Dez escritoras, uma cidade: a Casa Museu Ema Klabin convida São Paulo a se ver pelo olhar feminino
São Paulo tem muitas histórias. Mas nem todas chegam ao mesmo lugar com a mesma força. A exposição Habitar São Paulo: relatos femininos, em cartaz na Casa Museu Ema Klabin de 30 de maio a 27 de setembro, parte de uma premissa simples e poderosa: deixar que dez escritoras — de épocas, territórios e contextos sociais muito diferentes entre si — contem o que é viver nessa cidade.
O resultado é uma mostra que oscila, de propósito, entre o íntimo e o coletivo. Entre o quarto e a rua. Entre a memória de uma casa e a memória de uma metrópole inteira.
Uma cidade em cinco percursos
Com idealização do curador Paulo de Freitas Costa e curadoria do núcleo educativo da casa museu, a exposição organiza os relatos em cinco eixos narrativos: família, trabalho e convívio; memória de objetos e espaços; da janela para fora; percepções sensoriais; e a cidade sonhada. Cada percurso se distribui pelos ambientes da casa museu — e a escolha do espaço não é casual. Uma casa que guarda memória é o lugar mais adequado para abrigar histórias sobre o que significa habitar.
Os trechos literários selecionados aparecem ao lado de fotografias raras dos ambientes domésticos de cada escritora, ampliando o diálogo entre palavra e imagem, literatura e memória. O público também tem acesso a gravações em áudio com vozes femininas narrando os textos — e a um espaço de leitura com obras das participantes.
“São Paulo guarda muitas memórias, muitas histórias. A exposição toma emprestado o olhar dessas escritoras que descreveram realidades tão particulares quanto universais, nos trazendo relatos sensíveis, trágicos, íntimos ou até engraçados“, explica Cristiane Alves, coordenadora do educativo e uma das curadoras da mostra.

As dez vozes
São elas: Gilda de Mello e Souza, Zélia Gattai, Rita Lee, Giovana Madalosso, Paula Fábrio, Adriele Oliveira, Helena Silvestre, Lilia Guerra, Luísa Marilac e Prudence Kalambay — um arco que atravessa gerações, classes sociais e geografias urbanas.
Rita Lee aparece num trecho de Outra Autobiografia (2023) em que descreve, com humor cortante, a transformação do próprio quarto diante da doença: o gaveteiro art déco que de repente se enche de remédios, o espaço doméstico que vira “puxadinho do hospital — só que radicalmente psicodélico“. É uma cena pequena que diz tudo sobre como os lugares que habitamos também nos habitam.
Zélia Gattai recupera, em Anarquistas, Graças a Deus, uma São Paulo atravessada por lendas familiares e casas mal-assombradas — onde o real e o imaginário se misturam, e a cidade se revela como construção tanto física quanto narrativa.
Já Helena Silvestre e Adriele Oliveira trazem para dentro da exposição territórios que costumam ficar de fora das narrativas sobre a cidade. Helena — escritora, ativista afroindígena, finalista do Prêmio Jabuti 2020 — escreve sobre a periferia como lugar de potência e resistência. Adriele observa como, mesmo em meio à precariedade urbana, moradores transformam suas casas em espaços de pertencimento: pequenos gestos que inscrevem afeto e dignidade na paisagem, deixando marcas visíveis onde a cidade insiste em não olhar.
“Pensamos em expandir a experiência, trazendo histórias potentes que nos permitem enxergar toda a cidade de outra forma“, afirma Paulo Costa, curador e idealizador da mostra.

A cidade que você também habita
A exposição reserva ainda um espaço de participação para o público: por meio de textos, desenhos ou gravações, visitantes podem registrar suas próprias memórias sobre habitar São Paulo — e assim fazer parte, também eles, da narrativa coletiva que a mostra vai construindo ao longo dos meses.
É um gesto coerente com o espírito da exposição: o de que toda cidade é feita de vozes que raramente se escutam ao mesmo tempo. Habitar São Paulo: relatos femininos propõe, por alguns meses, que esse coro seja possível.
SERVIÇO
Habitar São Paulo: relatos femininos
30 de maio a 27 de setembro de 2026
Casa Museu Ema Klabin
Rua Portugal, 43 — Jardim Europa, São Paulo
emaklabin.org.br
Visitas livres: quarta a domingo, das 11h às 17h (permanência até as 18h)
Visitas mediadas: quarta a sexta, às 11h, 14h, 15h e 16h | sábados, domingos e feriados, às 14h
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia) para estudantes, idosos, PCD e jovens de baixa renda


