra propõe olhar para as máscaras não apenas como objetos de valor artístico, mas como elementos de sistemas culturais nos quais o fazer, a memória, a espiritualidade e a vida coletiva estão profundamente conectados.

Título: Apasa
Etnia: Yawalapiti
Procedência: Parque Indígena do Xingu - MT 
Foto: Acervo MAI - Museu de Arte Indígena
Título: Apasa
Etnia: Yawalapiti
Procedência: Parque Indígena do Xingu – MT
Foto: Acervo MAI – Museu de Arte Indígena

Serviço

Máscaras do Xingu: Os Seres Apapaatai e Suas Histórias

Museu de Arte Indígena (MAI)
Av. Água Verde, 1413 – Água Verde – Curitiba/PR

Horário: de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h30.

Ingressos:
Meia-entrada: R$ 16
Inteira: R$ 32

Informações: mai@maimuseu.com.br
Agendamentos: educativo@maimuseu.com.br