“Mulheres da Boca”: exposição no MIS recupera imagens de documentário realizado na Boca do Lixo
Fotografias feitas durante as filmagens do documentário de 1981 registram trabalhadoras do sexo, personagens e o cotidiano de uma região que reuniu prostituição, vida noturna e uma importante produção cinematográfica.
Quarenta e cinco anos depois do lançamento de “Mulheres da Boca” (1981), o MIS – Museu da Imagem e do Som apresenta uma exposição que recupera parte do material produzido durante as filmagens do documentário experimental dirigido por Cida Aidar e Inês Castilho.
A mostra inaugura em 2 de setembro, no Espaço Maureen Bisilliat, em São Paulo, reunindo fotografias de Wagner Carvalho realizadas nas ruas da chamada Boca do Lixo, na região central da cidade, entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980.
Preservadas em negativos durante décadas, as imagens foram restauradas e digitalizadas para a exposição. O conjunto registra trabalhadoras do sexo, homens ligados à exploração da prostituição, frequentadores e diferentes situações do cotidiano da região, então marcada pela presença simultânea de casas de prostituição, atividades noturnas e uma intensa produção cinematográfica.
A Boca do Lixo ocupava uma posição particular na história cultural de São Paulo. A região concentrava produtoras, distribuidoras, profissionais e equipes de cinema, especialmente de produções independentes e de baixo orçamento. O mesmo território em que circulavam cineastas e trabalhadores do audiovisual também era marcado pela prostituição e por diferentes formas de marginalização social.
É nesse ambiente que “Mulheres da Boca” foi realizado. O documentário acompanhou mulheres que trabalhavam na região e procurou registrar suas condições de vida e trabalho a partir de uma perspectiva feminista. A exposição recupera as fotografias produzidas paralelamente às filmagens e amplia o acesso a um material que permaneceu preservado em arquivo.

Mulheres, cinema e documentação
A mostra também recupera a trajetória das realizadoras que estavam envolvidas com o movimento feminista e com a produção cultural daquele período.
Inês Castilho foi cofundadora do jornal “Nós Mulheres” e editora da revista “Mulherio”, publicada entre 1981 e 1989. Ao lado de Cida Aidar, realizou “Mulheres da Boca” e, posteriormente, “Histerias” (1983). Os dois filmes integram a produção do cinema feminista brasileiro do início dos anos 1980.
A realização do documentário ocorreu em um momento de reorganização dos movimentos feministas no Brasil e de ampliação dos espaços de debate sobre trabalho, sexualidade, violência e representação das mulheres. Levar uma câmera para a Boca do Lixo significava também registrar personagens que raramente apareciam nos discursos oficiais sobre a cidade e sobre a própria produção cultural daquele período.
As fotografias de Wagner Carvalho funcionam hoje como documentos de uma região que passou por profundas transformações urbanas e culturais. São registros de pessoas, fachadas, ruas e situações cotidianas que ajudam a reconstituir a atmosfera da Boca do Lixo no início dos anos 1980.
A Boca do Lixo e o cinema paulista
A exposição também recupera uma parte da história do cinema brasileiro que se desenvolveu naquele território.
Entre as décadas de 1960 e 1980, a região da Rua do Triunfo e seus arredores tornou-se um dos principais pontos de produção e circulação do cinema independente paulista. O local abrigou produtoras, distribuidoras e profissionais que trabalhavam em filmes realizados fora das estruturas tradicionais da indústria.
O próprio Wagner Carvalho construiu parte de sua trajetória nesse ambiente. Formado em cinema pela ECA-USP, participou da produção de filmes como “Greve”, “O Homem que Virou Suco” e “A Próxima Vítima”, de João Batista de Andrade; “Cidade Oculta”, de Chico Botelho; e “Comitiva Esperança”, que também dirigiu. Durante esse período, registrava também os bastidores das filmagens, entre eles os de “Mulheres da Boca”.
Essas fotografias ganharam outra função com o passar do tempo. Produzidas originalmente como documentação de um processo cinematográfico, passaram a constituir um registro visual de uma região e de seus personagens.

Fotografia, memória e cidade
Com curadoria de Inês Castilho, Marcelo Colaiácovo e William Plotnick, a exposição reúne fotografia, cinema e documentação histórica a partir de um conjunto de imagens que permite observar a Boca do Lixo por diferentes perspectivas.
A presença das fotografias ao lado das referências ao filme desloca o foco da obra cinematográfica para o processo que a produziu. Os registros mostram pessoas e situações que estavam diante da câmera, mas também revelam o ambiente urbano no qual o documentário foi realizado.
A recuperação desse material ocorre em um momento em que a região da antiga Boca do Lixo continua sendo objeto de pesquisas, projetos de preservação e iniciativas ligadas à memória do cinema paulista.
Para Marcelo Colaiácovo, cineasta, curador e produtor, a exposição também se relaciona com seu trabalho de preservação da memória cinematográfica da região. Ele é fundador da produtora Resistência Filmes e idealizador do Museu Soberano — Rua do Triunfo, dedicado à história do cinema paulista.
Já William Plotnick, arquivista audiovisual de Nova Jersey e cofundador da Cinelimite, atua na preservação e distribuição do cinema brasileiro. Mestre em preservação de filmes pela New York University e em estudos de cinema pela Columbia University, participa da organização do material que chega agora ao público.
A exposição inclui ainda uma programação de filmes e palestras, ampliando o conjunto documental apresentado pelas fotografias.
Ao recuperar imagens produzidas há mais de quatro décadas, “Mulheres da Boca” coloca novamente em circulação registros de mulheres, cineastas e trabalhadores que fizeram parte da vida cultural de uma região específica de São Paulo. As fotografias permitem observar, hoje, pessoas e espaços que participaram de uma história compartilhada entre cinema, trabalho, vida noturna e transformações urbanas.

Serviço | Exposição “Mulheres da Boca”
Mulheres da Boca
Abertura: 2 de setembro, quarta-feira, às 19h
Visitação: até [informar período, se disponível]
Local: Espaço Maureen Bisilliat – MIS (Museu da Imagem e do Som)
Endereço: Avenida Europa, 158, Jardim Europa – São Paulo (SP)
Entrada: gratuita
Classificação: 16 anos
A programação é realizada pelo Ministério da Cultura e pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e pelo Museu da Imagem e do Som, com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Pro-Mac.

