Nossa Arte — Novos Olhares apresenta um painel da arte espontânea atual
Das periferias às comunidades indígenas, do interior às zonas rurais, exposição na Z42 Arte amplia o mapa da pintura brasileira e aproxima diferentes formas de criar, viver e representar o país.
Com curadoria de Fabio Szwarcwald, Paulo Tavares e Peralta, mostra reúne 20 artistas de diferentes gerações e regiões e questiona as fronteiras entre arte contemporânea e arte popular
Em um país onde a produção artística ainda costuma ser interpretada a partir de poucos centros de consagração, Nossa Arte — Novos olhares sobre a pintura brasileira contemporânea propõe uma mudança de perspectiva: olhar para outros territórios, outros repertórios e outras formas de fazer arte.
A exposição inaugura em 9 de setembro de 2026, às 18h, na Z42 Arte, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, reunindo 20 artistas de diferentes gerações e regiões do Brasil, com curadoria de Fabio Szwarcwald, Paulo Tavares e Peralta. Em cartaz até 31 de dezembro, a coletiva apresenta uma pintura que nasce, em grande parte, distante dos circuitos tradicionais de formação, crítica e legitimação artística.
O mapa construído pela exposição percorre Amazonas, Pará, Pernambuco, Paraíba, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Participam Ademilson Felipe, Ágatha Porciúncula, Amomm H. de Deus, Duarte Yanomami, Eli Bacelar, Gê Guevara, Graciete Borges, Helena Rodrigues, José Carlos de Oliveira, Maria José Batista, Matheus Matias, Rhuan, Rodorigo, Seo Antônio Ferreira, Tercília dos Santos, Valques Pimenta, Waldecy de Deus, Wilson dos Santos Formiga, Zayre e Zezim.
Mais do que reunir artistas de diferentes pontos do país, Nossa Arte coloca em confronto e diálogo diferentes experiências de vida que encontram na pintura uma forma de expressão. São trabalhos atravessados pelo cotidiano, pelo trabalho, pela religiosidade, pelas festas populares, pelas relações com a terra e com a comunidade, pelas memórias familiares e pelas paisagens físicas e afetivas de cada território.

Um Brasil que a pintura revela
A diversidade geográfica é um dos eixos curatoriais da mostra. Produções realizadas nas periferias das grandes cidades encontram trabalhos desenvolvidos em comunidades indígenas, cidades do interior e zonas rurais. Artistas com décadas de trajetória são apresentados ao lado de criadores que começam a conquistar maior visibilidade.
A aproximação produz uma pergunta fundamental: o que determina o lugar de um artista na história da arte?
A formação acadêmica? A circulação em galerias e museus? A crítica especializada? O mercado? Ou a potência de uma obra e a capacidade de um artista transformar sua experiência em linguagem?
É nesse território de tensão que a exposição se coloca. Ao reunir artistas frequentemente identificados como autodidatas ou vinculados à chamada “arte popular”, os curadores questionam a própria divisão que historicamente separou essa produção daquilo que se convencionou chamar de arte contemporânea.
O resultado é uma cartografia múltipla da pintura brasileira contemporânea, na qual os caminhos de formação são tão diversos quanto os mundos representados.
“Há anos, busco conhecer artistas que trabalham fora do eixo Rio-São Paulo. Gosto de estar com eles, conhecer seus lugares e entender como trabalham. Nossa Arte nasce também desses encontros e da vontade de mostrar uma produção que revela a enorme diversidade cultural do país. Precisamos sair das nossas bolhas para perceber a capacidade criativa que existe em tantos outros territórios brasileiros”, afirma Paulo Tavares.
Para Peralta, esse deslocamento do olhar é justamente um dos sentidos centrais da exposição.
“Enxergo essa mostra como um exercício de olhar para dentro. O que temos de maior riqueza é a diversidade cultural. Muitas vezes, centralizamos nosso olhar em um eixo sociocultural que acaba produzindo um imaginário monótono sobre o próprio país. Nossa Arte propõe um contraponto ao reunir artistas e experiências que raramente aparecem juntos quando se pensa a pintura brasileira contemporânea. É interessante perceber que muitos já têm mais de uma década de produção consistente.”

Autodidatismo como potência
Um dos aspectos mais fortes da mostra está na presença de artistas cuja trajetória não passou pelos caminhos convencionais da formação artística.
Para Fabio Szwarcwald, essa condição não deve ser compreendida como ausência, mas como outra forma de formação — construída pela experiência, pela observação, pelo trabalho, pela tradição familiar e pelo contato direto com a vida.
“Um dos grandes objetivos da exposição é abrir espaço para que artistas autodidatas sejam vistos e reconhecidos pela força de seus trabalhos, sem que a formação artística convencional seja um parâmetro para determinar o lugar que ocupam. São obras profundamente ligadas às experiências de vida de cada um, às suas questões e modos de perceber o mundo. Ao aproximá-las, Nossa Arte permite ao público entrar em contato com diferentes Brasis por meio da pintura”, afirma o curador.
Essas trajetórias revelam como a arte pode nascer nos lugares mais inesperados.
Ademilson Felipe, natural de São José de Ubá, no noroeste fluminense, trabalhou no campo antes de se mudar para a periferia de Itaperuna, onde passou a trabalhar na construção civil. Foi justamente nesse universo que encontrou os materiais que dariam início à sua trajetória artística. As primeiras tintas foram utilizadas para pintar as paredes de sua própria casa. Depois vieram as sobras de madeira e as telas.
A história de José Carlos de Oliveira, de Pernambuco, também atravessa diferentes universos de trabalho e cultura popular. Cortador de cana, trabalhador de usina e servente de pedreiro, ele também se apresentou em circo, foi seresteiro e aprendeu com o pai o ofício do mamulengo, tradicional teatro popular de bonecos do Nordeste.
Durante anos, dedicou-se à escultura de bonecos de madeira. Em determinado momento, as tintas entraram em seu processo de criação e abriram um novo caminho para sua expressão.
São histórias como essas que ampliam o significado da exposição.
Pintar o território, pintar a experiência
Em Nossa Arte, a pintura aparece como uma linguagem capaz de registrar aquilo que muitas vezes não está nos grandes relatos sobre o Brasil. E sim nas experiências de quem vive longe dos centros de produção e circulação cultural.
Nesse sentido, a exposição também funciona como uma espécie de inventário visual de diferentes Brasis. Não um Brasil único, homogêneo e reconhecível por poucos símbolos, mas um país formado por inúmeras experiências culturais que convivem, se cruzam e também se contradizem.
A mostra desloca, portanto, não apenas o mapa geográfico da arte brasileira, mas também o próprio olhar do público.
Uma pintura fora das bolhas
A força curatorial de Nossa Arte está justamente em provocar esse deslocamento.
Em vez de procurar uma unidade estética entre os 20 artistas, a exposição valoriza a diferença. Em vez de enquadrar cada produção em uma categoria previamente estabelecida, aproxima linguagens e trajetórias para que o próprio público perceba suas relações, contrastes e singularidades.
Em abordagem muito semelhante a “Exposição Tesouro Escondido – Hidden Treasures”, que a RAIZ realizou para a Copa do Mundo de 2014.
- A mostra Tesouro Escondido – Hidden Treasures pode ser vista na galeria:
- Mostra Tesouro Escondido — Revista RAIZ – cultura brasileira

