Livro sobre o Sagrama registra mais de três décadas de música, frevo e invenção
Há grupos que fazem história em silêncio — construindo, disco a disco, show a show, uma obra que só o tempo revela em sua dimensão real. O SaGrama é um deles. Em mais de 30 anos de trajetória, o conjunto pernambucano de música instrumental acumulou dez álbuns, apresentações no Brasil e na Europa, trilhas sonoras para cinema, teatro e dança, um Prêmio da Música Brasileira e uma indicação ao Grammy Latino. Faltava, no entanto, o registro à altura de tudo isso. Ele chega agora em forma de livro.
SaGrama: um álbum por escrito, assinado pelo jornalista e crítico musical Carlos Eduardo Amaral, será lançado no dia 6 de junho, no Paço do Frevo, no Recife — com bate-papo, pocket show, sessão de autógrafos e a exibição do vídeo-documentário Na pauta: SaGrama, editado pela revista Continente da Cepe.
Com 212 páginas divididas em 23 capítulos, o livro percorre a história do grupo desde sua origem no pátio do Conservatório Pernambucano de Música, quando professores e alunos se reuniram após uma disciplina de música brasileira erudita de câmara conduzida pelo flautista e multi-instrumentista Sérgio Campelo. É dessa improvável confluência entre erudição e cultura popular nordestina que nasce o DNA do SaGrama — e é essa tensão criativa que Amaral persegue ao longo da narrativa.
Para quem quer entender essa tensão antes mesmo de abrir o livro, a Revista Raiz dedicou um episódio inteiro ao tema. Na TV Raiz #10 — SaGrama e as Fronteiras do Popular e Erudito, Sérgio Campelo fala sobre a trajetória do grupo, suas influências e o lugar singular que o SaGrama ocupa entre a tradição e a invenção:
📺 Assista aqui: TV Raiz #10 — SaGrama e as Fronteiras do Popular e Erudito

Depoimentos inéditos iluminam os bastidores de uma trajetória que, na superfície, parece harmoniosa, mas guarda tensões estéticas produtivas. O próprio Campelo as resume com precisão: “Cláudio é mais erudito, Dimas era o mais popular, e eu misturava os dois universos.” Cláudio Moura e o maestro Dimas Sedícias — este sem integrar oficialmente o grupo, mas fundamental em sua formação sonora — aparecem como figuras centrais dessa história.
Entre os marcos revisitados, um se destaca: a participação na trilha sonora de O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, um dos maiores sucessos do cinema nacional. O SaGrama é responsável por “Presepada”, tema dos personagens João Grilo e Chicó — vividos por Matheus Nachtergaele e Selton Mello —, que se tornou uma das composições mais reconhecíveis da música pernambucana contemporânea.

O volume traz ainda apêndices com discografia completa, repertório, letras e estatísticas de carreira. Entre os entrevistados estão o produtor musical Luiz Guimarães, responsável pelos primeiros discos do grupo, o diretor João Falcão e a produtora cultural Manu Vieira, além dos próprios integrantes do SaGrama.
A escolha de Carlos Eduardo Amaral para a tarefa é acertada. Jornalista, crítico cultural, compositor e arranjador com mestrado em Comunicação pela UFPE, ele tem longa experiência na pesquisa sobre música nordestina e é autor de perfis biográficos dedicados a nomes como Maestro Formiga, Maestro Duda e Maestro Clóvis Pereira, publicados pela Cepe Editora.
“Um gesto de confiança e consideração profissional ao qual espero haver correspondido nessa presepada literomusical”, escreve Amaral na abertura — e a palavra escolhida não poderia ser mais adequada para um grupo que sempre soube misturar rigor e alegria, técnica e alma.

SERVIÇO
Lançamento do livro “SaGrama: um álbum por escrito”
Paço do Frevo (Praça do Arsenal da Marinha, s/n, Bairro do Recife)
6 de junho, às 17h

