Tarsila do Amaral, 140 anos: a arte que transformou São Paulo em matéria-prima do Modernismo
Entre paisagens do interior paulista, vanguardas europeias e referências populares, Tarsila construiu uma linguagem própria que ajudou a redefinir a imagem do Brasil na arte do século XX.
Poucas trajetórias estão tão profundamente ligadas à construção de uma imagem moderna do Brasil quanto a de Tarsila do Amaral. Nascida em 1º de setembro de 1886, em Capivari, no interior de São Paulo, a artista atravessou algumas das principais transformações culturais do país na primeira metade do século XX e tornou-se uma das figuras centrais do Modernismo brasileiro.
Ao completar 140 anos de nascimento em 2026, Tarsila permanece presente não apenas pela força de suas pinturas, mas pela maneira como sua obra ajudou a deslocar o olhar sobre o próprio país. Em suas telas, paisagens, personagens, cores, formas e elementos da cultura brasileira passaram a ser tratados a partir de uma linguagem artística moderna, sem que isso significasse romper com a memória e as referências locais.
São Paulo teve papel fundamental nesse processo. O estado foi território de sua infância, cenário de suas lembranças e, posteriormente, espaço de circulação de ideias e de encontro com artistas que participaram da renovação cultural brasileira. A artista transformou essas experiências em uma pintura que assimilou as vanguardas europeias sem abandonar a busca por uma identidade visual brasileira.
As paisagens da infância
A relação de Tarsila com o interior paulista começou cedo. Sua infância transcorreu na Fazenda São Bernardo, em Capivari — atual município de Rafard — e posteriormente na Fazenda Santa Teresa do Alto, em Mont Serrat.
As paisagens dessas propriedades, a vida rural, as histórias e as imagens acumuladas durante a infância permaneceriam como referências importantes ao longo de sua trajetória. Décadas depois, esses elementos reapareceriam transformados pela imaginação da artista, em uma combinação particular entre memória, fantasia e observação.
Essa experiência contribuiu para a construção de um repertório que se distanciava do academicismo predominante na pintura brasileira de então. Tarsila encontraria nas vanguardas europeias ferramentas para reorganizar visualmente aquilo que já carregava de sua experiência brasileira.
O resultado não foi simplesmente a adoção de uma estética estrangeira. Sua pintura buscou justamente produzir uma síntese: incorporar procedimentos do cubismo e de outras correntes modernas para representar um país marcado por paisagens, personagens, culturas e histórias próprias.
São Paulo e a invenção de uma nova arte
A trajetória de Tarsila se cruza diretamente com o ambiente cultural paulista que antecedeu e sucedeu a Semana de Arte Moderna de 1922. O movimento modernista questionava os modelos artísticos herdados da tradição acadêmica e defendia a construção de novas formas de expressão capazes de dialogar com a realidade brasileira.
Tarsila não participou da Semana de 22, mas tornou-se posteriormente uma das figuras fundamentais do movimento. Sua aproximação com artistas como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Anita Malfatti ampliou o ambiente de experimentação que caracterizou o Modernismo.
Em Paris, onde estudou e entrou em contato com artistas e tendências das vanguardas europeias, aprofundou sua pesquisa. Ao retornar ao Brasil, porém, o que estava em jogo não era simplesmente reproduzir aquilo que havia aprendido na Europa. Era descobrir como utilizar a linguagem moderna para representar o país que conhecia.
Essa busca está na origem de algumas das imagens mais emblemáticas da arte brasileira.

Abaporu e a Antropofagia
Em 1928, Tarsila pintou Abaporu, obra que se tornaria um dos símbolos mais reconhecidos do Modernismo brasileiro. A pintura foi dada de presente a Oswald de Andrade e teria papel decisivo na formulação do movimento antropofágico.
A partir dela, Oswald escreveu o Manifesto Antropófago, publicado em 1928, propondo uma metáfora cultural baseada na ideia de “devorar” referências estrangeiras para transformá-las em algo próprio.
A formulação sintetizava uma questão que também atravessava a produção de Tarsila: como incorporar as linguagens internacionais da modernidade sem abrir mão da experiência brasileira?
A resposta da artista apareceu em uma pintura povoada por cores intensas, formas simplificadas, paisagens imaginadas e referências à cultura popular. Em vez de escolher entre tradição e modernidade, Tarsila trabalhou justamente na tensão entre esses universos.
Da antropofagia à dimensão social
A obra de Tarsila não permaneceu presa a uma única linguagem. Ao longo das décadas, sua pintura passou por diferentes momentos, incorporando o cubismo, o surrealismo e, posteriormente, uma dimensão social mais explícita.
A transformação do Brasil urbano e industrial, as desigualdades sociais e o universo do trabalho passaram a ocupar um espaço maior em sua produção.
É nesse contexto que surge Operários, de 1933, uma de suas obras mais importantes. A pintura apresenta uma multidão de rostos diante de um cenário industrial e tornou-se uma das imagens mais contundentes da representação do trabalho e da formação da sociedade urbana brasileira.
A mudança de orientação revela uma artista que não tratava sua linguagem como fórmula. Tarsila acompanhou as transformações de seu tempo e encontrou diferentes maneiras de representar um país em processo de profundas mudanças econômicas e sociais.

O diálogo entre tradição e modernidade
Essa diversidade de fases está no centro da exposição “Tarsila do Amaral e a ‘Volta ao Clássico’”, em cartaz até 30 de setembro no Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão.
Com curadoria de Renata Rocco e Raquel Ruiz, a mostra reúne 16 obras de Tarsila pertencentes ao Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo, abrangendo cinco décadas de sua produção. Entre os trabalhos apresentados estão Operários (1933) e Religião Brasileira (1927).
O título da exposição parte de uma crônica homônima publicada por Tarsila em 1939 e propõe observar justamente as relações entre tradição e modernidade presentes em sua trajetória.
Mais do que organizar a produção da artista em períodos estanques, a mostra permite perceber a continuidade de algumas de suas questões fundamentais: a relação com o Brasil, a memória, a cultura popular e a busca por uma linguagem capaz de conciliar referências aparentemente distintas.
Uma obra que permanece brasileira
A importância de Tarsila para a história da arte brasileira está também na capacidade de sua obra permanecer reconhecível e contemporânea. Suas imagens atravessaram o século XX e continuam sendo revisitadas por artistas, pesquisadores, estudantes e pelo público em geral.
Parte dessa permanência está justamente na tensão que sustenta sua produção. Tarsila foi uma artista profundamente conectada às vanguardas internacionais, mas sua pintura nunca deixou de retornar ao Brasil. As paisagens da infância, os personagens populares, as cidades, o trabalho e as referências culturais brasileiras foram incorporados a uma linguagem que ajudou a romper com modelos anteriores de representação.
Sua trajetória também contribuiu para ampliar a presença feminina em um ambiente artístico ainda fortemente marcado pela predominância masculina. Tarsila tornou-se uma das figuras mais conhecidas do Modernismo brasileiro e uma referência incontornável para compreender a participação das mulheres na renovação cultural do país.

Serviço
Exposição “Tarsila do Amaral e a ‘Volta ao Clássico’”
Palácio Boa Vista – Campos do Jordão (SP)
Visitação: até 30 de setembro de 2026
Entrada gratuita
Atendimento por ordem de chegada.
Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo
www.acervo.sp.gov.br

